A atividade visando o auto-aperfeiçoamento, a vontade deliberada de transformação, a luta e o esforço para nos convertermos no que idealizamos, é sempre inútil. Porque o pensador, a entidade que utiliza o pensamento para se auto-aperfeiçoar, para se engrandecer ou diminuir, para atingir ou alcançar, é uma entidade fictícia, ilusória. É apenas uma sensação aparente, uma projeção ou invenção do pensamento. O pensador só parece ter realidade enquanto decorre o processo de pensamento. Mas na realidade faz parte do pensamento e não subsiste quando este termina. Não tem maior solidez ou permanência que o próprio pensamento. É uma entidade fictícia, efémera e passageira, à qual o pensamento atribui permanência. Na realidade não existe pensador mas apenas pensamento. É um processo unitário e não dois processos separados. É na desmontagem desta ilusão de dualidade e separação, que consiste aquele insight a que chamamos "despertar". Esta compreensão põe fim ao esforço volitivo do pensamento e promove a integração interior. Na ausência de pensamento, o que permanece é o Ser ou Consciência impessoal, que não beneficia de qualquer aquisição ou renúncia elaborada pelo pensamento. Esta Consciência é o que nós somos na realidade e não é susceptível de aperfeiçoamento ou modificação. É sempre plena, transparente, luminosa, completa.
O que significa dizer que não há ninguém para compreender? Ninguém para se libertar? Ninguém para se iluminar? Significa, em essência, que é artificial e ilusória a separação entre a ação e o agente, entre o pensador e os seus pensamentos, entre o buscador e as suas metas. Esta aparente figura separada não passa de uma invenção. É por isso que quando te criticas ou julgas a ti próprio és vitima de uma ilusão. Crias dentro de ti uma divisão que na realidade não existe. O teu Ser é uno e não dual. O importante é não lutares contigo próprio. É inútil e ilusório estabelecermos dentro de nós mesmos uma fragmentação ou divisão em que uma parte procura consertar ou aperfeiçoar a outra. Tal como é ilusório procurar abstrair da compreensão uma entidade que compreende. Este esforço está condenado ao fracasso. A entidade que recorda e avalia, que procura reter ou recuperar, não existe no exato momento da experiência. É uma invenção à posteriori. O experimentador e a experiência constituem uma unidade. Não existe um experimentador permanente separado das suas experiências transitórias. Mas o viver e experimentar permanece em meio à transitoriedade de todas as experiências.
Eu agora compreendo claramente a futilidade do apego e do esforço para reter a compreensão. Mas é inútil fazer estes registos tendo como motivo o desejo de tornar permanente esta compreensão. Não devo converter isto que estou a escrever numa ideia a reter para servir de guia na ação. Eu não estou a produzir uma receita que me garanta a repetição desta claridade e de futuras compreensões. Eu não tenho o controle, de nada sou o autor. A compreensão vem a mim e apazigua a minha mente assim como os raios de sol aquecem a minha pele. Eu não sou o agente que deliberadamente faz e provoca aquele aparecimento. Apenas o vivencio e usufruo. É uma bênção gratuita. Tudo o que é verdadeiramente grandioso e significativo é gratuito. Não pode ser nada que eu tenha merecido ou conquistado. Por isso a vida do sábio é livre de esforço, de volição e das complicações do pensamento egocêntrico. O sábio vive com a mesma simplicidade e alegria, com a mesma espontaneidade e confiança de uma criança no seu estágio pré-moral e pré-conceptual.
Eu não posso através do esforço volitivo do pensamento, ressuscitar um estado em que o desejo, o esforço e o pensamento se encontravam ausentes. A compreensão surge do silêncio, brota da paz e do vazio. O importante é esta paz e este vazio no qual surge a compreensão. Ao procurar reter a experiência da compreensão, esse desejo constitui-se num empecilho e num obstáculo àquele vazio, àquela paz e quietude na qual a compreensão pode desabrochar. Mas essa compreensão não pode ser retida, não podemos garantir a sua continuidade e permanência. Por isso J. Krishnamurti afirmava que "A verdade vem sem chamamento. Surpreende-nos como um ladrão". Não devemos recear morrer para todas as nossas experiências porque na verdade todas elas têm um findar. E mesmo as experiências de "despertar" ou "iluminação" não constituem qualquer excepção. A renuncia e desapego tem que ser absoluto e incondicional. A entidade que se liberta só existe enquanto não há liberdade; a entidade que se ilumina dissolve-se na iluminação; aquele que desperta desaparece no próprio despertar.
Toda a atividade egocêntrica, toda a preocupação em torno da própria pessoa, todo o esforço visando o auto-aperfeiçoamento, é um roubo àquela disponibilidade, àquele espaço de atenção e silêncio necessário para podermos receber a vida sempre imprevisível que acontece à nossa volta e da qual participamos. E esta atenção ou consciência, este espaço de disponibilidade e silêncio não precisa de ser construído, fabricado ou produzido por qualquer atividade ou esforço. Ele já é inato em nós, ou antes, é aquilo que realmente somos e portanto jamais podemos perder. Não nos apercebemos dele apenas devido à distração que constitui a atividade egocêntrica do pensamento. Não o podemos converter num estado a realizar ou meta a atingir. É paradoxal mas só o vivenciamos verdadeiramente quando renunciamos ao desejo de o obter. Esta renúncia e o silêncio que a acompanha expurga a realidade de tudo aquilo que lhe é alheio. Liberta o nosso ser verdadeiro daquilo que é falso e ilusório.

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