A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






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domingo, 13 de agosto de 2017

APENAS UM DEDO QUE APONTA


                             "As palavras são apenas um dedo que aponta.
                             Se fixas o teu olhar no dedo apontador
                             perdes a realidade para a qual ele está a apontar."
                                  -Hui Neng

Quem tem alguma familiaridade com os textos e autores da "Não-Dualidade" talvez já se tenha deparado com alguma declaração a atacar ou defender os vícios ou  virtudes do que se convencionou chamar de “Neo-Advaita” em oposição ao “Advaita Tradicional”. Esse é um exercício inútil e estéril. Cada pessoa irá acatar os livros ou tradições que mais ressoarem com a sua própria compreensão. Irá valorizar os mestres e autores que mais a ajudaram a clarificar a sua própria experiência. Cada um faz os seus próprios sublinhados nos livros que lê. O nosso próprio e direto encontro com a realidade é que será sempre o último juiz da verdade. Não precisamos de um guia para caminhar, nós mesmos já somos a luz que ilumina o caminho.

A busca por certeza e segurança, pela tradição e os mestres corretos, é um empreendimento inútil. A mente tem horror ao mistério e à incerteza. Mas qual a necessidade de certezas e garantias, de possuir a filosofia verdadeira, de seguir a tradição correta? Alguma doutrina, algum guru ou tradição poderá satisfazer esta exigência tirânica? Todos os homens verdadeiramente sábios reconheceram a impossibilidade de as palavras poderem expressar adequadamente a verdade. A realidade será sempre infinitamente mais vasta do que quaisquer palavras que nós usemos para a representar ou comunicar. 

Seja qual for a declaração que se faça, podemos sempre encontrar um sentido em que é verdadeira e outro em que é falsa. Tudo depende da nossa perspetiva, contexto psicológico, e do significado que atribuímos às palavras. Qualquer coisa que o pensamento construa, o pensamento pode destruir. Ao nível verbal e intelectual podemos sempre encontrar inconsistências e contradições nos escritos dos grandes mestres do Zen e Advaita, quer sejam antigos ou modernos. Mas para quem vislumbrou, além das palavras, a realidade para que elas apontam, aquelas declarações aparentemente contraditórias revestem-se de tremenda coerência e significado.

O que o Buda procurou foi um remédio e não uma filosofia. O Advaita, tal como o Zen-Budismo ou o Dzogchen não tem finalidades especulativas mas sim pragmáticas. Não é um  estudo a ser elaborado, é uma prática a ser vivida. Nada acrescenta ao nosso acervo intelectual, modifica a nossa experiência no encontro com a vida. É muito mais um processo de esvaziamento do que de aquisição. Através da eliminação de juízos erróneos, distorções e falsos conceitos, leva-nos a uma intuição direta da natureza da realidade e do próprio Ser. Se algum tipo de conhecimento produz, é o mesmo que recomendava Sócrates, o filósofo da antiga Grécia: “Conhece-te a ti mesmo!”

A verdade não pode ser reivindicada por nenhuma espécie de clube privado, filosofia ou tradição. Esse tipo de discussão poderá atrair o académico e o intelectual, mas é completamente desinteressante para o buscador sincero da verdade. Este sabe que a verdade não é posse de nenhum guru, doutrina ou tradição em particular. Não tem um pouso fixo ou morada certa onde possamos ir bater para a encontrar. A verdade vem-nos às vezes sob a forma de um romance, outras vezes de um poema; tanto pode ser encontrada nas páginas de um livro sagrado como nos graffiti das paredes subterrâneas do metro. Ás vezes escutamo-la nas palavras de um profeta, outras vezes nas perguntas de uma criança. Se estamos realmente despertos podemos reconhecê-la nos sussurros da noite e no murmúrio do vento.

Ninguém possui a verdade, ninguém está na mentira. Há pontos de vista, não verdades absolutas. Fica com aquilo que mais ressoar com a tua própria experiência. Confia na tua própria percepção da realidade. Permanece aberto ao mistério e ao desconhecido. E quando a serenidade do teu espírito for abalada pelas sombras da dúvida e da incerteza, talvez possas reencontrar alguma paz se recordares estes versos de Fernando Pessoa:
"A terra é feita de Céu
A mentira não tem ninho
Nunca ninguém se perdeu
Tudo é Verdade e Caminho."

sexta-feira, 2 de maio de 2014

JÁ ÉS AQUILO QUE PROCURAS



“A verdade ou a realidade não pode ser armazenada, não pode ser retida -  não é acumulável. O valor de qualquer intuição, compreensão ou realização só pode estar na eternamente fresca presença do momento. A realização de ontem agora está morta,  já perdeu a sua vitalidade. É inútil procurar suster-se ou aferrar-se  a algum insight, compreensão ou realização, porque só no seu movimento existe a possibilidade de que surjam sempre novas e frescas intuições sobre a verdade ou a realidade. A ideia da iluminação ou auto-realização como um único evento, ou como um estado ou experiência permanente ou duradoura, é uma concepção errónea”.    - Sailor Bob Adamson
                                          
O dilema e a tragédia de quase todos os buscadores é que, depois de terem um "insight" revelador, uma experiência de "despertar", ficam eternamente presos na armadilha de a procurar reproduzir ou capturar ou nela permanecer. O segredo está em não te aferrares a nada, nem mesmo a qualquer experiência de despertar. Abandona a tua memória de experiências, estados e realizações. São apenas cinzas mortas sem qualquer vida ou substância. A memória é apenas distração. A verdade é sempre viva e vibrante. Este momento nunca aconteceu. Nunca nada se repete.  "Jamais voltes ao lugar onde foste feliz!", diz a canção, "...Nada do que por lá vires será como no passado. Não queiras reacender um lume já apagado!"

Não te aferres a quaisquer palavras ou conceitos, a nenhum estado, experiência ou conhecimento, porque ao fazê-lo acabas inevitavelmente por ofuscar a consciência onde todos esses elementos de forma espontânea emergem. Um espelho não retém as imagens que reflete. Não queiras guardar lembranças através de palavras mortas. Só podes guardar conceitos, não a verdade. Poderás registar as palavras que brotam da claridade, mas elas jamais poderão substituir aquela claridade que as fez emergir. O homem pensante não pode substituir o homem vivente. O pensamento não pode substituir a consciência. O intelecto não pode captar a vida. É a vida que integra o  intelecto 

A "coisa" como aparece no pensamento, como é invocada na memória, nada tem a ver com a experiência real, anterior e independente dessa invocação. Aquele que recorda a experiência não é o que a viveu e experimentou. São duas dimensões e duas realidades completamente diferentes e que se excluem mutuamente. Quando estás completamente imerso numa melodia não pensas que a estás a ouvir. Porque o pensamento funciona como distração. É como um véu que se interpõe entre ti e a vivência direta da realidade. Quando tenho um orgasmo não penso nele, experimento-o! Só penso nele quando já terminou. Uma criança não pensa na felicidade, ela simplesmente é feliz. A "ideia da coisa" nada tem a ver com a "vivência da coisa" sem ideia. A ideia é colorida pela memória psicológica da dor e do prazer, o mecanismo de rejeição e apego, aversão e desejo. Todo este processo é alheio ao sabor da experiência original. Por isso Shunryu Suzuki, o mestre Zen, declarou: "Tão pronto como vês algo e começas a intelectualizá-lo, aquilo que intelectualizas já não é o que viste!" Claro que não é o que viste! A mente não pode ver nada. O intelecto lida com símbolos e palavras e não com a realidade. O pensamento é apenas um subproduto, uma pálida sombra da percepção, jamais a poderá substituir. A mente envolve-te num mundo ilusório de conflitos, lutas e esforços completamente desnecessários.

Podes invocar a memória de um estado, uma experiência ou um "insight" com a intenção de o reviveres, de o ressuscitares, ou de obteres uma fórmula que o torne permanente. Mas repara: quando originalmente essa experiência aconteceu, foi ela resultado de alguma atividade volitiva da tua parte? Ela sucedeu na sequência de algum esforço deliberado tendo em vista produzi-la? Estava presente a memória de alguma experiência que se procurava ressuscitar? Foi produto ou consecução de algum desejo? Havia alguma intenção de alcançar algo? Algum agente ou algum processo envolvido? Não, pois não? Ela surgiu de forma totalmente inesperada, não foi? Aconteceu por si mesma, de forma espontânea, sem qualquer intervenção consciente da tua parte. A verdade é que tu (a atividade do cálculo, do pensamento, do esforço, da volição e do desejo) não estavas aí quando isso sucedeu. A tua pessoa como agente nunca foi necessária. Tu estavas completamente ausente. Então porque queres agora ser um interveniente no processo? Porque te queres tornar parte da equação? Não é essa atitude completamente ilógica e insana? Além disso, para quê despender esforço e energia em busca de uma experiência que pela sua própria natureza é efémera e passageira?

Andas em busca de Deus? Da felicidade? Da iluminação? De alguma suprema realização ou compreensão? Esquece tudo isso. As palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação entre ti e a realidade. São estes conceitos que te impedem de ver que tu já és aquilo que procuras. Tudo está já presente. Nada da tua parte é requerido. Tudo é uma dádiva gratuita da consciência. Não podemos entrar no reino da felicidade, levando connosco a ganância, a cobiça e o desejo. Esse reino só permite a entrada a quem se apresenta completamente despido no coração e no espírito. Neste caso a nossa vontade de posse e domínio só pode resultar na morte da galinha dos ovos de ouro. Erramos e perdemos ao procurar conhecer e conquistar. Jamais poderás ter a receita da felicidade, porque no reino da felicidade não entra aquele que tem uma receita que procura aplicar. A felicidade é uma dádiva gratuita àquele que dela não se quer apropriar. Poderás usufruir, mas jamais arrecadar.

Tu não existes como um agente autónomo e independente, separado do mistério e da graça divina. És a manifestação perfeita e inseparável desse mistério e dessa graça. És consciência clara, luz imaculada, eternamente presente e imutável. E Isso é algo que tu jamais poderás perder, jamais podes esquecer. Qualquer distância entre ti e Isso é  apenas imaginária, não passa de uma ilusão. Porque Isso é o que tu és. E não podes afastar-te de ti próprio. Jamais podes deixar de ser Isso que tu és. És sempre essa presença consciente, vazia e transparente que torna possível todo o ver e experimentar. Quando julgas que a perdeste ou esqueceste, só podes ter perdido ou esquecido algum conceito, algum estado, memória ou experiência que com ela identificaste. Mas foi apenas um equivoco. O que tu és jamais pode ser perdido ou esquecido. Porque só na presença disto, desta luz imóvel e imutável, é que podem suceder  e desfilar todos os estados transitórios, todas as experiências passageiras, toda a claridade e confusão, todo o lembrar e esquecer. Tu és essa luz! Sempre foste essa luz! Nunca poderás ser outra coisa que não seja essa luz. O que deves valorizar não são as coisas que a consciência percebe mas sim a consciência que percebe as coisas.

Ver isto não é uma questão de aperfeiçoar os conceitos, de encontrar as palavras adequadas, de formular definições mais perfeitas e rigorosas. O que acontece é que isto não pode ser captado mediante nenhum conceito, nenhum raciocínio, nenhum processo especulativo ou intelectual. Nenhuma ideia poderá jamais substituir o espírito capaz de a conceber.  Deixa de confiar na mente. A mente nada te pode mostrar. Ela apenas te ilude e confunde. Tens apenas de olhar, ver! Não tens de pensar! Ver, experimentar, sentir, escutar... antecede todo o pensar e raciocinar. Por mais fiel que seja a reprodução de um lago numa pintura, jamais nela  te poderás banhar. Não podes saciar a sede com a imagem de um copo de água. Trata-se de abandonar completamente toda a conceptualização e simplesmente olhar a realidade que está presente além dos nomes e palavras. É o simples acto intuitivo de apreensão daquilo que está presente na experiência imediata e não requer qualquer raciocínio, esforço ou elaboração. Daquilo que está ao dispor de qualquer criança, qualquer analfabeto, qualquer animal. É tão simples e tão óbvio que nos passa completamente despercebido. É como se alguém andasse desesperadamente à procura dos óculos que tem colocados sobre o nariz e que são precisamente o que lhe permite ver e procurar.

Lamentavelmente a própria tentativa de procurar comunicar isto por palavras pode, involuntariamente,  pôr em marcha o mecanismo que é necessário suspender para que isto possa ser visto. Porque o acto de percepção direta e imediata da realidade acontece num nível diferente daquele que permite a tradução e interpretação verbal da experiência. É por isso que, às vezes, uma criança ou um homem sem instrução talvez  estejam em melhores condições de o apreender. Um homem que não aprendeu a ler poderá não entender a ementa dum restaurante, mas não verá diminuída a sua capacidade de se alimentar. No entanto nem a mais completa e exaustiva das ementas poderá impedir que ele morra à fome se nada tiver que comer. As coisas não são as palavras que inventamos para as nomear. O símbolo não é a realidade, a palavra não é a coisa. O ver e experimentar não é função do pensamento ou da atividade conceptual. Esta atividade tem que ser posta de lado para que o ver tenha lugar.

Estamos a apontar para aquilo que é o indicador mais primordial, óbvio, claro e evidente da nossa existência: a presença indubitável da consciência. Nada mais do que isto. Nós somos esta consciência. Ela é tudo o que sempre julgámos que precisávamos de buscar sem nos apercebermos que nunca dela estivemos separados. Só ela representa a realidade última e primeira pois é a condição que precede todo o fenómeno e experiência. Como poderias pensar, sentir ou perceber seja o que for, sem que primeiro esteja presente a consciência que te permite pensar os pensamentos, sentir os sentimentos, perceber e experimentar tudo aquilo que percebes e experimentas?

Aquilo que sempre buscaste é na verdade a única coisa que sempre tiveste!... Porque é aquilo que tu és, aquilo que sempre foste e jamais deixarás de ser! Nunca serás nada menos e nada mais do que consciência. É só isto o que tens de reconhecer. Nada mais precisas compreender ou alcançar. Tudo o mais não passa de histórias e invenções da mente sem qualquer utilidade ou fundamento. Essas histórias não te podem ajudar, não te podem completar, nada te podem trazer ou acrescentar. Elas apenas te podem distrair do essencial. Tu já és completo, sempre foste, nada precisas buscar. A consciência que tu és, é tudo o que precisas ser. É dela que se origina tudo aquilo que buscas e desejas, tudo o que alguma vez poderás almejar, sentir, viver, experimentar. Não precisas de um mapa para caminhar. Tu próprio já és a luz que ilumina o caminho.

terça-feira, 29 de abril de 2014

NADA QUE CONSERTAR OU ENTENDER

A maioria das publicações sobre a não-dualidade consiste na transcrição de diálogos e exposições orais que emergem de forma espontânea em palestras, encontros (Satsang) ou outras situações. Geralmente são respeitantes à superação de uma qualquer dificuldade ou obstáculo apresentado por um buscador em particular. As palavras e conceitos que então se utilizam não devem ser erigidos em verdades absolutas com as quais qualquer outra exposição verbal deverá concordar. As palavras e conceitos terão sempre um valor meramente relativo e contextual. Não existe qualquer conhecimento, doutrina ou conclusão definitiva que elas procurem transmitir. A sua finalidade é pragmática. São apenas um instrumento provisório que poderá ser útil para superar uma dificuldade ou esclarecer uma situação em particular. O que se procura é desmascarar o auto-engano, provocar um  despertar ou tomada de consciência das múltiplas formas em que a mente nos procura iludir. 

Na jornada de auto-conhecimento e libertação, todas as palavras, todos os conceitos e declarações verbais só poderão ter como destino final o seu próprio abandono e superação. A sua função é meramente instrumental. São como aquelas toalhas de limpeza descartáveis que se jogam no lixo depois de terem cumprido a sua função. A tua própria compreensão da verdade não tem de ser de acordo com as palavras de qualquer mestre, professor, doutrina ou tradição. A verdade e a compreensão não provêm do esforço por decifrar qualquer dessas declarações, por maior que seja a autoridade ou veneração que concedas ao seu autor.  As palavras só são significativas quando brotam do contacto direto com a realidade, isto é, quando são expressão do teu próprio entendimento, do teu próprio sentir e experimentar. Se a tua vida não está de acordo com um livro, é o livro que deves queimar e não a tua vida, pois a tua vida é que é real. A teoria não pode substituir a experiência que é a fonte de toda a teoria. Não é a verdade que provém das palavras, as palavras é que devem ser submetidas ao julgamento da verdade. Daí a sentença de um antigo filósofo grego: "Indaga as palavras a partir das coisas e não as coisas a partir das palavras!".  

Quando o teu desejo por certeza e segurança te leva ao apego a crenças, símbolos e palavras, confundes os conceitos com a realidade. Então passas a exigir que a realidade se ajuste às tuas palavras em vez de ajustares estas à realidade. Entregas-te à construção de um castelo conceptual que te garanta a segurança e certeza de estares na posse da verdade. Mas tal exigência jamais poderá ser satisfeita e constantemente te verás na necessidade de o defender contra o assalto de dúvidas e contradições. Porque as palavras e conceitos não passam de ferramentas limitadas e imperfeitas para representar a realidade. Quando julgas que a compreensão e a verdade poderá provir dos símbolos e do pensamento conceptual, estás a exigir dos conceitos e palavras algo que  estas jamais te poderão dar. O estudo de um mapa não pode substituir a experiência real de pisar um território.

As palavras que se revelaram esclarecedoras num determinado contexto, poderão ser completamente disfuncionais num contexto diferente. Além disso como podemos ter a certeza de atribuir às palavras de alguém o mesmo significado que ele lhes atribui? Quanto mais enigmáticas e estranhas te parecerem as expressões que julgas ter de entender, mais te irás esforçar no sentido de as decifrar. Mas quanto mais intensa for esta atividade, maior a confusão em que te verás enredado. Porque não podes captar a essência de uma comunicação de forma abstrata e descontextualizada. Essa ruminação apenas te irá afastar daquilo que é verdadeiramente essencial: permanecer centrado nessa límpida e clara presença consciente onde tudo se origina e a que nada pode ser acrescentado ou subtraído. Tu já és essa presença consciente, sempre perfeita, eternamente brilhante e completa. Nada precisas buscar ou entender e nada precisas consertar ou melhorar. Essa consciência que tu és é tudo o que tens de recordar.

Encontras-te envolvido numa batalha interior procurando conciliar palavras e conceitos? A desatar nós e clarificar significados? A deslindar aparentes paradoxos e contradições? Estás a confundir o mapa com o território. A desperdiçar energia num conflito supérfluo e inútil que em nada te poderá beneficiar. O salto para fora da mente não pode acontecer procurando satisfazer as suas intermináveis pretensões e exigências. Tudo o que o pensamento constrói, o pensamento pode destruir. A mente está sempre ocupada em destruir as suas próprias construções, sempre encontra mais uma pergunta para colocar, mais um problema para resolver. Desse jogo depende a sua própria sobrevivência. E entretanto a tua atenção deixa de estar focada no mundo da realidade e és arrastado para um mundo virtual e ilusório, meramente conceptual. É como se estivesses a assistir a um Western na TV e te atirasses para debaixo da mesa em busca de proteção dos tiros que acontecem no ecrã, ou te levantasses freneticamente em busca do impermeável e do guarda-chuva quando apenas assistias ao filme "Singing in the rain". A realidade está além da mente, dos seus jogos e dilemas e da sua interminável busca por respostas.

Para qualquer afirmação podemos sempre encontrar um sentido em que é verdadeira e outro em que é falsa, um ponto de vista que a sustenta e outro que a refuta, uma perspetiva que a confirma e outra que a rejeita. A mente alimenta-se deste inevitável dilema verbal. Irá sempre encontrar um novo problema para cada solução. Mas os paradoxos, os problemas e contradições só acontecem ao nível conceptual, dizem apenas respeito a símbolos e palavras, não afetam a realidade. O conflito nunca é entre verdades mas entre representações. Os problemas, dúvidas e confusões são sempre respeitantes ao mapa, nunca ao território. A realidade nunca é paradoxal ou contraditória em si mesma. A realidade é o que é, independentemente das palavras que a pretendam descrever ou traduzir. Nenhuma confirmação lhe pode dar maior solidez e nenhuma refutação a pode beliscar. Um juízo falso pode ser desmontado no confronto com a realidade, mas a realidade jamais poderá ser determinada por qualquer juízo a seu respeito. Tu não tens que desperdiçar a tua energia a resolver problemas que apenas existem para uma entidade fictícia num mundo virtual. Nada de fundamental se perde pelo facto de renunciares à luta e ao esforço para apreenderes palavras e conceitos. Tens apenas de despertar para a realidade imediata e presente que se encontra aqui, agora, e é independente de formulação verbal. O que é real é sempre claro e evidente e nunca é problemático nem contraditório porque não é um conceito mental.

De acordo com as palavras de Gensha, um mestre Zen : "Se tu compreendes, as coisas são como elas são; se tu não compreendes, as coisas são como elas são!". Ou como dizia Ma-Tsu, outro celebre mestre zen: "A mente que não compreende é o Buda, não existe outra!". Isto significa que a natureza essencial da consciência que tu és, não pode ser afetada por qualquer dúvida, confusão ou incerteza. Ela não é susceptível de qualquer aperfeiçoamento ou modificação. Não depende que tu o vejas ou o compreendas. É sempre perfeita, completa e luminosa. Temos apenas de confiar nela. Ela se encarregará de responder de forma adequada e criativa a todos os desafios que a vida nos apresenta. O segredo da conexão com a misteriosa inteligência que rege o  universo tem muito mais a ver com aceitação e confiança do que com luta e resistência.

As palavras e conceitos geram uma separação ilusória.  Elas enganam-te e iludem-te. Então julgas ter que buscar aquilo que sempre tiveste. É como se fosses um peixe às voltas no oceano em busca da água. Tu não estás separado do que julgas andar em busca. O teu ser é uno e não dual. Tu próprio já és a verdade que sempre perseguiste. Nada precisa ser modificado ou melhorado, nenhuma pergunta respondida, nenhum problema precisas resolver. Não tens que lutar contra a confusão ou esforçar-te por buscar clareza. Aquilo que é verdadeiro e essencial não é uma realização a alcançar porque nunca foi perdido.

O discurso do sábio não pretende satisfazer o teu desejo de segurança e de saber, mas antes aniquilá-lo completamente. A busca e o esforço são sempre inúteis pois não existe a entidade que deles possa beneficiar. Não existe nenhum pensador que subsista quando o pensamento termina. Nada existe de estável no aparente individuo separado. Toda a atividade egocêntrica em busca de respostas, todo o apego e acumulação, todo o avanço e retrocesso em torno desta figura imaginária, tem a mesma utilidade e solidez de um livro escrito nas águas passageiras de um rio. É como vapor que se dispersa e desaparece. Por isso a busca é inútil e jamais pode ser satisfeita. Porque o ego que ela pretende preencher é totalmente ilusório. Despertar da busca significa simplesmente perceber que o buscador nunca teve existência real. Nunca teve maior consistência que um pensamento.

Não convertas estas palavras num outro problema com que te debater. Quem seria a entidade a lutar para o resolver? Não existe o individuo que supostamente iria beneficiar dessa atividade. Repara como o pensamento se encontra às voltas numa luta consigo próprio. Tal luta significa apenas que acreditas na existência de alguém (tu) que a pode travar e que através dela poderá evoluir ou crescer. É essa entidade que tem uma existência meramente fictícia, fantasmagórica. Não tem qualquer estabilidade ou permanência, nenhuma substância ou realidade. Todas as construções do pensamento têm a mesma consistência de figuras desenhadas na areia à beira-mar. São como nuvens dispersas pelo vento. 

Permanece céptico e vigilante em relação ao canto de sereia da mente. Ela constantemente irá procurar atrair a tua atenção e envolver-te na resolução de problemas imaginários para uma entidade imaginária. Não tens que levar a sério as suas invenções. Tudo não passa de uma criação do pensamento. Evita sucumbir à sua sedução. Não permitas que a tua atenção seja absorvida pelos jogos da mente, pelos seus dilemas e sugestões. Permanece ancorado naquela realidade que não é produto da fábrica mental. Dirige a atenção para as sensações presentes no corpo. Através da consciência corporal podes sempre conectar-te com a realidade presente aqui e agora. Escuta o bater do coração, observa o teu próprio respirar, percebe os estímulos sensoriais do ambiente. Não permitas que o riso das crianças e o canto dos pássaros te passem despercebidos. Que a tua atenção seja como o ar que invade uma habitação: que nenhum recanto por mais escondido, que nenhum espaço por mais afastado deixe de por ela ser preenchido. Sente a carícia do sol, a brisa do vento e o chão que pisas ao caminhar. Isto liberta o foco da prisão da mente e traz a atenção para aquilo que é real e presente. Coloca-te sempre num plano superior ao burburinho da mente. A mente é atraída pelas suas próprias construções, mas a consciência observa a própria mente. Cria alguma distância. Não te identifiques. Sê um observador de ti próprio. Nada disto és tu. Nada disto te pertence. És uma ausência plenamente presente.

Questiona a mente, os seus produtos e atividades, por mais atraentes e irresistíveis que eles te possam parecer. Podes sempre abandonar os problemas que ela insiste em te colocar, renunciar às batalhas em que ela te quer envolver. Pergunta a ti mesmo se realmente necessitas da segurança que ela te promete oferecer. Decide-te simplesmente a prescindir das soluções que o pensamento constantemente está ocupado a procurar. Poderás descobrir que nunca precisaste delas, que a mente apenas te pretende enganar. Somente aquilo que permanece na ausência da mente, aquilo que resiste ao teste do silêncio, é que é real.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"MUSHIN" - CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTADO DE "NÃO-MENTE"



De uma forma mais ou menos consciente, os esforços do buscador quase sempre são direcionados ao aperfeiçoamento do conteúdo da mente, à busca da filosofia e das respostas mais rigorosas e perfeitas, à elaboração da suprema norma de conduta, algum principio orientador, alguma fórmula, algo que possa adquirir e usar. A plena maturidade vem com a compreensão de que qualquer apego ou aquisição se converte num estorvo. Qualquer bagagem ou acumulação limita a liberdade e turva a consciência como a sombra escura que limita o circulo brilhante da lua. Maturidade é compreender que a realização suprema não é algo que se possa alcançar ou adquirir, mas antes um estado original que importa reconhecer e em que podemos confiar. O importante não é o conteúdo perfeito mas antes o vazio perfeito. "A melhor coisa não é melhor do que nada!", diz um provérbio Zen.

Os mestres Taoistas e Zen-Budistas descrevem muitas vezes o estado natural como um estado de "Não-Mente" (MuShin em japonês). É um conceito poderoso pela sua radicalidade e poder descritivo. Refere-se a um estado de pura percepção, isenta de verbalização ou pensamento. É o simples estado natural de total disponibilidade, abertura e "não-saber". Nenhuma segurança, nenhuma doutrina, nenhuma crença,  nada em que se apoiar. O encontro com os fenómenos e acontecimentos é totalmente vulnerável e inocente, porque liberto de qualquer mediação pelos mecanismos de tradução da experiência. Ausência da mente significa a ausência do ego, do agente, do pensamento volitivo. É o silenciar das reações dum "eu" separado, daquele comentador de fundo constituído de expectativas, julgamentos, desejos, esperanças e temores; o fim do cálculo em torno da aprovação ou rejeição social; o calar dessa voz que persiste em nos dizer como poderíamos ter agido melhor no passado ou como deveremos agir no futuro.

A iluminação ou o despertar não tem que ver com alguma classe de eventos ou estados particulares. A iluminação não diz respeito à situação em que te encontras, à forma como te sentes ou te comportas. Não existe uma categoria correta de estados iluminados em oposição àqueles que excluem a iluminação. O que desaparece é a divisão interior, a divisão entre um "eu" que vive e um "eu" que ensina a viver. Deixa de estar presente o comentarista ou censor que julga, avalia ou compara. Existe apenas um fluir natural e espontâneo, um sentir, viver e agir puro e simples. Não mais existe a entidade fictícia que se separa da experiência para a julgar, condenar ou justificar, aquela voz que sabe e idealiza e que sempre olha para aquilo que é através de uma ideia de como deveria ser. Cessa a aparente atividade de um "eu" imaginário, de um agente ilusório a pretender controlar, modificar ou manipular a experiência.

Importa compreender que não se trata da aquisição de qualquer tipo de perfeição, sabedoria ou virtude. É um estado totalmente isento de conteúdo, puro vazio. A denominação "Não-Mente" procura precisamente evitar  o conflito da dualidade e da luta entre os opostos. É o fim do conflito entre a aceitação e a recusa, da luta entre o que é e o que deveria ser. Cessa toda a possibilidade de rejeição e escolha, toda a  comparação entre o que penso que sou e aquilo em que me deveria converter. É o fim da "auto-consciência" com as suas atividades calculistas e protetoras em torno de uma imagem, de uma figura imaginária.

O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.

O conhecimento conceptual implica sempre separação e dualidade. O conhecimento é como um dedo que aponta para fora, originando o experimentador separado da experiência, o sujeito separado do objeto, o agente separado da ação. Esta divisão artificial termina quando há perfeita quietude mental, perfeito silêncio. Neste estado de quietude não existe qualquer pensamento ou entidade para verbalizar ou conhecer o estado de consciência experimentado. O estado de "Não-Mente" não é algo que se possa obter ou conhecer, mas apenas ser e vivenciar. Daí que sempre se nos faça a advertência de que as palavras são como setas indicadoras. Elas podem apontar uma direção, mas terão de ser abandonadas ao entrarmos no caminho apontado. Uma metáfora budista diz-nos que, uma vez alcançada a outra margem de um rio, não carregamos às costas o barco que nos serviu na travessia. As palavras são como uma porta ou uma ponte que é deixada para trás uma vez atravessada. Elas não nos podem acompanhar no salto que nos estabelece na pura realidade. A realidade é anterior a todas as palavras. O oceano da verdade é como um poço de ácido corrosivo em que somos completamente dissolvidos ao nele mergulharmos. Nós desaparecemos e resta apenas a realidade. Apenas este fluir interminável sem causa nem propósito a que chamamos viver... e uma alegria transbordante a impregnar o ser e o experimentar.

O estado de "Não-Mente" não pode ser uma ideia a aplicar ou objetivo a atingir. Se eu tiver uma concepção mental do estado de "Não-Mente" (o que seria uma contradição nos termos), então a minha experiência será avaliada de acordo com tal concepção. Esta atividade faz ainda parte das maquinações ilusórias do ego. Na ausência da mente cessa toda a avaliação e escolha. O "eu" simplesmente se dissolve numa fusão total com o ritmo do próprio Cosmos. É um estado de total imobilidade atemporal, de plena comunhão com aquilo que é, com  o que está. A atenção não mais se deixa capturar por algum momento fixo no tempo, mas permite-se fluir harmoniosamente com a perpétua e célere transformação da realidade emergente. Não significa que tu te tornaste inteligente, apenas deixaste de ser um obstáculo no caminho da inteligência.

O estado de "Não-Mente" não pode ser reconhecido, uma vez que está ausente o mecanismo que permite comparar, avaliar ou reconhecer. É por isso que toda a atividade e esforço em torno do auto-aperfeiçoamento, toda a luta procurando aniquilar o ego ou obter a "iluminação", não passa de um inútil desperdício de energia. É tão fútil como a atividade do cão ás voltas sobre si mesmo procurando agarrar a própria cauda, ou da criança que tenta ultrapassar a própria sombra. O silêncio jamais poderá coexistir com a entidade que o procura alcançar, porque o silêncio aniquila completamente aquele que deseja obter o silêncio. Só quando te retiras da frente de um espelho é que ele deixa de refletir a tua imagem, mas então tu já não te encontras aí para confirmar essa ausência!

O que temos de compreender é qual o vento, qual a água que ao banhar a mente a liberta de todo o passado e condicionamento. Por certo que não poderá ser nada vindo da própria mente, da memória ou da especulação intelectual. Não se pode pensar no "estado sem pensamento". Há uma realidade que só toma forma no imediato plano existencial, uma dimensão que o pensamento não pode antecipar nem recordar nem conhecer. A mente jamais poderá invocar a sua própria ausência, é isto que importa compreender. Aquilo que é manifesto no silêncio, só o silêncio pode experimentar. A atividade do pensamento é como um jogo circular de que ele próprio se alimenta. Mas há uma presença inefável que o pensamento jamais poderá tocar. Esta presença não é um atributo mas sim o próprio Ser. É aquilo que somos e não algo que possuímos.

É por isso que o estado de "Não-Mente", a libertação, não pode ser um processo gradual. O tempo só existe na mente e a mente não pode ser o instrumento que te leva além da mente. A mente jamais poderá cooperar com a sua própria destruição. A saída deste circulo opressivo só pode ser uma resolução instantânea, um salto para além da mente. Este salto não requer nenhum "fazer", nenhum requisito é necessário cumprir. Consiste muito mais numa renuncia, numa negação, num não agir, não fazer, não interferir (o "Wu Wei" do taoismo chinês), do que nalgum fazer, agir ou atuar positivamente. A intenção e a vontade representam o obstáculo e não o meio.

É por ser uma coisa tão fácil e tão simples que ela parece difícil ou complicada. No entanto, uma vez mais, a dificuldade ou complicação só existe para a mente. Mas a mente não desempenha aqui qualquer papel. A mente, o ego, o pensamento, jamais poderá contactar ou experimentar a sua própria ausência. Isto é que tem de ser compreendido. Aquele estado torna-se presente quando a mente renuncia a todas as suas atividades, motivos e desejos. Sendo o nosso estado natural, ele não pode ser gerado através de esforço nem precisa ser criado por qualquer atividade da nossa parte. Porque é um estado preexistente a todas as nossas atividades. Não requer sequer ser conhecido ou verbalizado. Procurar conhecê-lo ou obtê-lo, é tão absurdo como um peixe andar em busca da água onde nada. É este o significado profundo do termo "Graça", algo que é  gratuito, livre de causa, que não é nenhum resultado ou objetivo. Acaso a vontade de um recém-nascido poderá ser a causa do seu ser e existir? É ele o autor do seu próprio respirar e sentir? É o nosso esforço e a nossa vontade que faz o coração bater e o sangue circular?... O que a natureza requer de nós é confiança e não resistência!

O risco que se corre ao fazer estas exposições verbais, é o de elas poderem involuntariamente intensificar a própria atividade que se pretende cessar. As palavras fazem parecer complicado aquilo que é naturalmente simples. Estas palavras não devem ser convertidas numa ideia a reter e aplicar. As palavras são meramente a expressão de uma realidade que está antes delas. Devem ser vistas como uma grosseira tentativa de descrição e não como uma prescrição. A claridade e lucidez não depende de palavras, símbolos ou expressão. Nada disto deve ser convertido num esforço de compreensão ou num problema a resolver. Compreender a realidade não é compreender as palavras que a procuram descrever. Nenhuma descrição é adequada, porque nenhuma descrição pode substituir o sabor da realidade. O mapa não é o território. Se entrares num restaurante chinês, poderás não compreender a ementa, mas isso não te impede de usufruir plenamente da refeição. Aquilo que é real e verdadeiro não depende de conhecimento ou verbalização. A ordem da realidade não depende da ordem das palavras. Podemos falhar todas as questões dum exame de anatomia, mas entretanto o nosso metabolismo não deixará de funcionar perfeitamente. Como diz o provérbio Zen, "Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são".  Nunca precisámos de aprender a crescer, a digerir ou a respirar. Ser e viver está além do conhecer e compreender. Uma ideia jamais poderá substituir o espírito capaz de a conceber. O conhecimento é um subproduto, um resultado. O importante é aquilo que lhe é anterior e lhe está na origem: o estado de aprender e experimentar. E este é um estado de vazio e receptividade que só se manifesta plenamente quando não há qualquer esforço nem apego, nem luta por controlar ou alcançar.

Não há solução para este dilema senão o reconhecimento da nossa impotência. A renuncia a toda a volição e esforço. Abandonar completamente todos os problemas e voltar a atenção para a realidade imediata e presente, para este fluir ininterrupto e espontâneo que a todo o momento se desenrola de forma completamente livre e alheia a quaisquer que sejam os nossos motivos, desejos ou lucubrações. "Esquecer tudo é o meio supremo", diz a sabedoria Zen. Abandona todos os teus esforços e pretensões, estabelece-te na paz e quietude do silêncio interior, e aquilo que então restar, isso é que é real.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Regressar à Própria Experiência


 "Se é de conhecimento ou de sabedoria que andamos à procura, o melhor será irmos procurar diretamente à fonte. E esta não é o erudito ou o filósofo, não é o mestre, o santo ou o professor, mas a própria vida - a experiência direta de vida.".
                                                                                Henry Miller, Os Livros da Minha Vida

Sendo a natureza humana a mesma que todos partilhamos, quem desvenda os seus segredos tem que forçosamente confluir para a mesma realidade e fazer as mesmas descobertas essenciais. Por isso é um erro achar que todas essas diferentes tradições, métodos, caminhos, religiões,...  podem apresentar propostas fundamentalmente diferentes se realmente pretendem despertar e libertar o ser humano. Às vezes apenas confundem e atrapalham quem procura ajuda e esclarecimento. Se realmente é o mesmo ser humano que se procura mapear e libertar, que diferença pode haver nas verdades apontadas?! No entanto, frequentemente essas diferentes propostas apresentam-se como se cada uma delas tivesse a posse exclusiva das chaves do paraíso! Tantos pretensos mestres, tantos diferentes métodos e caminhos, tantas diferentes linhagens e tradições!!... Talvez que esta infindável peregrinação por livros e mestres, seja apenas um adiamento do único caminho que conduz ao esclarecimento e à verdade: decidir-se a estudar e investigar no laboratório sempre disponível da própria mente e do próprio coração!

A que se referem esses mestres, esses seres despertos e iluminados? Referem-se a algo implícito na minha vida? Ao meu ser autêntico e original? Algo intrínseco à minha própria natureza? Se assim é, então não faz sentido buscá-lo uma vez que já é manifesto na minha experiência. Basta-me ser fiel ao meu próprio ser, ser autenticamente eu mesmo. Se assim não for, se é algo alheio à minha vida, algo que tenho que obter, então também não faz sentido buscá-lo, pois é do campo do impermanente. E o que é impermanente não pode ser realizado, pois o que se obtém sempre se perde. É só quando regresso à minha própria experiência, ao ser autenticamente eu próprio, que posso encontrar seja lá o que for que os mestres me possam prometer. Afinal, como declarou Terêncio dois séculos antes de Cristo, "Sou homem! Nada de humano me é estranho!".

Este constante formular de novos problemas, esta necessidade de atualização com os novos livros e professores, este constante buscar e questionar, esta interminável atividade de arranjar pulgas para se coçar,... de onde provém? Não será do impulso tirânico da procura de segurança, garantias e permanência? Mas que entidade poderá beneficiar de toda esta atividade? Quem é este "eu" que deseja o nirvana ou a iluminação? Quem é o individuo que constantemente busca e se interroga e deambula entre diferentes mestres, caminhos e tradições? Terá existência real ou é apenas um produto da imaginação? Para quê insistir em fixar a forma das nuvens, escrever na água ou construir castelos de areia à beira mar?

Hoje muito daquilo que se escreve sobre "espiritualidade" e "não-dualidade" apenas procura esclarecer e solucionar problemas que foram criados precisamente pelas tentativas de expor estas matérias em palavras e conceitos. Uma mente confusa e iludida projeta a sua confusão em tudo aquilo para onde olha. Não é raro que as palavras apenas consigam multiplicar os problemas que procuram resolver. Afinal não serão as palavras que alimentam o pensamento onde se aloja o ego?  Há um conto Zen que ilustra este dilema através da história de um pequeno peixe que era feliz, nadava e brincava no oceano, até ao dia em que ouviu um discurso sobre a água e a sua importância. A partir de então ficou obcecado pelo desejo de descobrir e obter tão precioso elemento!?!  Foi assim que perdeu a sua paz e alegria.

Sempre será um dilema e um paradoxo procurar através das palavras, comunicar e partilhar com os outros uma realidade que as palavras nunca conseguem capturar. Como podemos nós através das palavras transmitir aquilo que só pudemos constatar quando nos livrámos de todas as palavras?! Só quando nos dispomos a aprender por nós próprios, quando não fugimos á nossa própria solidão, é que podemos estabelecer a relação correta com os livros e a leitura. Ramana Maharshi dizia que os livros apenas vieram corroborar aquilo que ele havia experimentado diretamente antes de os ter lido. Krishnamurti afirmava que lhe era insuportável ler "filosofia" e "espiritualidade", apenas valorizava a experiência direta e livre de quaisquer conhecimentos prévios.

Não se trata de criar uma atitude de evitamento e recusa perante os livros e os mestres. O que se trata é de compreender a relação que com eles estabelecemos, a atitude com que deles nos aproximamos, pois esta atitude é que em grande parte irá determinar o que deles iremos receber. É a nossa atitude e os nossos motivos que podem fazer que eles sejam para nós uma fonte de esclarecimento e partilha ou antes de perturbação.

É o espírito  que dá vida às palavras, não são as palavras que dão vida ao espírito. Tu não podes ser informado primeiro para experimentar depois. Pelo contrário, só depois que experimentaste é que poderás compreender as palavras que o informam. "Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido" observou Herman Hesse.

Quando sabes escutar, de tudo podes aprender. Por isso se diz que "quando o discípulo está pronto, o mestre aparece". De outra forma como o poderia reconhecer?... Não é o mestre que produz em ti o despertar. É a tua intenção sincera de abrir a mente e o coração. Em nós mesmos é que descobrimos o essencial, através da investigação direta do nosso próprio viver e experimentar. Só depois é que os livros começam a fazer sentido. Na geografia terrena um mapa pode conduzir-nos a um tesouro, mas na busca de Deus, primeiro teremos que o encontrar, só depois é que podemos compreender os mapas que o indicavam.

A verdade é uma presença e não uma posse. A verdade não me pode ser dada por outrem. O contacto com a realidade é sempre direto e solitário. Dos outros tenho apenas o corpo e as palavras. Servimo-nos das palavras para comunicar. Mas em ultima análise, as palavras serão sempre uma barreira e não um veiculo. As palavras não transportam a realidade. As palavras não são o ser da realidade que é. Nada nos garante que estamos realmente em comunicação e comunhão com o outro. O outro procura comunicar utilizando palavras. Mas as palavras estão sujeitas a interpretação. A interpretação não é a ponte que nos leva à experiência do outro. É uma barreira que nos separa dessa experiência. Nenhum discurso sobre a água pode saciar a tua sede. Tens que levar os teus próprios lábios à fonte. E a experiência do contacto com a água é algo intimo e solitário. Por isso a comunhão só existe quando assumimos de uma forma plena e completa a solidão. Paradoxalmente, só na solidão pode ser encontrada a experiência plena e autêntica do amor unificador. Só na solidão deixamos de ser muitos para passarmos a ser um só. Apenas quem está só é que pode amar!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ação e Ideia





    "Existe o sofrimento, mas ninguém que sofra; as ações são feitas, 
  sem ninguém que as faça; há o caminho, mas ninguém para o
          percorrer; existe o nirvana, mas ninguém que o atinja."   
- ensinamento budista  

"Poderás esperar que a lama estabilize e a água esteja limpa?   Podes permanecer imóvel até que a ação correta surja por si   mesma?"      -Tao Te King de Lao Tse                 

Uma das atividades mais tirânicas da manutenção do ego consiste em converter a experiência em ideias que proporcionem segurança na ação. Qualquer experiência, por mais nobre e autêntica que tenha sido, é atraiçoada quando a cristalizas numa ideia. É egoísmo procurar agir em conformidade com o amor e altruísmo. Se procuras ser consistente com uma ideia de liberdade, não és livre, és escravo. Não podes ser livre se a tua ação decorre da obediência a uma ideia. Na liberdade não há lugar para a obediência ou conformidade; não há ideia a mediar a ação. A liberdade é ausência de ideia. A ação livre é sempre espontânea. A ideia gera dualidade ou separação entre aquilo que és e o que procuras aparentar; entre o que é e o que deveria ser. A ideia é qualquer coisa de alheio àquilo que autenticamente tu és. Apenas a arrogância cultiva a humildade. Só o egoísta procura ser generoso. O homem integro é uno  com a verdade. Ninguém precisa praticar ser o que já é. Um peixe não trata de atuar como um peixe para ser um peixe. Só a prática do que não somos requer esforço consciente.  Por isso alguém afirmou: "As pessoas demasiado ocupadas em fazer o bem não têm tempo para ser boas". Se procuras atuar em conformidade com uma imagem, há uma dissociação e negação daquilo que és. A ação não pode ser total e genuína enquanto houver um agente separado da ação.

O ego pode apropriar-se de qualquer exposição verbal ou simbólica, por mais  rigorosa, perfeita ou bem concebida. Na sua infinita capacidade de metamorfose pode tomar a forma até do suposto ensinamento que o pretende eliminar. Porque essencialmente o ego alimenta-se de conceptualização e pensamento. É por isso que devemos abandonar o barco que nos conduziu à outra margem. Por mais sólido e útil que tenha sido durante a travessia, uma vez alcançada a outra margem não faz sentido carregar o barco às costas. Quando caminhamos em terra firme, o barco torna-se um estorvo e uma carga inútil. Que utilidade pode ter um mapa uma vez que já vimos claramente o tesouro? Continuar indefinidamente a interpretar, aperfeiçoar, completar ou idolatrar o mapa, só pode resultar num esforço inútil e num inútil dispêndio de energia. Daí que o Buda tenha declarado: "Nada obtive do despertar pleno e completo, e por isso ele é o despertar pleno e completo".

Sempre que uma compreensão se cristaliza num conceito, numa fórmula, algo com que moldar a experiência, com o qual conformar a ação, então o ego modificou-se para poder subsistir. Se uma revelação, experiência, "insight" ou despertar, por mais elevado que seja, resulta numa aquisição (norma, regra, crença, doutrina, prática), então o ego ressurge sob uma nova forma. Abandonar uma crença para abraçar outra, ainda que oposta, significa permanecer amarrado na mesma ilusão. A libertação só é real quando aquilo que se perde não é substituído, por mais elevada, sublime ou lucrativa que pareça a substituição e por mais sagrado que seja o objeto substituto. "A melhor coisa não é melhor do que nada", diz a sabedoria Zen. A renúncia e desapego tem que ser absoluta e incondicional. Porque a ação criadora se assemelha ao som de um tambor, origina-se do vazio interior.

O apego a regras e fórmulas deriva do nosso desejo de estarmos certos e seguros. Mas por mais forte que seja a atração pela certeza e segurança, este impulso ou desejo é a principal origem e sustento do ego. O ego procura sempre escudar-se atrás de ideias que o protejam do desconhecido e  imprevisível. Daí o esforço constante para conceptualizar e nomear a experiência. Sempre que uma crença é substituída por outra, não importa se falsa ou verdadeira, então o ego encontrou uma nova forma de apoio e sustento. Qualquer crença se converte num exercício auto-opressivo que envolve numa camisa-de-forças a experiência. O importante é o abandono de toda a crença, de todo o desejo de segurança. Trata-se de abraçar a insegurança e a incerteza, ou antes, de não lhes procurar fugir. Permanecer no silêncio e no vazio. Só então é possível contactar uma dimensão que nada tem a ver com as formulações do intelecto e maquinações ilusórias do ego. Só então a ação acontece desde uma percepção lúcida e direta da realidade.

O impulso à segurança é muito forte e subtil e requer vigilância constante. Porque o ego de tudo pode colher alimento, inclusive dos ensinamentos do mais santo, do mais sábio e bem intencionado guru ou profeta. Qualquer descrição, o ego irá procurar converter numa prescrição, quer dizer,  num instrumento de manipulação da experiência. Porque o ego constitui-se essencialmente de resistência e controle. Na presença do ego, qualquer céu se pode converter num inferno. Na sua ausência tudo é invadido pela paz e bem-aventurança.

Observa a forma da tua resposta ao momento presente. Como lhe correspondes? Tomas como pressuposto que existe a forma correta, adequada, perfeita de responder ao desafio? Possuis armazenada ao nível conceptual uma fórmula ou receita que procuras aplicar? A tua ação é dirigida por uma regra, uma  ideia elaborada, uma crença,  ou conceito que armazenaste devido ao teu desejo de perfeição e segurança? A tua ação tem a proteção e mediação de uma ideia, não importando o rigor ou a santidade  da sua proveniência? Ou antes, pelo contrário, te permites apresentar perante o desafio de uma forma completamente desarmada e vulnerável, quer dizer, de uma forma nua, direta, totalmente aberta e desprotegida?

Se a tua busca e aprendizagem resultou numa fórmula e se cristalizou num conceito na base do qual procuras atuar, então permaneces cego à realidade. Porque a realidade deste momento é sempre o desconhecido. "O desconhecido não é o futuro, porém o presente!" como observou Krishnamurti. E o desconhecido não pode ser captado por qualquer conceito. Não pode ser abordado através de uma ideia. Só o podes contactar se a tua mente, os teus conceitos não se interpuserem, se não o procuras enformar dentro das tuas crenças e conhecimentos. O contacto com a realidade estabelece-se através da atenção, não do pensamento. Não podes prestar atenção e pensar em estar atento. O pensamento é distração. Quando estás plenamente atento, és completa observação e silêncio.

O estado natural dispensa conhecimento e verbalização. É como a felicidade, só te apercebes da sua existência depois que a perdeste. Quando eras uma criança pequena nada sabias da felicidade. Eras feliz sem o saber e sem o nomear. É por isso que, em última instância, os ensinamentos dos homens sábios são como uma porta que é deixada para trás uma vez atravessada. Para não serem convertidos num novo apego e numa nova carga. O Buda ensinava que não devemos carregar às costas a balsa que nos serviu para atravessar o rio. Sempre que existe o desejo de fixar um insight, uma experiência ou uma compreensão, acaba por se converter numa nova forma de segurança, numa nova referência com a qual abalizar a ação. É apenas uma cela diferente dentro da mesma prisão.

A mente procura uma fórmula infalível que satisfaça o seu anseio de segurança e permanência, um conceito definitivo e imperturbável no qual se possa estabelecer de forma conclusiva. Mas esta esperança é completamente infundada e ilusória. Nada do que o pensamento concebe escapa à fluidez e impermanência do próprio pensamento. Tudo o que a mente constrói e formula, só subsiste enquanto suportado e alimentado pela própria mente. Mas a própria mente tem existência intermitente, surge e desaparece.

"Ama, et fac quod vis!" (Ama, e faz o que quiseres!), declarou Santo Agostinho. A única ação verdadeiramente inteligente só pode ser resultado do amor, que é a ação num total espaço de disponibilidade, abertura e não-saber. Apenas a consciência, quer dizer, o amor, pode receber a realidade. E o amor significa na verdade a tua ausência.  Só quando tu não estás é que a verdade pode brilhar. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Pode-se Possuir a Verdade? São as palavras o vaso que a pode conter?


No diálogo entre o sábio e o buscador, só as perguntas deste provocam as respostas daquele. Sem o questionamento do buscador, o sábio permaneceria em silêncio. Não sente necessidade de qualquer tradução verbal. Nós procuramos aferrar-nos às palavras na triste ilusão de garantir acesso, permanência e continuidade. Com elas substituímos a realidade. Mas nem a mais completa das  ementas  poderá substituir a mais frugal das  refeições.

As palavras não constroem a realidade do sábio. É antes da sua realidade que brotam as suas palavras. As palavras do sábio poderão expressar o seu sentir e experimentar. Mas este sentir e experimentar não depende de palavras. A realidade é anterior e independente de conhecimento e verbalização. O sábio permanece neste oceano de realidade e deixa que se desvaneçam as palavras. Permite que elas surjam e  desapareçam. O seu mundo e a sua experiência brotam do silêncio e do vazio. E nada disto é pessoal. Não é algo que ele possa produzir. Por isso é livre do esforço para reter ou alcançar. As palavras do sábio são imediatamente esquecidas logo que pronunciadas. É só nesta liberdade que a verdade e a compreensão podem surgir. Só no desapego, no total desprendimento da memória e do passado é que a ação pode ser descondicionada e livre.  

Que significa a percepção desta verdade? Vais querer utilizá-la a fim de te protegeres de novos enganos e ilusões? Vais procurar registá-la e guardá-la para te servir de norma na ação? Estás a iludir-te uma vez mais. O que a mente pode conceber e registar é meramente uma expressão e um reflexo do elemento criador original. Jamais o poderá substituir. Existe um funcionar espontâneo e natural do qual a mente só uma ínfima parte pode traduzir. O experienciar a realidade, na totalidade da sua manifestação, acontece de momento a momento numa dimensão atemporal. Isto! Aqui! Agora!... é sempre perfeito, completo e imprevisível! O presente imediato, esta dimensão atemporal, jamais poderá ser captada por um fragmento tão parcial e limitado como é o intelecto. O momento presente, enquanto vivido, é infinitamente aberto, uma totalidade imprevisível. Mas quando pensado, já se tornou passado, algo de rígido, limitado e definitivamente cristalizado. O conhecido é meramente um resultado e um subproduto do desconhecido. Jamais o poderá substituir. Só podes procurar e desejar aquilo que já conheces. Mas a experiência original é livre e independente de conhecimento, de busca e de tudo aquilo que a mente e o desejo pode conceber.

Queremos estar certos e seguros de possuir a verdade. Mas a verdade não pode ser possuída. Se a procuras cristalizar num conceito, numa crença, então a palavra, o símbolo passa a substituir a realidade. Como afirmava Krishnamurti, "os conceitos podem ser repetidos, mas a verdade tem que ser sempre descoberta de novo, não pode ser repetida". O intelecto não pode substituir a presença consciente, o pensamento não pode substituir a atenção. A crença origina-se da vontade de posse e desejo de segurança. Mas a verdade será sempre completamente livre e selvagem. Para poder despontar requer espaço e liberdade. Não a podemos reter num livro ou na memória. A verdade que liberta é como uma vela que ilumina. Ela própria se consome no processo em que dá luz. Ela própria se desvanece e desaparece. Dela própria nada resta!

Um dia compreenderás que a autêntica liberdade não depende de respostas às tuas perguntas. Isso não é liberdade, é dependência. A liberdade que depende de respostas é sempre pequena e limitada. Saberes viver com perguntas sem dependeres das respostas, isso sim, é o fim de todas as amarras! É abrir-se à experiência do infinito e ilimitado. É mergulhar no desconhecido aceitando a companhia  da insegurança e do medo. E nesse processo, assistir à radical transfiguração da emoção e do sentimento. Melhor do que termos um mapa para seguir, é sermos nós mesmos a luz que ilumina o caminho.

sábado, 5 de maio de 2012

Inefável



Como poderão as palavras expressar ou transmitir um estado
que se torna presente quando todas as palavras
e todo o verbalizar se ausentaram?

Falar sobre Isto! Discorrer sobre Isto!
Sempre o mesmo dilema, a mesma frustração!
Sempre a sensação de que algo absolutamente essencial
foi deixado de fora!

 Falar e escrever!
Apenas para constatar que a verdade
Jamais se deixa capturar.

Tudo o que desta atividade pode resultar,
será sempre um pálido reflexo daquilo que lhe deu origem.

Compreender isto! Aceitar isto!
Não significa limitação ou impotência.
 Significa a infinita independência.
 A infinita liberdade!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

As Palavras e as Coisas

Somos senhores do silêncio que conservamos e escravos do ruído que produzimos



U
ma experiência ou sensação, enquanto tal, é uma realidade incontestável. Dispensa confirmação ou demonstração e é imune a qualquer tentativa de refutação. Não pode ser impugnado aquilo que irremediável e irrefutavelmente é. Tal como o cogito cartesiano, está para além de toda a objeção. Se sofremos uma dor de dentes, é inútil toda a dissecação intelectual que procure pô-la em causa.

Enquanto no campo do silêncio, do fenómeno subjectivo, esta realidade permanece pura e soberana. Está para além de toda a controvérsia. Mas quando a denominamos, quando lhe damos um nome, transferimo-la para o espaço público. Corrompemo-la inevitavelmente. Tornámo-la vulnerável à contenda e à disputa. Aquela realidade sem nome, na sua pureza e originalidade, não existia antes da sua manifestação. Mas quando lhe damos nome transferimo-la para um invólucro que lhe é preexistente, com uma forma própria com a qual ela agora é coberta, adulterada, desvirtuada, conspurcada. Tal como o liquido adquire a forma do recipiente onde é introduzido, assim também as palavras dão determinada forma às emoções e sentimentos que procuram representar.

Cumpre fazer aqui uma distinção entre aquelas duas dimensões, isto é, a realidade em si mesma e a realidade enquanto simbolizada. O aviltamento de que falamos apenas atinge esta segunda dimensão. A realidade enquanto tal e em si mesma, permanece intacta e na sua pureza original.

A linguagem é um produto social, um instrumento colectivo. Está construída para satisfazer as necessidades da sociedade onde ela emerge. Daí não poder dar conta de uma necessidade ainda não manifesta. Creio que é por este motivo que nos causa tanta estranheza a literatura mística e espiritual oriunda dos homens sábios da Índia e da China. O progresso do conhecimento e a expansão da consciência deveriam ser acompanhados por um correspondente dinamismo da linguagem. Este dinamismo tanto se poderá manifestar num alargamento do significado de determinadas palavras, como no surgimento de novos termos que possam dar conta da nova realidade emergente (ou da expansão da consciência da realidade).

As palavras são algo de muito limitado e insuficiente relativamente à função que deveriam desempenhar ou que delas esperamos. Principalmente quando procuramos representar uma realidade que não pertence ao domínio do tangível e material, mas sim ao domínio psicológico, subjectivo e imaterial. É neste último campo onde se regista a grande ineficiência das palavras por não haver possibilidade de confirmar empiricamente e de forma inequívoca que os diversos conceitos são interpretados de maneira uniforme pelas diversas pessoas e atribuímos os mesmos nomes às mesmas realidades.

Ao escolher do mundo das palavras aquelas com as quais pretende simbolizar a sua experiência, uma pessoa comete equívocos que poderão anular completamente qualquer fundamento da existência do mundo verbal, uma vez que este deixa de cumprir a sua função. E o cumprimento dessa função é a condição cuja verificação é indispensável, ou na qual reside qualquer valor ontológico ou pragmático que se lhe possa atribuir. Uma pessoa não apenas comete equívocos ao escolher do mundo verbal as palavras com que pretende simbolizar a sua experiência, como poderá mesmo acontecer que daquele mundo ainda não façam parte as palavras para a simbolizar. Neste último caso a pessoa irá colocar um nome a algo que ainda não o tem. O dar nome implica sempre identificação e a identificação é sempre produto do passado. Quer isto dizer que a pessoa está a ver numa coisa nova, desconhecida e sem nome, uma coisa velha, conhecida, com nome. Se a pessoa não tiver consciência deste facto, então poderá ficar enredada num processo de pensamento cujo resultado poderá ser uma total dissociação da realidade. Isto é uma coisa gravíssima quando se trata de fenómenos do campo psicológico porque as palavras deixam de ser utilizadas como uma representação da realidade para a passarem a determinar. Acontece assim porque certos conceitos acarretam já consigo uma determinada carga emocional, provocam já determinados sentimentos e reacções automáticas. Há uma inversão absurda da ordem ontológica: deixa de se partir da realidade para as palavras (silêncio) para se partir das palavras para a realidade (preconceito).

A forma mais complexa, paradoxal e absurda que uma frase possa ter, poderá ser na realidade a utilização mais inteligente  que se faz das palavras numa expressão. Se uma pessoa não quer atraiçoar verbalmente uma experiência de elevado grau de incomunicabilidade, a forma como mistura palavras na tentativa de fazer a sua tradução verbal servindo-se dos nexos de que dispõe na sua língua, poderá parecer extremamente paradoxal e confusa. Se as palavras não podem expressar a sua experiência, então que se abstenha de o procurar fazer. E se a tentar comunicar, então que não entendam o que ela diga. Se a entenderem, a sua experiência terá sido atraiçoada na sua tradução; se a não entenderem, então terá sido inteligente a sua comunicação. Perante uma realidade nova e desconhecida, a atitude mais adequada é a humildade, a forma negativa no sentido socrático, e não a afirmação positiva.

Se uma coisa é nova e desconhecida, nada temos a objetar que seja criada também uma palavra nova para a simbolizar. É preferível a meter vinho novo em odres velhos. Se uma coisa não tem nome, então que seja descoberta em silêncio. Às palavras o que é das palavras; ao silêncio o que é do silêncio. O contacto com a realidade só acontece depois de transcendermos as palavras. Mais importante do que explicar as coisas é sentir as coisas. Para quê conhecer o que não se sente? É muito mais importante sentir o que não se conhece.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Silêncio e as Palavras - Crença e Realidade


“O silêncio é a única linguagem capaz de expressar a totalidade da verdade!"  -Ramana Maharshi                                                                                 
A realidade do Ser e existir está antes e além de qualquer formulação conceptual. A falsidade e a ilusão é que dependem de conceitos e de crenças. A realidade do que é e do que existe não depende de crença ou formulação verbal. Qual a necessidade de crença? Só o que é falso necessita de ser suportado por crença. O que é real mantém-se por si mesmo. Na ausência de crença, a realidade não deixa de ser o que é. Apenas o que é ilusório desaparece. Podes não acreditar na gravidade, mas não deixarás de te despenhar se saltares de um avião sem para-quedas. A terra sempre girou em torno do sol, não passou a fazê-lo somente depois de Copérnico ou Galileu. Não precisas de saber o nome do rio para nele te poderes banhar. A autêntica realidade encontra-se além do verdadeiro e do falso. Estes conceitos apenas dizem respeito a frases e proposições. Mas a realidade é anterior, transcendente e independente da sua formulação verbal. A mentira não tem qualquer forma de subsistência para além da dimensão verbal. Não há qualquer necessidade de combater a mentira. Temos apenas de iluminar a verdade. Na ausência de palavras não subsiste a mentira. No silêncio apenas a realidade está presente. Na ausência de nomes e palavras a mentira encontra-se desprovida do único alimento que a sustenta. O silêncio apaga a mentira. Faz com que a verdade brilhe no seu máximo esplendor. Purifica a visão da realidade.

É um esforço inútil e é completamente ilusório procurar sustentar uma batalha contra o ego. O ego não é uma entidade. É apenas uma atividade. Tão efémera e intermitente como qualquer outra atividade. Procurar combater ou eliminar o ego é atribuir-lhe realidade. À semelhança daquelas pessoas que se munem de amuletos e se dedicam a exorcismos e rituais, alimentando dessa maneira os próprios fantasmas que julgam combater. O ego consiste precisamente neste processo de criar ilusões. Travar uma guerra contra o ego é como utilizar gasolina para apagar um fogo. Não existe tal coisa como um "ego" separado das atividades que o sustentam. E a luta contra o ego é precisamente uma dessas atividades. O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura suprimir.

O ego não é nada mais que desejo e aversão, escolha e rejeição, memória e interpretação. Não existe um ego que atua. Estas atividades são elas mesmas o próprio ego. Na ausência de pensamento, quando a mente está em silêncio, não existe tempo, não existe condicionamento, não existe ego. Aquele que se procura libertar só existe na cela de uma prisão. O escravo não se torna livre. A liberdade é o findar tanto do escravo como da prisão. A liberdade não tem qualquer relação com a escravidão. O escravo que se procura libertar nunca deixará de ser escravo. Tanto o escravo como a liberdade que ele projeta e idealiza fazem parte das grades da prisão.

É por isso que a libertação é tantas vezes apresentada como um processo imediato. Os mestres Zen são os mais pragmáticos, os mais diretos e menos pacientes a este respeito. Não têm paciência para discursos, racionalização e argumentos. O que fazem é renunciar a todo o conhecimento discursivo, a toda a especulação e esforço, para se estabelecerem na gratuitidade e simplicidade deste momento eternamente presente, a realidade atemporal do aqui e agora.

Se nalgum momento a leitura destas linhas suscitar alguma dificuldade ou esforço de compreensão, isso mais uma vez é devido ao desejo de conhecimento, de certeza e segurança. É preferível renunciar a seja o que for que estamos a procurar obter do que converter isto num problema a resolver. Tudo o que esse esforço e essa atividade poderá conseguir será meramente uma satisfação momentânea. Enquanto procurarmos satisfazer esse desejo de segurança, ele terá que ser satisfeito uma e outra vez indefinidamente. O problema terá que ser resolvido repetidamente e jamais alcançaremos satisfação permanente. Porque a satisfação do desejo de segurança é sempre momentânea, tem validade a prazo. Nada de duradouro e permanente pode surgir da atividade do pensamento. O que um pensamento constrói, outro pensamento pode destruir. A própria mente tem uma existência intermitente.

Havia um homem que a intervalos regulares polvilhava com um certo pó todas as divisões da sua casa. Quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu: «É para afastar os fantasmas e espíritos malignos!». «Mas aqui não há fantasmas ou espíritos!», disseram-lhe. «Claro!», respondeu o homem, «porque o pó os mantém à distância!». Enquanto procurarmos satisfazer o anseio de certeza, jamais saberemos se essa necessidade é real ou ilusória.

Enquanto julgarmos que precisamos da experiência e do conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios e circunstâncias, teremos medo de dispensar todo o nosso aparato conceptual. Mas enquanto não o fizermos, jamais poderemos saber se ele é ou não necessário. Jamais saberemos o que é a liberdade e o amor. Através dos mecanismos do medo e das atividades por ele engendradas, jamais poderemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Esforço e Renúncia



"Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu!" - F. Pessoa 
"Quando atingires o topo da montanha, continua a subir!" -Provérbio Zen 

"Cogitaciones volant, conscientia manent!" (os pensamentos voam, a consciência permanece!). 


Que procuras tu alcançar ou reter, ou recuperar ou compreender?... Renuncia ao desejo de conhecer, ao teu anseio por certeza e segurança. Simplesmente repousa e confia. Não temas o silêncio. Não receies morrer. Só o que é ilusório desaparece. Aquilo que é real nunca deixa de existir. A esponja apaga todos os riscos, mas o quadro não é apagado. As nuvens passam, o céu permanece. Quando no fim do filme se apaga a luz do projector, a tela permanece intacta, pronta a receber o próximo filme. O homem sábio constantemente morre para todas as experiências. A liberdade do sábio consiste numa permanente atitude de renúncia e desprendimento. Um constante abrir mão e deixar ir. Sabe que o silêncio jamais será vazio! 

Para quê guardar a verdade na memória ou num livro sagrado? Ela está eternamente escrita no Universo! A verdade é uma presença silenciosa! O teu acesso a ela é incondicional! Estamos sempre imersos na verdade. A mente sob a forma de esforço e pensamento é que é isolante e separativa. Aquilo que precisa de ser retido, capturado ou recuperado não pode ser a verdade. A realidade autêntica e essencial não pertence ao campo do impermanente e transitório. Se algo se foi, deixa que se vá. Não te esforces por reter ou recuperar. Aquilo que requer esforço e apego não tem qualquer importância ou valor. Qualquer coisa que adquiras acabarás por perder. Se algo precisa de ser retido por ação da vontade e do desejo, então terá que ser repetidamente capturado, uma e outra vez, numa atividade extenuante e num inútil desperdício de energia. Encontrar o que desejas, nunca passará de uma satisfação temporária destinada a desvanecer-se novamente.

Para quê desperdiçar esforço e energia tentando compreender, possuir ou conhecer? Tudo o que o pensamento constrói está destinado a desaparecer. É como um desenho na areia à beira-mar que as ondas acabarão por lavar. As palavras são sempre esquecidas. Aquele que utiliza a palavra a fim de se apropriar é ele próprio de natureza impermanente e transitória. É apenas um atributo do pensamento e não uma entidade que lhe sobreviva. Não tem qualquer realidade para além daquela que o pensamento lhe confere. Não passa de uma entidade fictícia resultante do desejo de segurança e da busca por repetição e permanência. A sua realidade é apenas aparente e ilusória. Surge e desaparece com o próprio pensamento que a criou..

Se um pensamento se foi, porque te esforças por o recuperar? Sendo a sua natureza impermanente, que diferença faz para ti depositá-lo numa folha de papel? A folha jamais terá sensações! É preferível renunciar à luta e ao esforço, à vontade de possuir e controlar. Relaxa e descansa! Se algo for realmente importante não deixará de te visitar quando for oportuno. O que a circunstância requer, ela própria te irá prover. O importante não é possuir a verdade cristalizada num livro ou na memória, mas antes manter uma mente tranquila e desperta capaz de a refletir em todos os momentos. Afinal que importam as palavras se o espírito por trás delas se encontrar ausente?... Mas, se o espírito está presente, para quê as palavras?

Por mais extático, sublime ou inspirado que seja um estado subjetivo, as palavras jamais o poderão capturar ou transmitir. Todas as palavras sofrem das mesmas limitações. Por mais intensa que seja uma vivência subjetiva, a sua objetivação ou expressão em qualquer forma deixa sempre de fora aquela vivência. Vemos o riso da criança, não a sua alegria. Ouvimos a música que sai do piano, não a que se encontra no coração do pianista. Nenhum quadro de Van Gogh substitui o seu olhar. Nenhum Sermão do Monte nos transmite a visão de Cristo do reino dos céus. A palavra e o pensamento brotam dum silêncio e dum vazio que a palavra e o pensamento jamais poderão captar ou substituir. Não são as palavras que dão vida ao espírito, é o espírito que dá vida às palavras. A subjetividade objetivada é sempre ilusória, pretende atribuir a um objeto aquilo que é inerente ao sujeito.

A busca conduz inevitavelmente à frustração, uma vez que todas as experiências e estados de consciência serão sempre transitórios e passageiros. Qualquer coisa que obtenhas acabarás por perder. Se compreendes que tudo é impermanente, nenhum estado já tentarás produzir, nenhum prazer desejarás reter, nenhuma experiência conservar. Paradoxalmente o nosso acesso àquilo que é realmente importante e significativo não requer qualquer esforço. É uma dádiva gratuita, sempre disponível e presente. Pede apenas que a aceitemos. Requer apenas a nossa presença. Apenas que estejamos vivos! O nosso cepticismo, a nossa busca e avidez é que nos cega para aquilo que nos é mais intimo que o próprio respirar. Para aquilo que apenas requer aceitação e silêncio. O ruído do pensamento jamais o poderá compreender. A mente jamais o poderá contactar. Aquilo que sempre buscámos é na verdade a única coisa que sempre tivemos.