A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






Mostrar mensagens com a etiqueta Ser. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ser. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de agosto de 2015

MENTE – CONSCIÊNCIA - IDENTIDADE



A questão da identidade essencial, a indagação em torno da pergunta “O que sou?”, constitui o núcleo à volta do qual gravitam todas as grandes tradições espirituais e religiosas.

Nesta inquirição alguns termos e expressões poderão adquirir significados ligeiramente diferentes em função do contexto e da tradição em que são utilizados. Por isso devemos evitar uma atitude demasiado rígida, permitindo-nos alguma flexibilidade na interpretação de certas palavras e expressões.

Quem leu os grandes mestres do Zen-Budismo terá reparado que nesses textos é muitas vezes utilizado o conceito de “grande mente”, “mente essencial”, "mente única" ou “mente original” para se referirem àquilo que constitui a nossa autêntica natureza, a nossa identidade essencial e que os autores Advaita (náo-dualidade) denominam “Consciência”. Ambas as tradições apontam para a mesma realidade.

Na maioria dos textos Advaita faz-se uma distinção entre  mente e consciência, que de forma breve podemos clarificar como segue:

Mente – É expressão da experiência individual sob a forma de pensamentos, memórias, desejos e aversões, emoções e sentimentos. É apenas um objeto ou conteúdo da consciência. É resultado do tempo e está sujeita ao jogo da mudança e da impermanência. O "eu" pessoal e fenoménico e aquilo a que chamamos "personalidade" não passa de uma construção fictícia que resulta da nossa identificação com estas formações mentais.

Consciência – É aquilo que constitui a nossa verdadeira natureza, essencial e imutável. É omnipresente, atemporal, impessoal e universal. Não tem quaisquer limites, qualidades ou dimensões.  É informe e vazia, sem qualquer ubicação no tempo ou espaço. Sendo pura subjetividade não pode ser percebida objetivamente. É a realidade última e primeira a que em última instância é redutível todo o fenómeno e experiência. Esta Consciência é o que realmente somos. É aquilo que se encontra por trás da expressão "Eu Sou" ou "Existo".

Esta distinção é importante porque o nosso ser autêntico e essencial, aquilo que realmente somos, não pode ser identificado com nada que seja objeto de percepção ou experiência. A forma como em cada momento pensas, atuas e sentes, apenas reflete o teu estado, não define aquilo que tu és. David Hume, uma importante figura da filosofia ocidental, também se apercebeu disto, o que o levou a negar qualquer realidade substancial ao “eu” individual,  tal como já havia feito o Buda há 2500 anos.
 “Quanto a mim, quando penetro mais intimamente naquilo a que chamo eu próprio, tropeço sempre numa ou outra percepção particular, de frio ou calor, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de dor ou prazer. Nunca consigo captar-me a mim próprio, em qualquer momento, sem uma percepção, e nada posso observar a não ser a percepção.”                                                                        -David Hume, Tratado da Natureza Humana
Fernando Pessoa faz uma reflexão semelhante no Livro do Desassossego:
"A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas." -Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

É importante notar que não existe um "eu" e a "consciência" como coisas separadas. A consciência não é um atributo, não é algo que tu tens, é aquilo que tu és. Só existe consciência e não um "eu" que é consciente. Não são as pessoas que têm consciência, é a consciência que tem pessoas. A aparente existência de um "eu" como entidade separada, não passa de uma sensação ilusória e intermitente. É apenas mais uma manifestação que surge na consciência.
“Compreenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas. Esse algo que nasce ou que morrerá é puramente imaginário.”                                                                               -Nisargadatta Maharaj, I Am That
Os mestres Advaita terão reparado que o nosso verdadeiro ser, a nossa natureza autêntica e original, não pode ser nada de fenoménico nem ter qualquer marco temporal. Terá que estar sempre presente, não é nada que se possa perder ou adquirir e deve estar antes e além da mente e do “eu individual". Aquilo que és não pode ser definido ou formulado positivamente. Não podes dizer o que és, mas apenas aquilo que não és. Daí a expressão “Neti, Neti” (não isto, não aquilo), oriunda do antigo sânscrito,  que significa que a verdade do que és, não é nada susceptível de surgir no tempo ou no espaço, nem nada que possa ser pensado, sentido, conhecido, experimentado ou verbalizado.

Tu és aquilo que resta depois de descartares tudo o que participa do jogo da impermanência. Mas isto torna inúteis todos os esforços para apreender objetivamente essa realidade última, o ser essencial ou absoluto, já que todas as aparências ou manifestações surgem no campo fenoménico, pertencem ao mundo do tempo e do transitório.  Qualquer coisa que possas conhecer e conceptualizar manifesta-se no plano consciente. E tudo o que surge no plano da consciência é temporário e impermanente. Por isso os budistas o consideram apenas aparente ou ilusório já que tem realidade meramente relativa e dependente. O mundo surge e desaparece com a própria consciência que o percebe. Sem consciência não há mundo.

A própria consciência é a única realidade estável e permanente em meio a todo esse fluxo efémero e passageiro que constitui o mundo fenoménico. Mas, paradoxalmente, a consciência, a nossa realidade mais íntima e essencial, é algo que jamais poderemos conhecer de forma conceptual e jamais poderá ser objeto de percepção ou experiência, pois é aquilo que está na origem de todo o fenómeno e torna possível todo o experimentar. Não podes conhecer o que és, podes apenas sê-lo!

domingo, 11 de maio de 2014

PORQUE NÃO PODEMOS ENCONTRAR A CONSCIÊNCIA



René Magritte  -"Reprodução Interdita"

 "Não sei o que é conhecer-me. Não vejo para dentro.  Não acredito que eu exista por detrás de mim."  -Fernando Pessoa


Poucas expressões da "não-dualidade" ou do jargão espiritual são mais susceptíveis de confundir ou gerar errónea interpretação do que a sugestão de procedermos a uma rotação no foco da atenção e virá-la para o interior a fim de encontrarmos a sua fonte. Dizem-nos que para acedermos à nossa identidade essencial, para conhecermos a natureza autêntica do que somos, devemos proceder a uma rotação de 180º no foco da nossa atenção, dirigindo-a do exterior para o interior, dos objetos para a consciência. Quando ouvimos esta indicação podemos cair no erro de procurar ver ou conhecer a consciência do mesmo modo como vemos e conhecemos qualquer objeto da experiência. Procedemos a uma espécie de escrutínio interior em que fazemos desfilar mentalmente o reportório de tudo o que vemos e conhecemos até encontrarmos aquilo a que supostamente tal indicação se refere. Mas este modo de indagar está inevitavelmente condenado ao insucesso e à frustração. Qualquer coisa que possamos conhecer ou experimentar nunca será a consciência. Porque a consciência já tem que estar presente antes de qualquer experiência ou conhecimento. Daí que o discurso da "não-dualidade" nos diga que "o buscador já é aquilo que ele busca", "a própria pergunta já é a resposta". Ao referir-se à nossa natureza essencial com palavras como "Ser", "Consciência", "Vazio", "Presença", "Absoluto", ou qualquer outro termo, o discurso não aponta para alguma coisa que precisamos encontrar, descobrir ou produzir através de algum tipo de atividade, indagação ou esforço. Refere-se ao próprio "Ver" e não a algo que tenha que ser visto. A própria formulação de uma questão, independentemente de qualquer resposta, já constitui em si mesma uma perfeita confirmação da presença da consciência.

A dificuldade é criada pela própria estrutura da comunicação verbal. Os nomes e palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação sujeito/objeto. Esta aparente separação é inevitável ao nível verbal. Mas a consciência nunca poderá ser objeto de experiência ou conhecimento. Jamais poderá ser convertida em objeto de busca ou indagação. Quem seria a entidade que levaria a cabo tal busca? Quem senão a própria consciência poderá ser o sujeito desta indagação? Não podemos estabelecer divisões na consciência. Seria como se a consciência se alienasse de si mesma e andasse em busca de si própria. Percebemos o absurdo desta posição? A forma como inadvertidamente nos enganamos e iludimos a nós próprios? O pleno reconhecimento da consciência não é o fim exitoso de uma qualquer atividade inquiridora. A própria existência dessa atividade, independentemente de qualquer resultado ou conclusão, é já quanto basta para que a presença da consciência esteja perfeitamente estabelecida. É um reconhecimento que não se encontra no fim, mas logo no inicio de qualquer busca ou inquirição. É uma verdade implícita que qualquer manifestação torna evidente. Se eu vejo alguma coisa é porque sou dotado do poder da visão. Mas a própria visão não é algo que eu possa ver.

Permitam-me reforçar, porque é importante: perceber a consciência como a essência daquilo que somos é apenas um simples reconhecimento, não se trata de qualquer realização a alcançar ou qualquer experiência que possamos obter através de esforço, de indagação, de busca, do pensamento ou da imaginação. A consciência não é divisível. É una e não dual. Se aquela indicação (de dirigir a atenção para a própria atenção ou consciência) se converter para nós num problema, é preferível ignorá-la, pois na verdade não é uma expressão muito feliz. O efeito que ela produz no buscador assemelha-se muitas vezes àquela história Zen do peixe que percorre o oceano em busca da água. É por isso que o Zen afirma que andar em busca da nossa essência ou natureza budica, é como procurar um boi montado no boi.

Quando nos recomendam prestar atenção a tal ou qual som, imagem ou fenómeno, nós simplesmente viramos para esse objeto a nossa atenção; por isso, quando nos sugerem colocar a atenção na própria atenção, o nosso impulso imediato será procurar ver a atenção do mesmo modo. Mas tal propósito é irrealizável. A consciência ou atenção não é conhecida desse modo. O que se pretende é apenas que reconheçamos o facto dessa atenção existir, a presença implícita da própria consciência, o facto inegável de sermos conscientes. Apenas isso! Não é um logro a obter no futuro, mas sim um reconhecimento daquilo que já está presente. Esta constatação ou reconhecimento não depende de nenhum estado ou experiência em particular. É o fundo subjacente a toda experiência, estado, fenómeno ou percepção. Não importa que o teu estado seja de confusão ou de clareza, que sejas santo ou pecador, visitado por anjos ou demónios, dominado pelo vicio ou pela virtude, tudo é igualmente uma confirmação da presença da consciência, em si mesma vazia, transparente, incorruptível, imutável e atemporal. A ênfase é colocada não já nos objetos, mas antes nesta espaciosidade infinita e consciente onde eles aparecem. É tão óbvio, tão simples! Significa o fim de toda a identificação. Eu não sou nenhum objeto, sou a luz que ilumina todos os objetos. Não sou nenhuma experiência, sou a capacidade de experimentar. Não sou feito de nada do que vejo, sinto ou experimento, mas todas estas coisas são feitas de mim, são manifestação e expressão da minha existência. Tal como as dunas são formações de areia. As ondas desfazem-se, a água permanece. Sou aquilo que permite e possibilita que todos os objetos e todas as experiências surjam e desapareçam. Sou a ausência que permite todas as presenças, o vazio que acolhe toda a existência.

Não podemos olhar e ver a consciência do modo explicito e objetivo como tudo é visto e conhecido. Não interessa que a busca seja direcionada para o exterior ou para o interior, o que quer que encontremos nunca será a consciência. Uma lanterna jamais poderá surgir no foco de luz que dela própria emana. Um dedo poderá apontar para qualquer coisa menos para o próprio dedo que aponta. O olho não pode ver-se a si próprio. A câmara fotográfica nunca aparece na foto. No entanto a foto torna evidente a existência da câmara. Nenhum  objeto é a consciência. A consciência, no entanto, é a condição sine-qua-non do aparecimento de qualquer objeto. É uma verdade implícita e auto-evidente, pois mesmo ao pretender negá-la estamos a afirmá-la uma vez mais. A própria existência não pode ser negada sem que exista o autor de tal negação. Foi também o que Descartes descobriu e procurou expressar no seu "Cogito". Não é possível alguém acreditar seriamente na afirmação "eu não existo", uma vez que terá que existir para produzir tal declaração. A apreensão da própria existência é intuitiva e imediata. A consciência é aquilo que jamais poderás ver ou conhecer objetivamente, mas cuja  realidade é mais evidente e indubitável do que qualquer coisa que possas ver ou conhecer. Tu nunca viste e jamais poderás ver os teus olhos, mas tudo aquilo que vês aponta para a verdade irrefutável da existência desses olhos que veem. Neste sentido podemos dizer que o mundo visível e fenoménico é apenas uma seta que aponta para o invisível. Podes duvidar da realidade de qualquer coisa que vês, mas jamais poderás duvidar da existência dos olhos que veem. A consciência é sempre evidente. A única evidência.

É apenas isto que se pretende fazer notar ao ser-nos sugerido virar a atenção para a própria atenção. Trata-se de um um simples corrigir de uma distração. Um convite a recordarmos a real natureza do que somos. Para que a consciência não mais seja identificada, nem aparentemente ofuscada ou absorvida pelas suas diversas manifestações ou expressões. Não é um apelo a qualquer atividade com vista à aquisição de algo que não esteja já presente. Não podemos converter a consciência noutro objeto de busca, uma vez que tanto esse esforço como aquele que o realiza, são eles próprios aparições temporárias e transitórias dentro dessa consciência que, na verdade, sempre somos. Esta presença, esta consciência, é que constitui o único elemento imutável e permanente ao longo desse fluxo de percepções intermitentes e passageiras que constitui toda a nossa experiência do mundo e da vida. Apenas Consciência é sinónimo de Realidade. Só a Consciência É. Tudo é feito de Consciência.  E como nos dizem os antigos Upanishades indianos: "Tat Tvam Asi" (Tu És Isso).

sexta-feira, 2 de maio de 2014

JÁ ÉS AQUILO QUE PROCURAS



“A verdade ou a realidade não pode ser armazenada, não pode ser retida -  não é acumulável. O valor de qualquer intuição, compreensão ou realização só pode estar na eternamente fresca presença do momento. A realização de ontem agora está morta,  já perdeu a sua vitalidade. É inútil procurar suster-se ou aferrar-se  a algum insight, compreensão ou realização, porque só no seu movimento existe a possibilidade de que surjam sempre novas e frescas intuições sobre a verdade ou a realidade. A ideia da iluminação ou auto-realização como um único evento, ou como um estado ou experiência permanente ou duradoura, é uma concepção errónea”.    - Sailor Bob Adamson
                                          
O dilema e a tragédia de quase todos os buscadores é que, depois de terem um "insight" revelador, uma experiência de "despertar", ficam eternamente presos na armadilha de a procurar reproduzir ou capturar ou nela permanecer. O segredo está em não te aferrares a nada, nem mesmo a qualquer experiência de despertar. Abandona a tua memória de experiências, estados e realizações. São apenas cinzas mortas sem qualquer vida ou substância. A memória é apenas distração. A verdade é sempre viva e vibrante. Este momento nunca aconteceu. Nunca nada se repete.  "Jamais voltes ao lugar onde foste feliz!", diz a canção, "...Nada do que por lá vires será como no passado. Não queiras reacender um lume já apagado!"

Não te aferres a quaisquer palavras ou conceitos, a nenhum estado, experiência ou conhecimento, porque ao fazê-lo acabas inevitavelmente por ofuscar a consciência onde todos esses elementos de forma espontânea emergem. Um espelho não retém as imagens que reflete. Não queiras guardar lembranças através de palavras mortas. Só podes guardar conceitos, não a verdade. Poderás registar as palavras que brotam da claridade, mas elas jamais poderão substituir aquela claridade que as fez emergir. O homem pensante não pode substituir o homem vivente. O pensamento não pode substituir a consciência. O intelecto não pode captar a vida. É a vida que integra o  intelecto 

A "coisa" como aparece no pensamento, como é invocada na memória, nada tem a ver com a experiência real, anterior e independente dessa invocação. Aquele que recorda a experiência não é o que a viveu e experimentou. São duas dimensões e duas realidades completamente diferentes e que se excluem mutuamente. Quando estás completamente imerso numa melodia não pensas que a estás a ouvir. Porque o pensamento funciona como distração. É como um véu que se interpõe entre ti e a vivência direta da realidade. Quando tenho um orgasmo não penso nele, experimento-o! Só penso nele quando já terminou. Uma criança não pensa na felicidade, ela simplesmente é feliz. A "ideia da coisa" nada tem a ver com a "vivência da coisa" sem ideia. A ideia é colorida pela memória psicológica da dor e do prazer, o mecanismo de rejeição e apego, aversão e desejo. Todo este processo é alheio ao sabor da experiência original. Por isso Shunryu Suzuki, o mestre Zen, declarou: "Tão pronto como vês algo e começas a intelectualizá-lo, aquilo que intelectualizas já não é o que viste!" Claro que não é o que viste! A mente não pode ver nada. O intelecto lida com símbolos e palavras e não com a realidade. O pensamento é apenas um subproduto, uma pálida sombra da percepção, jamais a poderá substituir. A mente envolve-te num mundo ilusório de conflitos, lutas e esforços completamente desnecessários.

Podes invocar a memória de um estado, uma experiência ou um "insight" com a intenção de o reviveres, de o ressuscitares, ou de obteres uma fórmula que o torne permanente. Mas repara: quando originalmente essa experiência aconteceu, foi ela resultado de alguma atividade volitiva da tua parte? Ela sucedeu na sequência de algum esforço deliberado tendo em vista produzi-la? Estava presente a memória de alguma experiência que se procurava ressuscitar? Foi produto ou consecução de algum desejo? Havia alguma intenção de alcançar algo? Algum agente ou algum processo envolvido? Não, pois não? Ela surgiu de forma totalmente inesperada, não foi? Aconteceu por si mesma, de forma espontânea, sem qualquer intervenção consciente da tua parte. A verdade é que tu (a atividade do cálculo, do pensamento, do esforço, da volição e do desejo) não estavas aí quando isso sucedeu. A tua pessoa como agente nunca foi necessária. Tu estavas completamente ausente. Então porque queres agora ser um interveniente no processo? Porque te queres tornar parte da equação? Não é essa atitude completamente ilógica e insana? Além disso, para quê despender esforço e energia em busca de uma experiência que pela sua própria natureza é efémera e passageira?

Andas em busca de Deus? Da felicidade? Da iluminação? De alguma suprema realização ou compreensão? Esquece tudo isso. As palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação entre ti e a realidade. São estes conceitos que te impedem de ver que tu já és aquilo que procuras. Tudo está já presente. Nada da tua parte é requerido. Tudo é uma dádiva gratuita da consciência. Não podemos entrar no reino da felicidade, levando connosco a ganância, a cobiça e o desejo. Esse reino só permite a entrada a quem se apresenta completamente despido no coração e no espírito. Neste caso a nossa vontade de posse e domínio só pode resultar na morte da galinha dos ovos de ouro. Erramos e perdemos ao procurar conhecer e conquistar. Jamais poderás ter a receita da felicidade, porque no reino da felicidade não entra aquele que tem uma receita que procura aplicar. A felicidade é uma dádiva gratuita àquele que dela não se quer apropriar. Poderás usufruir, mas jamais arrecadar.

Tu não existes como um agente autónomo e independente, separado do mistério e da graça divina. És a manifestação perfeita e inseparável desse mistério e dessa graça. És consciência clara, luz imaculada, eternamente presente e imutável. E Isso é algo que tu jamais poderás perder, jamais podes esquecer. Qualquer distância entre ti e Isso é  apenas imaginária, não passa de uma ilusão. Porque Isso é o que tu és. E não podes afastar-te de ti próprio. Jamais podes deixar de ser Isso que tu és. És sempre essa presença consciente, vazia e transparente que torna possível todo o ver e experimentar. Quando julgas que a perdeste ou esqueceste, só podes ter perdido ou esquecido algum conceito, algum estado, memória ou experiência que com ela identificaste. Mas foi apenas um equivoco. O que tu és jamais pode ser perdido ou esquecido. Porque só na presença disto, desta luz imóvel e imutável, é que podem suceder  e desfilar todos os estados transitórios, todas as experiências passageiras, toda a claridade e confusão, todo o lembrar e esquecer. Tu és essa luz! Sempre foste essa luz! Nunca poderás ser outra coisa que não seja essa luz. O que deves valorizar não são as coisas que a consciência percebe mas sim a consciência que percebe as coisas.

Ver isto não é uma questão de aperfeiçoar os conceitos, de encontrar as palavras adequadas, de formular definições mais perfeitas e rigorosas. O que acontece é que isto não pode ser captado mediante nenhum conceito, nenhum raciocínio, nenhum processo especulativo ou intelectual. Nenhuma ideia poderá jamais substituir o espírito capaz de a conceber.  Deixa de confiar na mente. A mente nada te pode mostrar. Ela apenas te ilude e confunde. Tens apenas de olhar, ver! Não tens de pensar! Ver, experimentar, sentir, escutar... antecede todo o pensar e raciocinar. Por mais fiel que seja a reprodução de um lago numa pintura, jamais nela  te poderás banhar. Não podes saciar a sede com a imagem de um copo de água. Trata-se de abandonar completamente toda a conceptualização e simplesmente olhar a realidade que está presente além dos nomes e palavras. É o simples acto intuitivo de apreensão daquilo que está presente na experiência imediata e não requer qualquer raciocínio, esforço ou elaboração. Daquilo que está ao dispor de qualquer criança, qualquer analfabeto, qualquer animal. É tão simples e tão óbvio que nos passa completamente despercebido. É como se alguém andasse desesperadamente à procura dos óculos que tem colocados sobre o nariz e que são precisamente o que lhe permite ver e procurar.

Lamentavelmente a própria tentativa de procurar comunicar isto por palavras pode, involuntariamente,  pôr em marcha o mecanismo que é necessário suspender para que isto possa ser visto. Porque o acto de percepção direta e imediata da realidade acontece num nível diferente daquele que permite a tradução e interpretação verbal da experiência. É por isso que, às vezes, uma criança ou um homem sem instrução talvez  estejam em melhores condições de o apreender. Um homem que não aprendeu a ler poderá não entender a ementa dum restaurante, mas não verá diminuída a sua capacidade de se alimentar. No entanto nem a mais completa e exaustiva das ementas poderá impedir que ele morra à fome se nada tiver que comer. As coisas não são as palavras que inventamos para as nomear. O símbolo não é a realidade, a palavra não é a coisa. O ver e experimentar não é função do pensamento ou da atividade conceptual. Esta atividade tem que ser posta de lado para que o ver tenha lugar.

Estamos a apontar para aquilo que é o indicador mais primordial, óbvio, claro e evidente da nossa existência: a presença indubitável da consciência. Nada mais do que isto. Nós somos esta consciência. Ela é tudo o que sempre julgámos que precisávamos de buscar sem nos apercebermos que nunca dela estivemos separados. Só ela representa a realidade última e primeira pois é a condição que precede todo o fenómeno e experiência. Como poderias pensar, sentir ou perceber seja o que for, sem que primeiro esteja presente a consciência que te permite pensar os pensamentos, sentir os sentimentos, perceber e experimentar tudo aquilo que percebes e experimentas?

Aquilo que sempre buscaste é na verdade a única coisa que sempre tiveste!... Porque é aquilo que tu és, aquilo que sempre foste e jamais deixarás de ser! Nunca serás nada menos e nada mais do que consciência. É só isto o que tens de reconhecer. Nada mais precisas compreender ou alcançar. Tudo o mais não passa de histórias e invenções da mente sem qualquer utilidade ou fundamento. Essas histórias não te podem ajudar, não te podem completar, nada te podem trazer ou acrescentar. Elas apenas te podem distrair do essencial. Tu já és completo, sempre foste, nada precisas buscar. A consciência que tu és, é tudo o que precisas ser. É dela que se origina tudo aquilo que buscas e desejas, tudo o que alguma vez poderás almejar, sentir, viver, experimentar. Não precisas de um mapa para caminhar. Tu próprio já és a luz que ilumina o caminho.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O TEU ROSTO ORIGINAL

"Mostra-me o teu verdadeiro rosto, aquele que é o teu rosto original antes dos teus pais serem nascidos." -Koan Zen
Os outros têm de ti apenas uma representação. Aos outros apareces como objeto. Mas tu, a ti mesmo, vives-te como sujeito. Aquilo que és verdadeiramente é a  vivência subjetiva que tens como sujeito de percepções e experiências. Tu és Aquele que vê e não aquilo que é visto. A tua dimensão como sujeito jamais poderá surgir no campo de percepção do outro. O outro apenas pode vivenciar a sua própria subjetividade que a ti é invisível. Somos todos invisíveis uns para os outros! É só ao nível interior que a realidade ultima é "experienciada", que  contactamos aquilo que constitui a nossa verdadeira natureza, o ser autêntico de cada um de nós.  Em ultima instância apenas a consciência é real, pois a consciência é a condição de toda a experiência.  

A pessoa separada não existe. A sensação de sermos indivíduos separados é ilusória. Origina-se da identificação com o corpo e a história. A pessoa é a experiência; a consciência é a capacidade de experimentar. A consciência não é nenhum atributo individual. É de natureza impessoal e universal. Tu não és diferente de mim. Somos apenas diferentes ondas de um mesmo oceano de existência. Todas as distinções aparentes são emanações de um único campo universal de inteligência. Não existe outra realidade além da consciência única da qual todos participamos. Dessa linha invisível, subjacente a todos esses centros de percepção que emergem como os nossos corpos aparentes. Não existe nada a distinguir e a separar duas gotas de água que se elevam do oceano. Todo o oceano se manifesta em cada gota! 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo


"Podemos sempre lidar com o Agora, mas nunca com o futuro... Nem precisamos de o fazer. A resposta, a força, a ação ou o recurso estarão presentes quando você precisar, não antes nem depois."  -Eckhart Tolle



Despendemos energia procurando reparar o passado. Despendemos energia procurando prevenir o futuro. Como podemos ter energia para corresponder adequadamente ao desafio presente?... O passado que procuramos consertar, jamais se teria tornado um problema se estivéssemos devidamente atentos quando ele era presente. Procurar agora ressuscitá-lo e corrigi-lo é inútil e um desperdício. O que temos de fazer é morrer para o passado morto.Toda a energia que gastamos a procurar reparar o passado ou a prevenir o futuro, constitui uma distração e um roubo ao momento presente.

Quando dedicamos plena atenção à nossa circunstância actual, estamos a dar a este momento tudo o que ele requer para que a resposta seja adequada. Cada momento é completo e eterno. Contem em si tudo o necessário para ser correspondido. Não temos que nos socorrer de fórmulas da experiência passada.  Apenas requer atenção e presença. Do mesmo modo não faz sentido utilizar este momento para garantir respostas adequadas ao futuro. Na verdade nunca roubamos ao presente para dar ao futuro. A única coisa que fazemos é roubar ao presente algo que apenas ao presente poderia pertencer. Mesmo que vivamos 100 anos, jamais conseguiremos viver um segundo que seja no futuro. Não podemos aprender primeiro e viver depois. Esta vida é tudo o que temos. Enquanto buscamos certezas e garantias, a vida se esvai. A vida não permite ensaios. O aprender e o viver acontecem simultaneamente, neste momento preciso em que te permites fluir com a própria vida!

A morte constitui a verdadeira medida de todas as coisas. É ela que te situa na perspetiva correta. Quando sabes que cada momento se gera a partir de si próprio. Cada momento tem a sua própria eternidade.  Nada nele foi determinado por outro momento qualquer. Nada dele será transportado para qualquer outro momento. Viver sem ontem nem amanhã!... Não é um esforço de imaginação que tens de fazer. É uma realidade inexorável. Mesmo que não a reconheças como tal. Cada momento é sempre o último e o primeiro. O Génesis e o Apocalipse estão sempre a acontecer. Perante a morte nada há a perder ou a ganhar. Perante a morte já nada estás a adiar. Nenhuma esperança alimentas. Nenhum temor te pode ameaçar. É só perante a morte que a entrega à vida é generosa e total.

A culpa desvanece-se quando morres para todo o passado. O medo desaparece quando desistes de controlar o futuro. Resta então a paz!...A paz e o jubilo que sempre permeiam o alinhamento perfeito com a atemporalidade deste momento eternamente presente!

Esta é a mensagem central que se encontra no coração de todas as grandes tradições espirituais e religiosas. Não nos deixemos impressionar e hipnotizar com frases românticas e discursos grandiosos e eloquentes. Tudo aponta a algo muito simples e nada misterioso: a realidade viva, presente e ordinária deste momento. Que não requer quaisquer palavras para se sentir e experimentar. Quaisquer palavras a podem expressar, porque nenhuma palavra a expressa. Todas as palavras estão igualmente próximas, porque todas as palavras estão igualmente distantes. Nenhuma palavra sequer a chega a tocar. Perante esta realidade todas as palavras são inúteis. Todas as palavras desaparecem. Apenas respirar! Apenas olhar e sentir! Apenas escutar!...

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Silêncio Jamais Será Vazio

                                                   
                                                    

Repetidamente ouvimos os mestres falar e distinguir um ego ilusório do nosso ser real, "self" ou consciência. Então desejamos uma garantia ou critério que nos permita saber quando é que uma atividade se origina num ou no outro. Mas só o ego formula tal problema ou interrogação. Apenas a mente, o intelecto pode desejar e obter tal satisfação. Pode alguma atividade auto-centrada, isto é, motivada por interesse próprio, ter origem diferente do ego? Como poderia tê-la? Só o ego deseja eliminar o ego. A luta para te libertares do ego e da personalidade ilusória, é algo semelhante a procurar limpar a tua imagem de um espelho. Por mais tempo e esforço que despendas a esfregar a sua superfície,  de cada vez que olhares irás ver nele a tua imagem refletida. Só quando te rendes à tua impotência,  quando abandonas o problema e te retiras é que a imagem desaparece. Mas quem estará aí então para confirmar a ausência da imagem?

Só no total desapego se encontra liberdade. O fogo da compreensão consome-nos completamente. É só nesta morte psicológica que a ação está livre dos tentáculos do ego. Temos que desaparecer completamente. A renúncia tem que ser absoluta e incondicional. Só então o acto é lúcido e completo. O agente desaparece, há apenas ação. Termina a ilusão de uma existência separada. É este o significado de "Advaita" no experienciar da realidade: ser e existir liberto da ilusão da dualidade. É o fim do "eu" pessoal, a ausência de qualquer senso de individualidade. Desaparece a entidade separada que avalia, julga, conhece, controla, interpreta, rejeita ou aprova a experiência. Deixamos de existir noutra forma que não seja simplesmente como a luz que permite que a realidade seja. Somos então e apenas a consciência que dá vida e existência a tudo o que se experimenta. Mas não sob forma auto-consciente separada da experiência.  Não existe ninguém para conhecer ou verbalizar esse estado. Por isso Dogen, o fundador do Soto Zen japonês, diz no Genjôkôan: "Estudar a via do Buda, é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se a si mesmo é ser uno com todas as coisas".  

O que existe são as sensações, as emoções, os sentimentos, os sons, as cores,.... mas não existe nenhum sujeito ao qual estas coisas aconteçam. Jamais encontramos qualquer individuo ou pessoa, mas apenas experiência. O "eu", a entidade separada é uma ficção criada no pensamento, uma suposição sem qualquer fundamento, um significante sem significado. Se formos realmente honestos teremos de reconhecer que tudo o que podemos encontrar é apenas experiência e jamais encontramos nenhum experimentador. Nós não somos nada mais do que espírito ou presença, a condição para que todas as manifestações possam acontecer. Somos consciência impessoal, o invisível e imanifestado continente de todo o conteúdo. E deste jamais nos podemos abstrair. A consciência e as suas manifestações forma uma unidade. O som não está separado do silêncio que o acolhe. Toda a especulação que procure separar a consciência do seu conteúdo  não passa de um exercício ocioso e artificial condenado ao insucesso.

Nós somos consciência. E a consciência assemelha-se à luz. Quando acendemos uma luz numa sala escura, o que vemos não é a luz, o que vemos são todos os objectos que ela tornou manifestos. Este é o significado autêntico do amor. O amor com nada se parece mais do que com a luz. Porque a luz nada tem de si própria. Não existe para si mesma, mas para dar existência a tudo o que existe. Todas as existências só o podem ser através dela. Sem ela nada pode ser. Mas ela nada é. Nós somos esse vazio feito consciência. Somos luz!... Apenas luz! Sem os objetos a luz perde a sua substância, sem a luz os objectos perdem o seu significado. A consciência precisa dos objetos para se poder reconhecer; os objetos precisam da consciência para poder existir. Interior e exterior é apenas um mesmo movimento inseparável e unitário. E o silêncio é a harmonia que impregna toda a experiência. 

Por isso nos escritos Taoístas e Zen-Budistas, o espírito do homem livre é tantas vezes comparado a um espelho. Ele nada busca e nada repele. Tudo recebe sem nada reter. Cada nova imagem que surge na superfície do espelho apaga a que anteriormente ele refletia. Da mesma forma é a natureza vazia da consciência que lhe permite refletir de instante em instante o perpétuo fluir da realidade sempre cambiante. É como um  rio a correr, nunca permanece o mesmo e no entanto está sempre cheio. Perdemos na realidade sempre que procuramos reter! 

Como posso eu morrer se nunca for permanente? Como pode desaparecer o que nunca chegou a existir? Tal como as águas de um rio sou permanente renovação que nunca volta a percorrer o caminho percorrido.  O silêncio jamais será vazio!

domingo, 14 de julho de 2013

O Mistério da Identidade




Perguntas-me quem sou! Como poderei dar-te uma resposta que seja honesta e verdadeira? Uma resposta que não te induza em ilusão, que corresponda adequadamente àquilo que sou? Quando me fazes uma pergunta, esperas uma resposta. E a minha resposta será uma asserção verbal. Esperas uma definição daquilo que sou. Mas o que é uma definição? Toda a definição fragmenta e separa. Procura limitar e circunscrever. Quando defino um objecto, uma coisa, seja o que for, faço-o para o distinguir de outras coisas e objectos. Quando defino, digo não apenas o que a coisa é, mas também o que ela não é. Retiro-a de qualquer confusão com quaisquer outras coisas. Toda a forma de eu me definir, será uma forma de me limitar. Mas sempre que eu me limitar, estarei a cometer um erro.  Ao dizer que sou algo, estou a dizer também que não posso ser outra coisa qualquer. A definição exclui, deixa de fora muito mais do que aquilo que abarca dentro. Por isso a definição é uma injustiça e uma fraude que cometes contigo mesmo. Porque é permanente a capacidade de te reinventares a ti próprio. Jamais poderás reter dentro do aposento o sol que entra pela fresta da porta. 
  
A pergunta: "o que sou?", não tem uma resposta verbal. Apenas o silêncio pode captar a tua essência. Apenas do silêncio pode provir a resposta. E essa resposta é sentida com todo o teu ser e não apenas com o intelecto. O intelecto apenas se alimenta de palavras e de sombras. Aquilo que tu és inclui e transcende qualquer resposta que o intelecto possa elaborar.  Procurar que seja o intelecto a produzir a resposta é como querer pegar em ti mesmo ao colo ou querer introduzir a casa através da janela. Mesmo que achasses a definição perfeita e as palavras corretas, isso não passaria ainda de uma seta que aponta para algo que ela não contem e nela não podes encontrar. Não podes sentir a frescura da água mergulhando no mapa de um rio. Não podes sentir o calor do fogo se a lareira não passar de uma pintura numa tela. Podes fazer uma ilustração do sol, mas se a pendurares na parede ela não iluminará a sala. Aquilo que tu és deve permanecer um mistério não classificável. Um "nada" que é um potencial infinito de possibilidades e metamorfoses sempre imprevisível.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Corpo, espírito e identidade



"Oh my friend, all that you see of me is just a shell,
 and the rest belongs to love!"
                                                                                                            - Rumi



Coloca o teu centro de gravitação num ponto exterior ao teu corpo. Cessa a identificação com o corpo. O teu corpo é tanto o teu corpo como outro corpo qualquer. À semelhança de marionetes movidas por cordões num teatro de fantoches. Tu apenas podes movimentar um boneco, mas não te identificas com esse boneco mais do que te identificas com outro boneco qualquer interveniente na ação. Os outros bonecos têm acima de si igualmente uma mão que os move. Os espectadores veem os bonecos e a ação que eles desenvolvem no palco. Mas os verdadeiros responsáveis que comandam os bonecos, encontram-se ocultos ao olhar dos espectadores. Portanto tu não és o corpo. O corpo é apenas um elemento participante da ação. Interage com os outros elementos que se encontram presentes (outros corpos e objetos) numa relação global que constitui a totalidade do aqui e agora. Tu não te podes identificar com nenhum dos elementos particulares participantes do todo. Porque essa totalidade é o que tu és. E é só graças ao facto de tu seres a totalidade, que a totalidade pode ser.
Sempre que te identificas com o corpo estás a limitar-te de forma ilusória. Aquilo que és é demasiado grande para ser reduzido à tua pequenez. Não é a mente discursiva ou o intelecto que se apercebe disto. Mas isto está presente ao espírito. O espírito é consciência tranquila. Tal como um lago de águas claras  onde se refletem as estrelas.
Quando os outros olham para mim, isto é, para o meu corpo, não me veem. Porque eu não sou o corpo que eles veem. Sou Aquilo que está oculto por detrás do corpo e que os vê a eles. Os outros pretendem que me veem, mas estão errados. Equivocam-se sempre na direção em que olham. Fixam o seu olhar neste rosto que é precisamente o que para mim não existe, nunca existiu e não pode ser o que eu sou. Quem me vê não é aquele que está à minha frente e cuja presença me é indicada por esse rosto que eu vejo. Quem me vê não é quem está de frente para mim. É antes aquele que se coloca ao meu lado e olha na direção em que eu olho. São os outros que veem os meus olhos. Mas eu não sou os olhos que os outros veem. Sou o espírito por detrás dos olhos que os observa a eles.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Impermanência


                                                                                             Sei que há pouco eu já era...

                                                               Era "Ser", eu existia!

                                                               No entanto não sentia

                                                               esta sensação que sinto.

                                                               É estranho!... sei que não posso ser

                                                               esta sensação que sinto!

                                                                E sinto não poder ser

                                                                mais do que esta sensação!!...
 

Sou tudo sendo nada



                                                  Sou a luz que ilumina a realidade.
                                                  Sou a origem de todo o fenómeno.
                                                  Sou o próprio ser de tudo aquilo que é.
                                                  Sou o criador do mundo.
                                                  O princípio, o meio e o fim de todas as histórias.
                                                  Sou o alfa e o ómega.
                                                  Fora de mim nada existe.
                                                  Nada há que eu não seja.
                                                  Sou o uno do universo.
                                                  Sou o dedo que aponta, sou a lua e sou aquele que olha.
                                                  Sou a pergunta e sou a resposta.
                                                  Sou o autor de todos os livros
                                                  e sou o analfabeto que os lê.
                                                  Sou o palco e a plateia.
                                                  Sou o que permanece depois de se apagarem as luzes da sala.
                                                  E sou quem as acendeu quando ainda vazia.
                                                  Sou o Cristo, sou o Buda e sou quem se senta aos seus pés.
                                                  Sou todos os deuses e todos os seus profetas...
                                                  E sou também quem jamais os escutará. 
                                                
                                               

domingo, 17 de julho de 2011

Forma e Vazio - Mundo e Consciência



O ser ou existir implica a consciência. Para um objeto inerte não faz qualquer diferença existir ou não existir. A sua existência ou inexistência faz diferença apenas para a consciência que o percebe. Eu (Consciência), sou auto-consciente, o objeto não o é. Daí que para o objeto não há qualquer diferença entre ser ou não ser, entre existir ou não existir. O objeto que eu presencio, tal como ele me aparece, não tem uma existência separada das próprias qualidades com que a mente pode ver e conceber. É apenas um conjunto de sensações que experimento e com as quais o identifico. Estas sensações provam a minha existência, não a do objeto. O objeto existe apenas para a consciência que o percebe, não existe para si próprio. Tal como é assinalado pela filosofia Vedanta e pelo budismo, o mundo manifesto não tem qualquer realidade intrínseca, não existe de forma autónoma e independente. Só a consciência existe de forma absoluta. Só a consciência é auto-consciente. O mundo tem existência meramente relativa e conceptual. Não se trata de estabelecer aqui alguma conclusão, solipsista ou de outro género qualquer. Toda a conclusão equivale a entrar num barco destinado a naufragar. Nenhuma conclusão se requer. Apenas constatamos que a separação entre interior e exterior, espírito e matéria, sujeito e objeto ,não passa de uma suposição arbitrária. Tudo surge num mesmo e único espaço consciente, em si mesmo vazio, informe, ilimitado, omnipresente e atemporal. Cai a ilusão da dualidade, a ilusão da separação entre nós e o mundo. O mundo que percebemos não pode existir sem a consciência que o percebe.

Procurar o que somos realmente para além da experiência transitória, é como ir removendo sucessivamente as cascas de uma cebola. Quando atingimos o centro, aquilo a que chegamos é coisa nenhuma, um perfeito vazio. Mas este vazio não é um vazio feito de nada, mas sim de consciência. É um espaço infinito de silêncio e disponibilidade onde todo o universo se manifesta. Este espaço consciente é o que nós somos. Nada mais, nada menos do que este espaço, esta consciência. A afirmação contida nos antigos Upanishades, "Tat Tvam Asi" (Tu és Isso), é a verdade para a qual apontam todas as tradições espirituais e religiosas que afirmam a não-dualidade da realidade. Por isso diz  Meister Eckhart num dos seus sermões: "O olho com que vejo Deus, é o mesmo olho com que Deus me vê; o meu olho e o olho de Deus são um único olho, um único conhecer, uma única visão, um único amor." A existência indubitável da consciência constitui o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a auto-inquirição e de toda a jornada em busca de Deus, do auto-conhecimento e da natureza da realidade.

Querer experimentar a consciência, o vazio, o espaço, de forma abstrata e independente dos objetos ou das formas que nele aparecem, é como procurar ter a percepção da luz separadamente dos objetos que ilumina. Esta é uma tarefa inglória, uma impossibilidade. Tal desejo surge em virtude da constatação da permanente mutabilidade dos objetos. Mas a consciência, aquele espaço infinito, aquele vazio original, surge sempre ligado aos objetos ou formas da experiência transitória. O permanente surge sempre ligado ao impermanente. A consciência e o seu conteúdo existem de forma unitária, como uma unidade inseparável, uma totalidade que só de forma verbal e artificial pode ser dissociada ou dividida. Sem a luz os objectos não poderiam ser presenciados. Mas são os objectos que, de alguma forma, nos conscientizam da luz que os ilumina e transcende. Nós não vemos a luz, vemos apenas os objetos por ela iluminados. Mas o facto de serem vistos torna óbvia e irrefutável a implícita presença dessa luz ou consciência que os percebe.

Esta presença consciente, não sendo um objeto de experiência, é no entanto uma realidade mais sólida e evidente do que qualquer objeto experimentado. Apenas a consciência é real. Só ela existe de forma indubitável e permanente. A realidade que qualquer manifestação fenoménica torna inegável não é a do  objeto percebido, mas sim a da consciência em que ele aparece. Esta implícita certeza é igual à primeira descoberta de Descartes. Todo o objeto aponta para a indubitável existência do sujeito. E nenhum objeto pode ser concebido como tendo uma existência real, autónoma e independente da sua manifestação na consciência que o percebe. Quando se diz que o mundo fenoménico é irreal, ilusório ou aparente, não devemos ver aí nenhum mistério transcendente que temos de desvendar. Significa, na perspetiva budista da realidade, a impermanência e interdependência de todos os fenómenos. Por isso só o repouso na vacuidade torna possível a infinita flexibilidade que nos permite estar em sintonia com a célere e permanente mudança do real.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sou Livre!



NÃO ME LIXEM!

                                              
       SE EU NÃO FOR EU, QUEM O SERÁ POR MIM??

  O segredo consiste em recuperar a inocência que nos roubaram!
Não é difícil. Afinal nunca a havíamos perdido!                  

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ser

SER... APENAS SER!
                                                   

Nada que interpretar, julgar ou conhecer!


domingo, 8 de maio de 2011

Ser e Vir-a-Ser


A atividade visando o auto-aperfeiçoamento,  a vontade deliberada de transformação, a luta e o esforço para nos convertermos no que idealizamos, é sempre inútil. Porque o pensador, a entidade que utiliza o pensamento para se auto-aperfeiçoar, para se engrandecer ou diminuir, para atingir ou alcançar, é uma entidade fictícia, ilusória. É apenas uma sensação aparente, uma projeção ou invenção do pensamento. O pensador só parece ter realidade enquanto decorre o processo de pensamento. Mas na verdade faz parte do pensamento e não subsiste quando este termina. Não tem maior solidez ou permanência que o próprio pensamento. É uma entidade fictícia, efémera e passageira, à qual o pensamento atribui permanência. Na realidade não existe pensador mas apenas pensamento. É um processo unitário e não dois processos separados. É na desmontagem desta ilusão de dualidade e separação, que consiste aquele insight a que chamamos "despertar". Esta compreensão põe fim ao esforço volitivo do pensamento e promove a integração interior. Na ausência de pensamento, o que permanece é o Ser ou Consciência impessoal, que não beneficia de qualquer aquisição ou renúncia elaborada pelo pensamento. Esta Consciência é o que nós somos na realidade e não é susceptível de aperfeiçoamento ou modificação. É sempre plena, transparente, luminosa, completa. 

O que significa dizer que não há ninguém para compreender? Ninguém para se libertar? Ninguém para se iluminar? Significa que é artificial e ilusória a separação entre a ação e o agente, entre o pensador e os seus pensamentos, entre o buscador e as suas metas. Esta aparente figura separada não passa de uma invenção. É por isso que quando te criticas ou julgas a ti próprio és vitima de uma ilusão. Crias dentro de ti uma divisão que na realidade não existe. O teu Ser é uno e não dual. O importante é não lutares contigo próprio. É inútil e ilusório estabelecermos dentro de nós mesmos uma fragmentação ou divisão em que uma parte procura consertar ou aperfeiçoar a outra. Tal como é ilusório procurar abstrair da compreensão uma entidade que compreende. Este esforço está condenado ao fracasso. A entidade que recorda e avalia, que procura reter ou recuperar, não existe no exato momento da experiência. É uma invenção à posteriori. O experimentador e a experiência constituem uma unidade. Não existe um experimentador permanente separado das suas experiências transitórias. Mas o viver e experimentar permanece em meio à transitoriedade de todas as experiências.

Eu agora compreendo claramente a futilidade do apego e do esforço para reter a compreensão. Mas é inútil fazer estes registos tendo como motivo o desejo de tornar permanente esta compreensão. Não devo converter isto que estou a escrever numa ideia a reter para servir de guia na ação. Eu não estou a produzir uma receita que me garanta a repetição desta claridade e de futuras compreensões. Eu não tenho o controle, de nada sou o autor. A compreensão vem a mim e apazigua a minha mente assim como os raios de sol aquecem a minha pele. Eu não sou o agente que deliberadamente faz e provoca aquele aparecimento. Apenas o vivencio e usufruo. É uma bênção gratuita. Tudo o que é verdadeiramente grandioso e significativo é gratuito. Não pode ser nada que eu tenha merecido ou conquistado. Por isso a vida do sábio é livre de esforço, de volição e das complicações do pensamento egocêntrico. O sábio vive com a mesma simplicidade e alegria, com a mesma espontaneidade e confiança de uma criança no seu estágio pré-moral e pré-conceptual.

Eu não posso através do esforço volitivo do pensamento, ressuscitar um estado em que o desejo, o esforço e o pensamento se encontravam ausentes. A compreensão surge do silêncio, brota da paz e do vazio. O importante é esta paz e este vazio no qual surge a compreensão. Ao procurar reter a experiência da compreensão, esse desejo constitui-se num empecilho e num obstáculo àquele vazio, àquela paz e quietude na qual a compreensão pode desabrochar. Essa compreensão não pode ser retida, não podemos garantir a sua continuidade e permanência. Por isso J. Krishnamurti afirmava  que "A verdade vem sem chamamento.  Surpreende-nos como um ladrão". Não devemos recear morrer para todas as nossas experiências porque na verdade todas elas têm um findar. Mesmo as experiências de "despertar" ou "iluminação" não constituem qualquer excepção. A renuncia e desapego tem que ser absoluto e incondicional. A entidade que se liberta só existe enquanto não há liberdade; a entidade que se ilumina dissolve-se na iluminação; aquele que desperta desaparece no próprio despertar.

Toda a atividade egocêntrica, toda a preocupação em torno da própria pessoa, todo o esforço visando o auto-aperfeiçoamento, é um roubo àquela disponibilidade, àquele espaço de atenção e silêncio necessário para podermos receber a vida sempre imprevisível que acontece à nossa volta e da qual participamos. E esta atenção ou consciência, este espaço de disponibilidade e silêncio não precisa de ser construído, fabricado ou produzido por qualquer atividade ou esforço. Ele já é inato em nós, ou antes, é aquilo que realmente somos e portanto jamais podemos perder. Não nos apercebemos dele apenas devido à distração que constitui a atividade egocêntrica do pensamento. Não o podemos converter num estado a realizar ou meta a atingir. É paradoxal mas só o vivenciamos verdadeiramente quando renunciamos ao desejo de o obter. Esta renúncia e o silêncio que a acompanha expurga a realidade de tudo aquilo que lhe é alheio. Liberta o nosso ser verdadeiro daquilo que é falso e ilusório.