A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






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domingo, 27 de janeiro de 2013

Pode-se Possuir a Verdade? São as palavras o vaso que a pode conter?


No diálogo entre o sábio e o buscador, só as perguntas deste provocam as respostas daquele. Sem o questionamento do buscador, o sábio permaneceria em silêncio. Não sente necessidade de qualquer tradução verbal. Nós procuramos aferrar-nos às palavras na triste ilusão de garantir acesso, permanência e continuidade. Com elas substituímos a realidade. Mas nem a mais completa das  ementas  poderá substituir a mais frugal das  refeições.

As palavras não constroem a realidade do sábio. É antes da sua realidade que brotam as suas palavras. As palavras do sábio poderão expressar o seu sentir e experimentar. Mas este sentir e experimentar não depende de palavras. A realidade é anterior e independente de conhecimento e verbalização. O sábio permanece neste oceano de realidade e deixa que se desvaneçam as palavras. Permite que elas surjam e  desapareçam. O seu mundo e a sua experiência brotam do silêncio e do vazio. E nada disto é pessoal. Não é algo que ele possa produzir. Por isso é livre do esforço para reter ou alcançar. As palavras do sábio são imediatamente esquecidas logo que pronunciadas. É só nesta liberdade que a verdade e a compreensão podem surgir. Só no desapego, no total desprendimento da memória e do passado é que a ação pode ser descondicionada e livre.  

Que significa a percepção desta verdade? Vais querer utilizá-la a fim de te protegeres de novos enganos e ilusões? Vais procurar registá-la e guardá-la para te servir de norma na ação? Estás a iludir-te uma vez mais. O que a mente pode conceber e registar é meramente uma expressão e um reflexo do elemento criador original. Jamais o poderá substituir. Existe um funcionar espontâneo e natural do qual a mente só uma ínfima parte pode traduzir. O experienciar a realidade, na totalidade da sua manifestação, acontece de momento a momento numa dimensão atemporal. Isto! Aqui! Agora!... é sempre perfeito, completo e imprevisível! O presente imediato, esta dimensão atemporal, jamais poderá ser captada por um fragmento tão parcial e limitado como é o intelecto. O momento presente, enquanto vivido, é infinitamente aberto, uma totalidade imprevisível. Mas quando pensado, já se tornou passado, algo de rígido, limitado e definitivamente cristalizado. O conhecido é meramente um resultado e um subproduto do desconhecido. Jamais o poderá substituir. Só podes procurar e desejar aquilo que já conheces. Mas a experiência original é livre e independente de conhecimento, de busca e de tudo aquilo que a mente e o desejo pode conceber.

Queremos estar certos e seguros de possuir a verdade. Mas a verdade não pode ser possuída. Se a procuras cristalizar num conceito, numa crença, então a palavra, o símbolo passa a substituir a realidade. Como afirmava Krishnamurti, "os conceitos podem ser repetidos, mas a verdade tem que ser sempre descoberta de novo, não pode ser repetida". O intelecto não pode substituir a presença consciente, o pensamento não pode substituir a atenção. A crença origina-se da vontade de posse e desejo de segurança. Mas a verdade será sempre completamente livre e selvagem. Para poder despontar requer espaço e liberdade. Não a podemos reter num livro ou na memória. A verdade que liberta é como uma vela que ilumina. Ela própria se consome no processo em que dá luz. Ela própria se desvanece e desaparece. Dela própria nada resta!

Um dia compreenderás que a autêntica liberdade não depende de respostas às tuas perguntas. Isso não é liberdade, é dependência. A liberdade que depende de respostas é sempre pequena e limitada. Saberes viver com perguntas sem dependeres das respostas, isso sim, é o fim de todas as amarras! É abrir-se à experiência do infinito e ilimitado. É mergulhar no desconhecido aceitando a companhia  da insegurança e do medo. E nesse processo, assistir à radical transfiguração da emoção e do sentimento. Melhor do que termos um mapa para seguir, é sermos nós mesmos a luz que ilumina o caminho.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Perguntas e Respostas - Quem Compreende o Quê?

    "O dilema não é que o individuo compreenda ou não compreenda. O dilema é o individuo."    -Tony Parsons 

Isto é para ser compreendido por quem compreende. E isto é para não ser compreendido por quem não compreende. Tudo está bem como está. Só o esforço para converter o que é noutra coisa está a mais. Se não compreendes, mas não te esforças para compreender, então compreendes! Eu não falo de nada que requeira compreensão e esforço. Não há aqui nada a alcançar. Eu estou apenas a endereçar um convite que pode ou não ser aceite. Um convite à imobilização da mente, do tempo, do pensamento. E isto é apenas um modo de estar, de ser. Não é nenhuma meta ou compreensão que se alcança.

A verdade não depende dos esforços que fazes para a descobrir. Tu nada podes fazer para que a compreensão aconteça. E nada podes fazer para a impedir de acontecer. Simplesmente pára! Abandona os teus esforços para compreender. Permanece nessa confusão e não-saber. Então alguma coisa poderá suceder. Mas saberás que tu de nada foste o autor.

Tu deleitas-te a observar aquele globo prateado que aparece no firmamento numa noite de luar. Mas eis que uma nuvem passageira vem ocultar a lua. Tu queres ter de volta o luar e podes esforçar-te para arredar a nuvem que agora o cobre. Eu apenas te convido a permanecer imóvel e a contemplar aquela nuvem. Ela também tem a sua peculiar beleza. Tu não a convidaste nem a podes expulsar. As mesmas forças que a trouxeram se encarregarão de a levar.

O esforço para atingir a experiência de um outro a partir das suas palavras e símbolos é inglório e inútil. É uma necessidade ilusória. Cada um tem o seu próprio caminho a percorrer. Somos todos únicos. A totalidade de que somos constituídos é formada por um conjunto de acontecimentos e experiências que representam uma configuração única e irrepetível. Aquilo que um indivíduo recorda e lhe é significativo, outro indivíduo esquece como destituído de significado. Cada um de nós faz os seus próprios sublinhados nos livros que lê. Um indivíduo fica indiferente a uma frase que para um outro se reveste de profundo significado e o abala de uma forma vital.

Eu vejo algo! E porque o vejo e a partir desse algo brotam as minhas palavras. Tu ouves as minhas palavras. E com elas e a partir delas constróis algo. O que te garante que esse algo que construíste com as minhas palavras é o mesmo algo a partir do qual as minhas palavras foram construídas?

Podes continuar a fazer perguntas e ficar ou não satisfeito com as minhas respostas. Mas na verdade não há qualquer entidade que possa beneficiar dessas perguntas e dessas respostas. Tu julgas que precisas das respostas às tuas perguntas para poderes atuar adequadamente, para reagires corretamente à vida e aos seus desafios. Mas na realidade, quando estás plenamente presente e a resposta é adequada e completa, não existe a entidade que perguntava e se satisfazia ou não com as respostas. Aquele que busca respostas desaparece quando cessam as perguntas. É uma entidade que apenas existe no processo de perguntas e respostas. A entidade que obtém respostas só existe no processo de fazer perguntas. A libertação e a plenitude do teu ser não depende das respostas às tuas perguntas. Tu já és livre, pleno, completo antes de obteres respostas às tuas perguntas, e és livre, pleno, completo, depois de as obteres. És plenamente livre e completo mesmo antes que qualquer pergunta, dúvida ou questão seja formulada.

Nenhuma pergunta requer resposta, porque a única resposta sempre consistirá no desaparecimento daquele que faz a pergunta. A tua existência plenamente desperta, plenamente iluminada, plenamente consciente, não tem qualquer necessidade de fazer perguntas e de obter respostas. Por mais respostas e conceitos que procures acumular, o teu ser real constituí-se de amor. E quando amas, o amor preenche-te completamente. Não sobra qualquer espaço para ti, para o ego, para a aplicação de regras ou respostas. Ages de forma espontânea e natural. A mente é que se alimenta de problemas, por isso necessita converter em problema tudo aquilo em que toca.

Queres ser iluminado? Nenhum peixe sabe o que é a água. Nenhuma criança sabe o que é a naturalidade e espontaneidade; nenhuma águia, cujas asas se abrem naquela infinidade azul com desprezo pela terra inteira, sabe o que é a liberdade.  Aquele que é generoso desconhece a generosidade. A autêntica beleza nunca resulta da vaidade.