A realidade e as palavras
"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017
”NENHUM FLOCO DE NEVE CAI NO LUGAR ERRADO”
A impermanência e transitoriedade é a condição inevitável de todos os estados e experiências. Não existe um estado de perpétua iluminação e bem-aventurança. Essa é uma ideia errada. Mesmo os mestres que admiramos e reverenciamos não vivem num estado de permanente nirvana e ininterrupta felicidade. Não acredites naquela história em que um autor fala de um passeio na floresta, um maravilhoso contemplar do pôr-do-sol à beira-mar, um acordar após uma noite de angustia existencial ou outra experiência qualquer, em que de repente é atingido pela flecha iluminada do nirvana ou um raio de compreensão súbita que lhe desvenda os segredos do universo, passando então a viver num estado de êxtase iluminado e felicidade permanente. Isso não existe! É apenas um estratagema literário que empresta certo colorido romântico ao discurso mas sem rigorosa correspondência na realidade.
Essencialmente todos passamos pelas mesmas dúvidas e perplexidades. Julgávamo-nos já definitivamente instalados no jardim do Éden e constantemente nos vemos expulsos do paraíso. O jogo da mente é muito subtil. Consideramos um estado ou experiência como o correto ou satisfatório e quando outro estado se nos depara julgamos que há alguma coisa errada. Não há nada de errado se nós assim o não considerarmos! O problema só é criado pelo pensamento que julga, avalia e compara.
Para o nosso estado natural, o nosso ser mais profundo e essencial, não há quaisquer problemas, nem desejos ou aversões. Tudo o que surge é aceite e permitido. As coisas são vividas tal como se apresentam, sem rejeição nem apego. Ninguém tem o controle. Nós nada podemos fazer. O segredo está em não discutirmos, não lutarmos. Para sermos plenos e completos devemos permitir-nos experimentar tudo. O sábio não é um ser humano perfeito, é um ser humano total!
O desejo por experiências, mesmo as mais nobres e espirituais, é como outro desejo qualquer. Enquanto houver alguém a avaliar e escolher o que é espiritual e não é, a rejeitar uma experiência e procurar reter outra, a perseguir determinados estados particulares que se procuram repetir e capturar, estaremos sob o domínio da ilusão. Se compreendemos que tudo é impermanente, então nenhum estado tentaremos produzir, nenhuma perturbação evitar, nenhum prazer desejaremos reter, nenhuma experiência rejeitar!
Aquilo que realmente somos, a nossa natureza essencial, não tem nada a ver com estados e experiências de índole particular. O Ser está presente em todas as experiências. Quando vivemos desde o nosso estado natural, da pura consciência impessoal que somos, não há desejo, nem esforço, nem gostos ou aversões, não há escolha, avaliação ou comparação. Nem sequer há palavras a tentar descrever, explicar, definir. Há apenas atenção e silêncio. Apenas disponibilidade e vazio... pura receptividade, paz, quietude! E nem mesmo existe alguém para saber disto. Não há ninguém para saber coisa nenhuma. E é maravilhoso e magnífico! Mas não tem nada a ver contigo ou comigo. Nós nada podemos fazer. Nada podemos produzir. É Graça total!
Com a aceitação vem a paz. A constante atividade mental de calcular, julgar, resistir ou aprovar é que complica a vida. Tudo flui, nada permanece! A vida é como um rio a correr. Às vezes a água vai mais clara, outras vezes mais turva, às vezes leva alguma sujidade, mas se não a estancarmos, acaba sempre por retornar à pureza original. O importante é não nos rebelarmos, não julgarmos que devíamos fazer ou sentir alguma coisa diferente do que fazemos ou sentimos, ou que as coisas deviam ser de outra maneira. Tudo é como deve ser! Tudo está bem como está! Ao longe todos os acidentes se alisam. À distância todos os percalços ganham sentido. Por maior que seja a agitação das ondas, sob uma perspetiva mais ampla o mar é sempre sereno
”Nenhum floco de neve cai no lugar errado”, diz o ditado Zen. O fim da dualidade significa o calar daquele comentador cá dentro, sempre a emitir juízos e avaliações, a condenar ou a aprovar, a dizer o que é correto e o que não é, o que está bem e o que está mal. Nós somos imensos. Somos maiores do que a mente. Maiores do que qualquer coisa que possamos pensar. Do que isto trata não é de sermos iluminados e perfeitos. Trata-se de sermos íntegros, completos. O importante é aquilo que é real e não o que desejamos ou perseguimos.
Aquilo a que devemos aspirar é total e completa liberdade. E nunca seremos plenamente livres enquanto houver coisas que perseguimos e coisas que rejeitamos. Nenhuma moeda pode existir com uma única face. Queremos felicidade sem dor, mas não se pode ter um arco-íris sem um pouco de chuva. Por isso sê benevolente contigo próprio. Permite-te ser visitado por todos os anjos e demónios, "simplesmente não lhes sirvas chá", como advertia um sábio mestre Zen. Eles vêm sem que tu os tenhas chamado e partirão do mesmo modo como vieram.
Uma história budista conta que certa vez um rei se dirigiu a um homem sábio para lhe pedir uma fórmula que sintetizasse toda a sua sabedoria. Então o sábio entregou-lhe um anel com um simples aforismo que devia recordar em todos os seus encontros com a vida. Continha apenas três palavras: “Isto também passará!”. Esta história nada tem a ver com a atitude “new age”, nem é nenhuma apologia do pensamento positivo ou da coragem perante a adversidade. É um convite à descoberta de uma paz e serenidade que subjaz além de todos os estados e circunstâncias. Ao desapego e desidentificação perante todas as situações e experiências, quer sejam de dor e sofrimento, quer de êxtase ou iluminação.
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domingo, 13 de agosto de 2017
APENAS UM DEDO QUE APONTA
"As palavras são apenas um dedo que aponta.
Se fixas o teu olhar no dedo apontador
perdes a realidade para a qual ele está a apontar."
-Hui Neng
Quem tem alguma familiaridade com os textos e autores da "Não-Dualidade" talvez já se tenha deparado com alguma declaração a atacar ou defender os vícios ou virtudes do que se convencionou chamar de “Neo-Advaita” em oposição ao “Advaita Tradicional”. Esse é um exercício inútil e estéril. Cada pessoa irá acatar os livros ou tradições que mais ressoarem com a sua própria compreensão. Irá valorizar os mestres e autores que mais a ajudaram a clarificar a sua própria experiência. Cada um faz os seus próprios sublinhados nos livros que lê. O nosso próprio e direto encontro com a realidade é que será sempre o último juiz da verdade. Não precisamos de um guia para caminhar, nós mesmos já somos a luz que ilumina o caminho.
A busca por certeza e segurança, pela tradição e os mestres corretos, é um empreendimento inútil. A mente tem horror ao mistério e à incerteza. Mas qual a necessidade de certezas e garantias, de possuir a filosofia verdadeira, de seguir a tradição correta? Alguma doutrina, algum guru ou tradição poderá satisfazer esta exigência tirânica? Todos os homens verdadeiramente sábios reconheceram a impossibilidade de as palavras poderem expressar adequadamente a verdade. A realidade será sempre infinitamente mais vasta do que quaisquer palavras que nós usemos para a representar ou comunicar.
Seja qual for a declaração que se faça, podemos sempre encontrar um sentido em que é verdadeira e outro em que é falsa. Tudo depende da nossa perspetiva, contexto psicológico, e do significado que atribuímos às palavras. Qualquer coisa que o pensamento construa, o pensamento pode destruir. Ao nível verbal e intelectual podemos sempre encontrar inconsistências e contradições nos escritos dos grandes mestres do Zen e Advaita, quer sejam antigos ou modernos. Mas para quem vislumbrou, além das palavras, a realidade para que elas apontam, aquelas declarações aparentemente contraditórias revestem-se de tremenda coerência e significado.
O que o Buda procurou foi um remédio e não uma filosofia. O Advaita, tal como o Zen-Budismo ou o Dzogchen não tem finalidades especulativas mas sim pragmáticas. Não é um estudo a ser elaborado, é uma prática a ser vivida. Nada acrescenta ao nosso acervo intelectual, modifica a nossa experiência no encontro com a vida. É muito mais um processo de esvaziamento do que de aquisição. Através da eliminação de juízos erróneos, distorções e falsos conceitos, leva-nos a uma intuição direta da natureza da realidade e do próprio Ser. Se algum tipo de conhecimento produz, é o mesmo que recomendava Sócrates, o filósofo da antiga Grécia: “Conhece-te a ti mesmo!”
A verdade não pode ser reivindicada por nenhuma espécie de clube privado, filosofia ou tradição. Esse tipo de discussão poderá atrair o académico e o intelectual, mas é completamente desinteressante para o buscador sincero da verdade. Este sabe que a verdade não é posse de nenhum guru, doutrina ou tradição em particular. Não tem um pouso fixo ou morada certa onde possamos ir bater para a encontrar. A verdade vem-nos às vezes sob a forma de um romance, outras vezes de um poema; tanto pode ser encontrada nas páginas de um livro sagrado como nos graffiti das paredes subterrâneas do metro. Ás vezes escutamo-la nas palavras de um profeta, outras vezes nas perguntas de uma criança. Se estamos realmente despertos podemos reconhecê-la nos sussurros da noite e no murmúrio do vento.
Ninguém possui a verdade, ninguém está na mentira. Há pontos de vista, não verdades absolutas. Fica com aquilo que mais ressoar com a tua própria experiência. Confia na tua própria percepção da realidade. Permanece aberto ao mistério e ao desconhecido. E quando a serenidade do teu espírito for abalada pelas sombras da dúvida e da incerteza, talvez possas reencontrar alguma paz se recordares estes versos de Fernando Pessoa:
"A terra é feita de Céu
A mentira não tem ninho
Nunca ninguém se perdeu
Tudo é Verdade e Caminho."
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terça-feira, 25 de agosto de 2015
MENTE – CONSCIÊNCIA - IDENTIDADE
A questão da identidade essencial, a indagação em torno da pergunta “O que sou?”, constitui o núcleo à volta do qual gravitam todas as grandes tradições espirituais e religiosas.
Nesta inquirição alguns termos e expressões poderão adquirir significados
ligeiramente diferentes em função do contexto e da tradição em que são utilizados. Por isso
devemos evitar uma atitude demasiado rígida, permitindo-nos alguma flexibilidade na interpretação de certas palavras e expressões.
Quem leu os grandes
mestres do Zen-Budismo terá reparado que nesses textos é muitas vezes utilizado
o conceito de “grande mente”, “mente essencial”, "mente única" ou “mente original” para se
referirem àquilo que constitui a nossa autêntica natureza, a nossa identidade essencial e que os autores
Advaita (náo-dualidade) denominam “Consciência”. Ambas as tradições apontam para a mesma realidade.
Na maioria dos textos Advaita
faz-se uma distinção entre mente e consciência, que de forma breve podemos clarificar como segue:
Mente – É expressão da experiência individual sob
a forma de pensamentos, memórias, desejos e aversões, emoções e sentimentos. É apenas um objeto ou conteúdo da consciência. É resultado do tempo e está sujeita ao jogo da mudança e da impermanência. O "eu" pessoal e fenoménico e aquilo a que chamamos "personalidade" não passa de uma construção fictícia que resulta da nossa identificação com estas formações mentais.
Consciência – É aquilo que constitui a nossa verdadeira natureza, essencial e imutável. É omnipresente, atemporal, impessoal e universal. Não tem quaisquer limites, qualidades ou dimensões. É informe e vazia, sem qualquer ubicação no tempo ou espaço. Sendo pura subjetividade não pode ser percebida objetivamente. É a realidade última e primeira a que em última instância é redutível todo o fenómeno e experiência. Esta Consciência é o que realmente somos. É aquilo que se encontra por trás da expressão "Eu Sou" ou "Existo".
Esta distinção é importante porque o nosso ser autêntico e
essencial, aquilo que realmente somos, não pode ser identificado com nada que seja objeto de percepção ou experiência. A
forma como em cada momento pensas, atuas e sentes, apenas reflete o teu estado,
não define aquilo que tu és. David Hume, uma importante figura da filosofia ocidental,
também se apercebeu disto, o que o levou a negar qualquer realidade substancial
ao “eu” individual, tal como já havia feito o Buda há 2500 anos.
“Quanto a mim, quando penetro mais intimamente naquilo a que chamo eu próprio, tropeço sempre numa ou outra percepção particular, de frio ou calor, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de dor ou prazer. Nunca consigo captar-me a mim próprio, em qualquer momento, sem uma percepção, e nada posso observar a não ser a percepção.” -David Hume, Tratado da Natureza Humana
Fernando Pessoa faz uma reflexão semelhante no Livro do Desassossego:
"A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas." -Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
“Compreenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas. Esse algo que nasce ou que morrerá é puramente imaginário.” -Nisargadatta Maharaj, I Am That
Os mestres Advaita terão reparado que o nosso verdadeiro ser, a nossa
natureza autêntica e original, não pode ser nada de fenoménico nem
ter qualquer marco temporal. Terá que estar sempre presente, não é nada
que se possa perder ou adquirir e deve estar
antes e além da mente e do “eu individual". Aquilo que és não pode ser definido ou formulado
positivamente. Não podes dizer o que és, mas apenas aquilo que não és. Daí a
expressão “Neti, Neti” (não isto, não aquilo), oriunda do antigo sânscrito, que
significa que a verdade do que és, não é nada susceptível de surgir no tempo ou no espaço, nem nada que possa ser pensado, sentido,
conhecido, experimentado ou verbalizado.
Tu és aquilo que resta depois de descartares tudo o que participa do jogo da impermanência. Mas isto torna inúteis todos os esforços para apreender objetivamente essa realidade última, o ser essencial ou absoluto, já que todas as aparências ou manifestações surgem no campo fenoménico, pertencem ao mundo do tempo e do transitório. Qualquer coisa que possas conhecer e conceptualizar manifesta-se no plano consciente. E tudo o que surge no plano da consciência é temporário e impermanente. Por isso os budistas o consideram apenas aparente ou ilusório já que tem realidade meramente relativa e dependente. O mundo surge e desaparece com a própria consciência que o percebe. Sem consciência não há mundo.
A própria consciência é a única realidade estável e permanente em meio a todo esse fluxo efémero e passageiro que constitui o mundo fenoménico. Mas, paradoxalmente, a consciência, a nossa realidade mais íntima e essencial, é algo que jamais poderemos conhecer de forma conceptual e jamais poderá ser objeto de percepção ou experiência, pois é aquilo que está na origem de todo o fenómeno e torna possível todo o experimentar. Não podes conhecer o que és, podes apenas sê-lo!
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013
"MUSHIN" - CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTADO DE "NÃO-MENTE"
De uma forma mais ou menos consciente, os esforços do buscador quase sempre são direcionados ao aperfeiçoamento do conteúdo da mente, à busca da filosofia e das respostas mais rigorosas e perfeitas, à elaboração da suprema norma de conduta, algum principio orientador, alguma fórmula, algo que possa adquirir e usar. A plena maturidade vem com a compreensão de que qualquer apego ou aquisição se converte num estorvo. Qualquer bagagem ou acumulação limita a liberdade e turva a consciência como a sombra escura que limita o circulo brilhante da lua. Maturidade é compreender que a realização suprema não é algo que se possa alcançar ou adquirir, mas antes um estado original que importa reconhecer e em que podemos confiar. O importante não é o conteúdo perfeito mas antes o vazio perfeito. "A melhor coisa não é melhor do que nada!", diz um provérbio Zen.
A iluminação ou o despertar não tem que ver com alguma classe de eventos ou estados particulares. A iluminação não diz respeito à situação em que te encontras, à forma como te sentes ou te comportas. Não existe uma categoria correta de estados iluminados em oposição àqueles que excluem a iluminação. O que desaparece é a divisão interior, a divisão entre um "eu" que vive e um "eu" que ensina a viver. Deixa de estar presente o comentarista ou censor que julga, avalia ou compara. Existe apenas um fluir natural e espontâneo, um sentir, viver e agir puro e simples. Não mais existe a entidade fictícia que se separa da experiência para a julgar, condenar ou justificar, aquela voz que sabe e idealiza e que sempre olha para aquilo que é através de uma ideia de como deveria ser. Cessa a aparente atividade de um "eu" imaginário, de um agente ilusório a pretender controlar, modificar ou manipular a experiência.
Importa compreender que não se trata da aquisição de qualquer tipo de perfeição, sabedoria ou virtude. É um estado totalmente isento de conteúdo, puro vazio. A denominação "Não-Mente" procura precisamente evitar o conflito da dualidade e da luta entre os opostos. É o fim do conflito entre a aceitação e a recusa, da luta entre o que é e o que deveria ser. Cessa toda a possibilidade de rejeição e escolha, toda a comparação entre o que penso que sou e aquilo em que me deveria converter. É o fim da "auto-consciência" com as suas atividades calculistas e protetoras em torno de uma imagem, de uma figura imaginária.
O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.
O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.
O conhecimento conceptual implica sempre separação e dualidade. O conhecimento é como um dedo que aponta para fora, originando o experimentador separado da experiência, o sujeito separado do objeto, o agente separado da ação. Esta divisão artificial termina quando há perfeita quietude mental, perfeito silêncio. Neste estado de quietude não existe qualquer pensamento ou entidade para verbalizar ou conhecer o estado de consciência experimentado. O estado de "Não-Mente" não é algo que se possa obter ou conhecer, mas apenas ser e vivenciar. Daí que sempre se nos faça a advertência de que as palavras são como setas indicadoras. Elas podem apontar uma direção, mas terão de ser abandonadas ao entrarmos no caminho apontado. Uma metáfora budista diz-nos que, uma vez alcançada a outra margem de um rio, não carregamos às costas o barco que nos serviu na travessia. As palavras são como uma porta ou uma ponte que é deixada para trás uma vez atravessada. Elas não nos podem acompanhar no salto que nos estabelece na pura realidade. A realidade é anterior a todas as palavras. O oceano da verdade é como um poço de ácido corrosivo em que somos completamente dissolvidos ao nele mergulharmos. Nós desaparecemos e resta apenas a realidade. Apenas este fluir interminável sem causa nem propósito a que chamamos viver... e uma alegria transbordante a impregnar o ser e o experimentar.
O estado de "Não-Mente" não pode ser reconhecido, uma vez que está ausente o mecanismo que permite comparar, avaliar ou reconhecer. É por isso que toda a atividade e esforço em torno do auto-aperfeiçoamento, toda a luta procurando aniquilar o ego ou obter a "iluminação", não passa de um inútil desperdício de energia. É tão fútil como a atividade do cão ás voltas sobre si mesmo procurando agarrar a própria cauda, ou da criança que tenta ultrapassar a própria sombra. O silêncio jamais poderá coexistir com a entidade que o procura alcançar, porque o silêncio aniquila completamente aquele que deseja obter o silêncio. Só quando te retiras da frente de um espelho é que ele deixa de refletir a tua imagem, mas então tu já não te encontras aí para confirmar essa ausência!
O que temos de compreender é qual o vento, qual a água que ao banhar a mente a liberta de todo o passado e condicionamento. Por certo que não poderá ser nada vindo da própria mente, da memória ou da especulação intelectual. Não se pode pensar no "estado sem pensamento". Há uma realidade que só toma forma no imediato plano existencial, uma dimensão que o pensamento não pode antecipar nem recordar nem conhecer. A mente jamais poderá invocar a sua própria ausência, é isto que importa compreender. Aquilo que é manifesto no silêncio, só o silêncio pode experimentar. A atividade do pensamento é como um jogo circular de que ele próprio se alimenta. Mas há uma presença inefável que o pensamento jamais poderá tocar. Esta presença não é um atributo mas sim o próprio Ser. É aquilo que somos e não algo que possuímos.
É por isso que o estado de "Não-Mente", a libertação, não pode ser um processo gradual. O tempo só existe na mente e a mente não pode ser o instrumento que te leva além da mente. A mente jamais poderá cooperar com a sua própria destruição. A saída deste circulo opressivo só pode ser uma resolução instantânea, um salto para além da mente. Este salto não requer nenhum "fazer", nenhum requisito é necessário cumprir. Consiste muito mais numa renuncia, numa negação, num não agir, não fazer, não interferir (o "Wu Wei" do taoismo chinês), do que nalgum fazer, agir ou atuar positivamente. A intenção e a vontade representam o obstáculo e não o meio.
É por ser uma coisa tão fácil e tão simples que ela parece difícil ou complicada. No entanto, uma vez mais, a dificuldade ou complicação só existe para a mente. Mas a mente não desempenha aqui qualquer papel. A mente, o ego, o pensamento, jamais poderá contactar ou experimentar a sua própria ausência. Isto é que tem de ser compreendido. Aquele estado torna-se presente quando a mente renuncia a todas as suas atividades, motivos e desejos. Sendo o nosso estado natural, ele não pode ser gerado através de esforço nem precisa ser criado por qualquer atividade da nossa parte. Porque é um estado preexistente a todas as nossas atividades. Não requer sequer ser conhecido ou verbalizado. Procurar conhecê-lo ou obtê-lo, é tão absurdo como um peixe andar em busca da água onde nada. É este o significado profundo do termo "Graça", algo que é gratuito, livre de causa, que não é nenhum resultado ou objetivo. Acaso a vontade de um recém-nascido poderá ser a causa do seu ser e existir? É ele o autor do seu próprio respirar e sentir? É o nosso esforço e a nossa vontade que faz o coração bater e o sangue circular?... O que a natureza requer de nós é confiança e não resistência!
O risco que se corre ao fazer estas exposições verbais, é o de elas poderem involuntariamente intensificar a própria atividade que se pretende cessar. As palavras fazem parecer complicado aquilo que é naturalmente simples. Estas palavras não devem ser convertidas numa ideia a reter e aplicar. As palavras são meramente a expressão de uma realidade que está antes delas. Devem ser vistas como uma grosseira tentativa de descrição e não como uma prescrição. A claridade e lucidez não depende de palavras, símbolos ou expressão. Nada disto deve ser convertido num esforço de compreensão ou num problema a resolver. Compreender a realidade não é compreender as palavras que a procuram descrever. Nenhuma descrição é adequada, porque nenhuma descrição pode substituir o sabor da realidade. O mapa não é o território. Se entrares num restaurante chinês, poderás não compreender a ementa, mas isso não te impede de usufruir plenamente da refeição. Aquilo que é real e verdadeiro não depende de conhecimento ou verbalização. A ordem da realidade não depende da ordem das palavras. Podemos falhar todas as questões dum exame de anatomia, mas entretanto o nosso metabolismo não deixará de funcionar perfeitamente. Como diz o provérbio Zen, "Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são". Nunca precisámos de aprender a crescer, a digerir ou a respirar. Ser e viver está além do conhecer e compreender. Uma ideia jamais poderá substituir o espírito capaz de a conceber. O conhecimento é um subproduto, um resultado. O importante é aquilo que lhe é anterior e lhe está na origem: o estado de aprender e experimentar. E este é um estado de vazio e receptividade que só se manifesta plenamente quando não há qualquer esforço nem apego, nem luta por controlar ou alcançar.
Não há solução para este dilema senão o reconhecimento da nossa impotência. A renuncia a toda a volição e esforço. Abandonar completamente todos os problemas e voltar a atenção para a realidade imediata e presente, para este fluir ininterrupto e espontâneo que a todo o momento se desenrola de forma completamente livre e alheia a quaisquer que sejam os nossos motivos, desejos ou lucubrações. "Esquecer tudo é o meio supremo", diz a sabedoria Zen. Abandona todos os teus esforços e pretensões, estabelece-te na paz e quietude do silêncio interior, e aquilo que então restar, isso é que é real.
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terça-feira, 17 de setembro de 2013
Regressar à Própria Experiência
"Se é de conhecimento ou de sabedoria que andamos à procura, o melhor será irmos procurar diretamente à fonte. E esta não é o erudito ou o filósofo, não é o mestre, o santo ou o professor, mas a própria vida - a experiência direta de vida.".
Henry Miller, Os Livros da Minha Vida
Sendo a natureza humana a mesma que todos partilhamos, quem desvenda os seus segredos tem que forçosamente confluir para a mesma realidade e fazer as mesmas descobertas essenciais. Por isso é um erro achar que todas essas diferentes tradições, métodos, caminhos, religiões,... podem apresentar propostas fundamentalmente diferentes se realmente pretendem despertar e libertar o ser humano. Às vezes apenas confundem e atrapalham quem procura ajuda e esclarecimento. Se realmente é o mesmo ser humano que se procura mapear e libertar, que diferença pode haver nas verdades apontadas?! No entanto, frequentemente essas diferentes propostas apresentam-se como se cada uma delas tivesse a posse exclusiva das chaves do paraíso! Tantos pretensos mestres, tantos diferentes métodos e caminhos, tantas diferentes linhagens e tradições!!... Talvez que esta infindável peregrinação por livros e mestres, seja apenas um adiamento do único caminho que conduz ao esclarecimento e à verdade: decidir-se a estudar e investigar no laboratório sempre disponível da própria mente e do próprio coração!
A que se referem esses mestres, esses seres despertos e iluminados? Referem-se a algo implícito na minha vida? Ao meu ser autêntico e original? Algo intrínseco à minha própria natureza? Se assim é, então não faz sentido buscá-lo uma vez que já é manifesto na minha experiência. Basta-me ser fiel ao meu próprio ser, ser autenticamente eu mesmo. Se assim não for, se é algo alheio à minha vida, algo que tenho que obter, então também não faz sentido buscá-lo, pois é do campo do impermanente. E o que é impermanente não pode ser realizado, pois o que se obtém sempre se perde. É só quando regresso à minha própria experiência, ao ser autenticamente eu próprio, que posso encontrar seja lá o que for que os mestres me possam prometer. Afinal, como declarou Terêncio dois séculos antes de Cristo, "Sou homem! Nada de humano me é estranho!".
Este constante formular de novos problemas, esta necessidade de atualização com os novos livros e professores, este constante buscar e questionar, esta interminável atividade de arranjar pulgas para se coçar,... de onde provém? Não será do impulso tirânico da procura de segurança, garantias e permanência? Mas que entidade poderá beneficiar de toda esta atividade? Quem é este "eu" que deseja o nirvana ou a iluminação? Quem é o individuo que constantemente busca e se interroga e deambula entre diferentes mestres, caminhos e tradições? Terá existência real ou é apenas um produto da imaginação? Para quê insistir em fixar a forma das nuvens, escrever na água ou construir castelos de areia à beira mar?
Hoje muito daquilo que se escreve sobre "espiritualidade" e "não-dualidade" apenas procura esclarecer e solucionar problemas que foram criados precisamente pelas tentativas de expor estas matérias em palavras e conceitos. Uma mente confusa e iludida projeta a sua confusão em tudo aquilo para onde olha. Não é raro que as palavras apenas consigam multiplicar os problemas que procuram resolver. Afinal não serão as palavras que alimentam o pensamento onde se aloja o ego? Há um conto Zen que ilustra este dilema através da história de um pequeno peixe que era feliz, nadava e brincava no oceano, até ao dia em que ouviu um discurso sobre a água e a sua importância. A partir de então ficou obcecado pelo desejo de descobrir e obter tão precioso elemento!?! Foi assim que perdeu a sua paz e alegria.
Sempre será um dilema e um paradoxo procurar através das palavras, comunicar e partilhar com os outros uma realidade que as palavras nunca conseguem capturar. Como podemos nós através das palavras transmitir aquilo que só pudemos constatar quando nos livrámos de todas as palavras?! Só quando nos dispomos a aprender por nós próprios, quando não fugimos á nossa própria solidão, é que podemos estabelecer a relação correta com os livros e a leitura. Ramana Maharshi dizia que os livros apenas vieram corroborar aquilo que ele havia experimentado diretamente antes de os ter lido. Krishnamurti afirmava que lhe era insuportável ler "filosofia" e "espiritualidade", apenas valorizava a experiência direta e livre de quaisquer conhecimentos prévios.
Não se trata de criar uma atitude de evitamento e recusa perante os livros e os mestres. O que se trata é de compreender a relação que com eles estabelecemos, a atitude com que deles nos aproximamos, pois esta atitude é que em grande parte irá determinar o que deles iremos receber. É a nossa atitude e os nossos motivos que podem fazer que eles sejam para nós uma fonte de esclarecimento e partilha ou antes de perturbação.
Não se trata de criar uma atitude de evitamento e recusa perante os livros e os mestres. O que se trata é de compreender a relação que com eles estabelecemos, a atitude com que deles nos aproximamos, pois esta atitude é que em grande parte irá determinar o que deles iremos receber. É a nossa atitude e os nossos motivos que podem fazer que eles sejam para nós uma fonte de esclarecimento e partilha ou antes de perturbação.
É o espírito que dá vida às palavras, não são as palavras que dão vida ao espírito. Tu não podes ser informado primeiro para experimentar depois. Pelo contrário, só depois que experimentaste é que poderás compreender as palavras que o informam. "Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido" observou Herman Hesse.
Quando sabes escutar, de tudo podes aprender. Por isso se diz que "quando o discípulo está pronto, o mestre aparece". De outra forma como o poderia reconhecer?... Não é o mestre que produz em ti o despertar. É a tua intenção sincera de abrir a mente e o coração. Em nós mesmos é que descobrimos o essencial, através da investigação direta do nosso próprio viver e experimentar. Só depois é que os livros começam a fazer sentido. Na geografia terrena um mapa pode conduzir-nos a um tesouro, mas na busca de Deus, primeiro teremos que o encontrar, só depois é que podemos compreender os mapas que o indicavam.
A verdade é uma presença e não uma posse. A verdade não me pode ser dada por outrem. O contacto com a realidade é sempre direto e solitário. Dos outros tenho apenas o corpo e as palavras. Servimo-nos das palavras para comunicar. Mas em ultima análise, as palavras serão sempre uma barreira e não um veiculo. As palavras não transportam a realidade. As palavras não são o ser da realidade que é. Nada nos garante que estamos realmente em comunicação e comunhão com o outro. O outro procura comunicar utilizando palavras. Mas as palavras estão sujeitas a interpretação. A interpretação não é a ponte que nos leva à experiência do outro. É uma barreira que nos separa dessa experiência. Nenhum discurso sobre a água pode saciar a tua sede. Tens que levar os teus próprios lábios à fonte. E a experiência do contacto com a água é algo intimo e solitário. Por isso a comunhão só existe quando assumimos de uma forma plena e completa a solidão. Paradoxalmente, só na solidão pode ser encontrada a experiência plena e autêntica do amor unificador. Só na solidão deixamos de ser muitos para passarmos a ser um só. Apenas quem está só é que pode amar!
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O Silêncio Jamais Será Vazio
Repetidamente ouvimos os mestres falar e distinguir um ego ilusório do nosso ser real, "self" ou consciência. Então desejamos uma garantia ou critério que nos permita saber quando é que uma atividade se origina num ou no outro. Mas só o ego formula tal problema ou interrogação. Apenas a mente, o intelecto pode desejar e obter tal satisfação. Pode alguma atividade auto-centrada, isto é, motivada por interesse próprio, ter origem diferente do ego? Como poderia tê-la? Só o ego deseja eliminar o ego. A luta para te libertares do ego e da personalidade ilusória, é algo semelhante a procurar limpar a tua imagem de um espelho. Por mais tempo e esforço que despendas a esfregar a sua superfície, de cada vez que olhares irás ver nele a tua imagem refletida. Só quando te rendes à tua impotência, quando abandonas o problema e te retiras é que a imagem desaparece. Mas quem estará aí então para confirmar a ausência da imagem?
Só no total desapego se encontra liberdade. O fogo da compreensão consome-nos completamente. É só nesta morte psicológica que a ação está livre dos tentáculos do ego. Temos que desaparecer completamente. A renúncia tem que ser absoluta e incondicional. Só então o acto é lúcido e completo. O agente desaparece, há apenas ação. Termina a ilusão de uma existência separada. É este o significado de "Advaita" no experienciar da realidade: ser e existir liberto da ilusão da dualidade. É o fim do "eu" pessoal, a ausência de qualquer senso de individualidade. Desaparece a entidade separada que avalia, julga, conhece, controla, interpreta, rejeita ou aprova a experiência. Deixamos de existir noutra forma que não seja simplesmente como a luz que permite que a realidade seja. Somos então e apenas a consciência que dá vida e existência a tudo o que se experimenta. Mas não sob forma auto-consciente separada da experiência. Não existe ninguém para conhecer ou verbalizar esse estado. Por isso Dogen, o fundador do Soto Zen japonês, diz no Genjôkôan: "Estudar a via do Buda, é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se a si mesmo é ser uno com todas as coisas".
O que existe são as sensações, as emoções, os sentimentos, os sons, as cores,.... mas não existe nenhum sujeito ao qual estas coisas aconteçam. Jamais encontramos qualquer individuo ou pessoa, mas apenas experiência. O "eu", a entidade separada é uma ficção criada no pensamento, uma suposição sem qualquer fundamento, um significante sem significado. Se formos realmente honestos teremos de reconhecer que tudo o que
podemos encontrar é apenas experiência e jamais encontramos nenhum
experimentador. Nós não somos nada mais do que espírito ou presença, a condição para que todas as manifestações possam acontecer. Somos consciência impessoal, o invisível e imanifestado continente de todo o conteúdo. E deste jamais nos podemos abstrair. A consciência e as suas manifestações forma uma unidade. O som não está separado do silêncio que o acolhe. Toda a especulação que procure separar a consciência do seu conteúdo não passa de um exercício ocioso e artificial condenado ao insucesso.
Nós somos consciência. E a consciência assemelha-se à luz. Quando acendemos uma luz numa sala escura, o que vemos não é a luz, o que vemos são todos os objectos que ela tornou manifestos. Este é o significado autêntico do amor. O amor com nada se parece mais do que com a luz. Porque a luz nada tem de si própria. Não existe para si mesma, mas para dar existência a tudo o que existe. Todas as existências só o podem ser através dela. Sem ela nada pode ser. Mas ela nada é. Nós somos esse vazio feito consciência. Somos luz!... Apenas luz! Sem os objetos a luz perde a sua substância, sem a luz os objectos perdem o seu significado. A consciência precisa dos objetos para se poder reconhecer; os objetos precisam da consciência para poder existir. Interior e exterior é apenas um mesmo movimento inseparável e unitário. E o silêncio é a harmonia que impregna toda a experiência.
Por isso nos escritos Taoístas e Zen-Budistas, o espírito do homem livre é tantas vezes comparado a um espelho. Ele nada busca e nada repele. Tudo recebe sem nada reter. Cada nova imagem que surge na superfície do espelho apaga a que anteriormente ele refletia. Da mesma forma é a natureza vazia da consciência que lhe permite refletir de instante em instante o perpétuo fluir da realidade sempre cambiante. É como um rio a correr, nunca permanece o mesmo e no entanto está sempre cheio. Perdemos na realidade sempre que procuramos reter!
Como posso eu morrer se nunca for permanente? Como pode desaparecer o que nunca chegou a existir? Tal como as águas de um rio sou permanente renovação que nunca volta a percorrer o caminho percorrido. O silêncio jamais será vazio!
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sábado, 5 de maio de 2012
Inefável
Como poderão as palavras expressar ou transmitir um estado
que se torna presente quando todas as palavras
e todo o verbalizar se ausentaram?
Falar sobre Isto! Discorrer sobre Isto!
Sempre o mesmo dilema, a mesma frustração!
Sempre a sensação de que algo absolutamente essencial
foi deixado de fora!
Falar e escrever!
Apenas para constatar que a verdade
Jamais se deixa capturar.
Tudo o que desta atividade pode resultar,
será sempre um pálido reflexo daquilo que lhe deu origem.
Compreender isto! Aceitar isto!
Não significa limitação ou impotência.
Significa a infinita independência.
A infinita liberdade!
segunda-feira, 9 de abril de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
Impermanência
Sei que há pouco eu já era...
Era "Ser", eu existia!
No entanto não sentia
esta sensação que sinto.
É estranho!... sei que não posso ser
esta sensação que sinto!
E sinto não poder ser
mais do que esta sensação!!...
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Sou tudo sendo nada
Sou a luz que ilumina a realidade.
Sou a origem de todo o fenómeno.
Sou o próprio ser de tudo aquilo que é.
Sou o criador do mundo.
O princípio, o meio e o fim de todas as histórias.
Sou o alfa e o ómega.
Fora de mim nada existe.
Nada há que eu não seja.
Sou o uno do universo.
Sou o dedo que aponta, sou a lua e sou aquele que olha.
Sou a pergunta e sou a resposta.
Sou o autor de todos os livros
e sou o analfabeto que os lê.
Sou o palco e a plateia.
Sou o que permanece depois de se apagarem as luzes da sala.
E sou quem as acendeu quando ainda vazia.
Sou o Cristo, sou o Buda e sou quem se senta aos seus pés.
Sou todos os deuses e todos os seus profetas...
E sou também quem jamais os escutará.
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sábado, 30 de abril de 2011
Introdução
Este blogue nasce da vontade de partilhar reflexões acerca daquilo que podemos denominar Sabedoria Perene, Filosofia Advaita e Budismo Zen. Estes conceitos ou quaisquer outros serão aqui utilizados com uma função meramente instrumental ou pragmática. Não estamos a fazer ciência ou filosofia. Desde que as palavras sirvam para nos remeter àquilo de que estamos a falar é quanto basta.
Os textos aqui derramados tratam principalmente de problemas levantados pela formulação verbal ou transmissão da compreensão. Não nos ocuparemos aqui da divulgação daquelas filosofias (vamos chamar-lhes filosofias, uma vez mais, por motivos pragmáticos da comunicação). Não iremos transcrever os textos em que ela é exposta pelos mestres Zen e Advaita. Pelo menos não é esse o objetivo principal. Existem já na internet bastantes blogues temáticos que familiarizam o leitor com os seus textos e autores fundamentais. Os comentários aqui deixados irão antes girar em torno de uma questão essencial, primordial e decisiva que é o problema da comunicação daquelas filosofias, bem como problemas que têm a ver com a comunicação de modo geral. No entanto não desejaria
definir de forma muito rigorosa e antecipada a temática do que aqui se poderá encontrar. Por um lado porque desejo estar aberto e permanecer fiel à
minha liberdade de pensar e escrever. Por outro lado porque não quero definir
ou limitar à partida qualquer categoria específica de pessoas a quem o que
escrevo possa interessar. Aquilo que escrevo diz respeito à busca da verdade, à vida e ao viver na
sua dimensão humana enquanto tal.
Há algumas ideias cuja expressão mais romantizada e obscura costuma suscitar, em vez de esclarecimento, maior perplexidade e confusão. Há afirmações que fazem parecer o "despertar" ou "iluminação" qualquer coisa de transcendente e excepcional, uma experiência quase miraculosa ou sobrenatural pela qual alguns seres foram bafejados e que nós invejamos. Se assim fosse não faria qualquer sentido procurar comunicá-la, nem para nós faria qualquer sentido procurar compreendê-la. Somos seres humanos comuns que partilham da mesma humana natureza. A nossa experiência nada tem de transcendente ou sobrenatural. O mágico e o miraculoso não nos interessam.
De qualquer modo é importante ficarmos cientes de que qualquer forma de expressão verbal representa apenas uma tentativa de comunicar, uma formulação hipotética, uma possibilidade entre outras. Por isso estou dolorosamente consciente das limitações de seja o que for que aqui possa ser lido. Ao procurarmos comunicar estamos forçados a utilizar este instrumento que pela sua natureza é também o principal produtor de ilusões. A palavra, o símbolo é alheio à realidade, não é a coisa que representa. Por isso é importante ter presente um conselho dado por Misson, um filósofo desconhecido da antiga Grécia: "Indaga as palavras a partir das coisas e não as coisas a partir das palavras".
Porque razão apesar de tantos livros e mestres continuamos sem a iluminação e plenitude que procuramos? Porque razão na nossa busca por esclarecimento e compreensão nos vemos assaltados por tantas perplexidades, dúvidas e contradições? Porque razão este esforço constantemente se revela tão frustrante como a atividade de uma criança procurando ultrapassar a própria sombra que sempre se lhe adianta e escapa?
Algumas teses fundamentais poderão contribuir para elucidar a perspetiva do autor e serão desde já enunciadas:
- Há uma contradição ou oposição inevitável entre o desejo de certeza e segurança e a própria estrutura da comunicação verbal. Nenhuma formulação verbal nos poderá transmitir a segurança que procuramos. Tudo o que o intelecto constrói, o intelecto pode destruir;
- O paradoxo e a contradição são inerentes àquelas filosofias sempre que procuramos comunicá-las ou pô-las em palavras, já que tratam um domínio ou dimensão da experiência que só se torna manifesto quando é transcendido o intelecto e nos livramos de todos os nomes e palavras;
- Enquanto nós mesmos não tivermos um vislumbre claro, um saborear direto daquilo que o discurso da "Não-Dualidade" nos procura comunicar, e que se encontra por trás de expressões como "iluminação" e "despertar", aquele sempre nos parecerá inconsistente, confuso e contraditório. Na geografia terrena, um mapa poderá conduzir-nos a um tesouro, mas na viagem em busca de "Deus", só depois que o encontrámos é que se tornam claros para nós os mapas que o procuravam indicar;
- O discurso não tem que ser lógico, consistente, belo ou "verdadeiro". Tem é que ser eficaz em conduzir o olhar do buscador para aquilo que pretende apontar. Não tem qualquer importância, significado ou valor intrínseco. É como um mapa que se torna inútil uma vez atingido o local que ele indicava. As palavras são apenas um dedo que aponta, como advertia Hui Neng, o sexto patriarca Zen, se te perdes a olhar para o dedo apontador, deixas de ver aquilo para o qual ele está a apontar.
- Nunca a compreensão, o despertar ou a iluminação foram recebidos de algum livro, mestre ou guru. Essa é uma falsa impressão. Não são os livros e os mestres que produzem em nós o esclarecimento e a iluminação. Como é que os poderíamos compreender se não estivermos já iluminados e esclarecidos? As palavras dos mestres fazem apelo à nossa já inata sabedoria, à nossa inata capacidade de ver. Em diversas formas, os livros, quando são vitais e significativos, apenas podem ser uma corroboração do que nós próprios experimentamos e sentimos.
- Os autênticos mestres Zen e Advaita, quando falam ou escrevem, mesmo em contexto pedagógico, não estão a transmitir ou comunicar aquela filosofia. Estão simplesmente a expressá-la! A sua fala e a sua escrita brotam do contacto com a realidade, não são um método ou uma receita para produzir esse contacto. O que fazem é uma descrição e não uma prescrição. A coisa está antes e não depois do símbolo e da palavra. É no descobrimento e dissipação deste equivoco que o "discípulo" ou "buscador" dá um passo decisivo na sua libertação.
- A condição humana é a de uma irrevogável e essencial solidão no viver e experimentar. Daí que ninguém nos possa substituir na compreensão nem nós nos podemos substituir a ninguém. Esta viagem é feita solitariamente. Mas nesta solidão existe uma riqueza e imensidão que tudo inclui.
Estas ideias irão ser expostas e expressas de diferentes modos e pontos de vista nos diversos textos deste blogue. Às vezes de forma muito condensada e sintética, e outras vezes de forma mais desdobrada e desenvolvida. Mas ao captarmos ou intuirmos a realidade que se encontra por trás das palavras e que é a fonte de onde elas brotam, sentiremos paradoxalmente aquilo que expressa um dos provérbios Zen:
"Se estás imerso na dúvida e na confusão, todos os livros sagrados não te serão suficientes; quando o teu espírito repousa na calma da compreensão, até mesmo uma única palavra estará em excesso".A mesma ideia foi expressa por Shankara, o grande comentador dos Vedas da India milenar, que diz no "Viveka-Chudamani":
"A erudição, o discurso bem-articulado, a riqueza de vocabulário e a capacidade de interpretar as escrituras, tais coisas aprazem ao erudito, mas não trazem a libertação. O estudo das escrituras será vão enquanto Brahman não tiver sido experimentado. E, depois que Brahman foi experimentado, é inútil ler as escrituras."
O autor deste blogue tem uma concepção dialética da comunicação. Isto significa que, nestas matérias, qualquer exposição verbal nunca será definitiva. O discurso tanto poderá parecer excessivo como insuficiente, correto ou equivocado, consoante a perspetiva em que se encontra o leitor. A possibilidade de divergência na interpretação está sempre presente. Daí que talvez seja necessário reformular as afirmações, negar e reafirmar, etc., à semelhança de um ladrilhador que vai cortando e ajustando uma peça até ela encaixar perfeitamente no espaço a que pertence. No entanto, esta perfeição não significa a expressão perfeita mas sim a compreensão perfeita. Aquela compreensão que surge quando, depois de transcendidas as palavras e os símbolos, ambos os espíritos olham na mesma direção. Por isso nalguns círculos se privilegia tanto a relação com um mestre ou guru. No contacto direto existe a possibilidade imediata de corrigir erradas interpretações para que o buscador possa ser desviado dos erros e atitudes obstaculizantes. Todos nós conhecemos já a experiência da perplexidade, da dúvida e da contradição que surgem durante a leitura de um livro. Isto advém das próprias limitações das palavras e da comunicação verbal. Nesses momentos gostaríamos de poder interpelar o autor de forma a clarificar a questão que nos perturba. Na relação com um mestre ou guru, a possibilidade deste esclarecimento está imediatamente disponível. Mas o autêntico guru é aquele que se torna dispensável. O verdadeiro mestre liberta, não prende. A verdadeira ajuda, tal como declarou Nisargadatta Maharaj, só pode ser aquela que te coloca além da necessidade de ajuda.
É desnecessário dizer que quaisquer comentários ou sugestões serão bem vindos e merecedores de toda a atenção por parte do autor.
Junto as minhas mãos numa grata saudação.
Junto as minhas mãos numa grata saudação.
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