A realidade e as palavras
"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017
”NENHUM FLOCO DE NEVE CAI NO LUGAR ERRADO”
A impermanência e transitoriedade é a condição inevitável de todos os estados e experiências. Não existe um estado de perpétua iluminação e bem-aventurança. Essa é uma ideia errada. Mesmo os mestres que admiramos e reverenciamos não vivem num estado de permanente nirvana e ininterrupta felicidade. Não acredites naquela história em que um autor fala de um passeio na floresta, um maravilhoso contemplar do pôr-do-sol à beira-mar, um acordar após uma noite de angustia existencial ou outra experiência qualquer, em que de repente é atingido pela flecha iluminada do nirvana ou um raio de compreensão súbita que lhe desvenda os segredos do universo, passando então a viver num estado de êxtase iluminado e felicidade permanente. Isso não existe! É apenas um estratagema literário que empresta certo colorido romântico ao discurso mas sem rigorosa correspondência na realidade.
Essencialmente todos passamos pelas mesmas dúvidas e perplexidades. Julgávamo-nos já definitivamente instalados no jardim do Éden e constantemente nos vemos expulsos do paraíso. O jogo da mente é muito subtil. Consideramos um estado ou experiência como o correto ou satisfatório e quando outro estado se nos depara julgamos que há alguma coisa errada. Não há nada de errado se nós assim o não considerarmos! O problema só é criado pelo pensamento que julga, avalia e compara.
Para o nosso estado natural, o nosso ser mais profundo e essencial, não há quaisquer problemas, nem desejos ou aversões. Tudo o que surge é aceite e permitido. As coisas são vividas tal como se apresentam, sem rejeição nem apego. Ninguém tem o controle. Nós nada podemos fazer. O segredo está em não discutirmos, não lutarmos. Para sermos plenos e completos devemos permitir-nos experimentar tudo. O sábio não é um ser humano perfeito, é um ser humano total!
O desejo por experiências, mesmo as mais nobres e espirituais, é como outro desejo qualquer. Enquanto houver alguém a avaliar e escolher o que é espiritual e não é, a rejeitar uma experiência e procurar reter outra, a perseguir determinados estados particulares que se procuram repetir e capturar, estaremos sob o domínio da ilusão. Se compreendemos que tudo é impermanente, então nenhum estado tentaremos produzir, nenhuma perturbação evitar, nenhum prazer desejaremos reter, nenhuma experiência rejeitar!
Aquilo que realmente somos, a nossa natureza essencial, não tem nada a ver com estados e experiências de índole particular. O Ser está presente em todas as experiências. Quando vivemos desde o nosso estado natural, da pura consciência impessoal que somos, não há desejo, nem esforço, nem gostos ou aversões, não há escolha, avaliação ou comparação. Nem sequer há palavras a tentar descrever, explicar, definir. Há apenas atenção e silêncio. Apenas disponibilidade e vazio... pura receptividade, paz, quietude! E nem mesmo existe alguém para saber disto. Não há ninguém para saber coisa nenhuma. E é maravilhoso e magnífico! Mas não tem nada a ver contigo ou comigo. Nós nada podemos fazer. Nada podemos produzir. É Graça total!
Com a aceitação vem a paz. A constante atividade mental de calcular, julgar, resistir ou aprovar é que complica a vida. Tudo flui, nada permanece! A vida é como um rio a correr. Às vezes a água vai mais clara, outras vezes mais turva, às vezes leva alguma sujidade, mas se não a estancarmos, acaba sempre por retornar à pureza original. O importante é não nos rebelarmos, não julgarmos que devíamos fazer ou sentir alguma coisa diferente do que fazemos ou sentimos, ou que as coisas deviam ser de outra maneira. Tudo é como deve ser! Tudo está bem como está! Ao longe todos os acidentes se alisam. À distância todos os percalços ganham sentido. Por maior que seja a agitação das ondas, sob uma perspetiva mais ampla o mar é sempre sereno
”Nenhum floco de neve cai no lugar errado”, diz o ditado Zen. O fim da dualidade significa o calar daquele comentador cá dentro, sempre a emitir juízos e avaliações, a condenar ou a aprovar, a dizer o que é correto e o que não é, o que está bem e o que está mal. Nós somos imensos. Somos maiores do que a mente. Maiores do que qualquer coisa que possamos pensar. Do que isto trata não é de sermos iluminados e perfeitos. Trata-se de sermos íntegros, completos. O importante é aquilo que é real e não o que desejamos ou perseguimos.
Aquilo a que devemos aspirar é total e completa liberdade. E nunca seremos plenamente livres enquanto houver coisas que perseguimos e coisas que rejeitamos. Nenhuma moeda pode existir com uma única face. Queremos felicidade sem dor, mas não se pode ter um arco-íris sem um pouco de chuva. Por isso sê benevolente contigo próprio. Permite-te ser visitado por todos os anjos e demónios, "simplesmente não lhes sirvas chá", como advertia um sábio mestre Zen. Eles vêm sem que tu os tenhas chamado e partirão do mesmo modo como vieram.
Uma história budista conta que certa vez um rei se dirigiu a um homem sábio para lhe pedir uma fórmula que sintetizasse toda a sua sabedoria. Então o sábio entregou-lhe um anel com um simples aforismo que devia recordar em todos os seus encontros com a vida. Continha apenas três palavras: “Isto também passará!”. Esta história nada tem a ver com a atitude “new age”, nem é nenhuma apologia do pensamento positivo ou da coragem perante a adversidade. É um convite à descoberta de uma paz e serenidade que subjaz além de todos os estados e circunstâncias. Ao desapego e desidentificação perante todas as situações e experiências, quer sejam de dor e sofrimento, quer de êxtase ou iluminação.
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013
"MUSHIN" - CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTADO DE "NÃO-MENTE"
De uma forma mais ou menos consciente, os esforços do buscador quase sempre são direcionados ao aperfeiçoamento do conteúdo da mente, à busca da filosofia e das respostas mais rigorosas e perfeitas, à elaboração da suprema norma de conduta, algum principio orientador, alguma fórmula, algo que possa adquirir e usar. A plena maturidade vem com a compreensão de que qualquer apego ou aquisição se converte num estorvo. Qualquer bagagem ou acumulação limita a liberdade e turva a consciência como a sombra escura que limita o circulo brilhante da lua. Maturidade é compreender que a realização suprema não é algo que se possa alcançar ou adquirir, mas antes um estado original que importa reconhecer e em que podemos confiar. O importante não é o conteúdo perfeito mas antes o vazio perfeito. "A melhor coisa não é melhor do que nada!", diz um provérbio Zen.
A iluminação ou o despertar não tem que ver com alguma classe de eventos ou estados particulares. A iluminação não diz respeito à situação em que te encontras, à forma como te sentes ou te comportas. Não existe uma categoria correta de estados iluminados em oposição àqueles que excluem a iluminação. O que desaparece é a divisão interior, a divisão entre um "eu" que vive e um "eu" que ensina a viver. Deixa de estar presente o comentarista ou censor que julga, avalia ou compara. Existe apenas um fluir natural e espontâneo, um sentir, viver e agir puro e simples. Não mais existe a entidade fictícia que se separa da experiência para a julgar, condenar ou justificar, aquela voz que sabe e idealiza e que sempre olha para aquilo que é através de uma ideia de como deveria ser. Cessa a aparente atividade de um "eu" imaginário, de um agente ilusório a pretender controlar, modificar ou manipular a experiência.
Importa compreender que não se trata da aquisição de qualquer tipo de perfeição, sabedoria ou virtude. É um estado totalmente isento de conteúdo, puro vazio. A denominação "Não-Mente" procura precisamente evitar o conflito da dualidade e da luta entre os opostos. É o fim do conflito entre a aceitação e a recusa, da luta entre o que é e o que deveria ser. Cessa toda a possibilidade de rejeição e escolha, toda a comparação entre o que penso que sou e aquilo em que me deveria converter. É o fim da "auto-consciência" com as suas atividades calculistas e protetoras em torno de uma imagem, de uma figura imaginária.
O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.
O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.
O conhecimento conceptual implica sempre separação e dualidade. O conhecimento é como um dedo que aponta para fora, originando o experimentador separado da experiência, o sujeito separado do objeto, o agente separado da ação. Esta divisão artificial termina quando há perfeita quietude mental, perfeito silêncio. Neste estado de quietude não existe qualquer pensamento ou entidade para verbalizar ou conhecer o estado de consciência experimentado. O estado de "Não-Mente" não é algo que se possa obter ou conhecer, mas apenas ser e vivenciar. Daí que sempre se nos faça a advertência de que as palavras são como setas indicadoras. Elas podem apontar uma direção, mas terão de ser abandonadas ao entrarmos no caminho apontado. Uma metáfora budista diz-nos que, uma vez alcançada a outra margem de um rio, não carregamos às costas o barco que nos serviu na travessia. As palavras são como uma porta ou uma ponte que é deixada para trás uma vez atravessada. Elas não nos podem acompanhar no salto que nos estabelece na pura realidade. A realidade é anterior a todas as palavras. O oceano da verdade é como um poço de ácido corrosivo em que somos completamente dissolvidos ao nele mergulharmos. Nós desaparecemos e resta apenas a realidade. Apenas este fluir interminável sem causa nem propósito a que chamamos viver... e uma alegria transbordante a impregnar o ser e o experimentar.
O estado de "Não-Mente" não pode ser reconhecido, uma vez que está ausente o mecanismo que permite comparar, avaliar ou reconhecer. É por isso que toda a atividade e esforço em torno do auto-aperfeiçoamento, toda a luta procurando aniquilar o ego ou obter a "iluminação", não passa de um inútil desperdício de energia. É tão fútil como a atividade do cão ás voltas sobre si mesmo procurando agarrar a própria cauda, ou da criança que tenta ultrapassar a própria sombra. O silêncio jamais poderá coexistir com a entidade que o procura alcançar, porque o silêncio aniquila completamente aquele que deseja obter o silêncio. Só quando te retiras da frente de um espelho é que ele deixa de refletir a tua imagem, mas então tu já não te encontras aí para confirmar essa ausência!
O que temos de compreender é qual o vento, qual a água que ao banhar a mente a liberta de todo o passado e condicionamento. Por certo que não poderá ser nada vindo da própria mente, da memória ou da especulação intelectual. Não se pode pensar no "estado sem pensamento". Há uma realidade que só toma forma no imediato plano existencial, uma dimensão que o pensamento não pode antecipar nem recordar nem conhecer. A mente jamais poderá invocar a sua própria ausência, é isto que importa compreender. Aquilo que é manifesto no silêncio, só o silêncio pode experimentar. A atividade do pensamento é como um jogo circular de que ele próprio se alimenta. Mas há uma presença inefável que o pensamento jamais poderá tocar. Esta presença não é um atributo mas sim o próprio Ser. É aquilo que somos e não algo que possuímos.
É por isso que o estado de "Não-Mente", a libertação, não pode ser um processo gradual. O tempo só existe na mente e a mente não pode ser o instrumento que te leva além da mente. A mente jamais poderá cooperar com a sua própria destruição. A saída deste circulo opressivo só pode ser uma resolução instantânea, um salto para além da mente. Este salto não requer nenhum "fazer", nenhum requisito é necessário cumprir. Consiste muito mais numa renuncia, numa negação, num não agir, não fazer, não interferir (o "Wu Wei" do taoismo chinês), do que nalgum fazer, agir ou atuar positivamente. A intenção e a vontade representam o obstáculo e não o meio.
É por ser uma coisa tão fácil e tão simples que ela parece difícil ou complicada. No entanto, uma vez mais, a dificuldade ou complicação só existe para a mente. Mas a mente não desempenha aqui qualquer papel. A mente, o ego, o pensamento, jamais poderá contactar ou experimentar a sua própria ausência. Isto é que tem de ser compreendido. Aquele estado torna-se presente quando a mente renuncia a todas as suas atividades, motivos e desejos. Sendo o nosso estado natural, ele não pode ser gerado através de esforço nem precisa ser criado por qualquer atividade da nossa parte. Porque é um estado preexistente a todas as nossas atividades. Não requer sequer ser conhecido ou verbalizado. Procurar conhecê-lo ou obtê-lo, é tão absurdo como um peixe andar em busca da água onde nada. É este o significado profundo do termo "Graça", algo que é gratuito, livre de causa, que não é nenhum resultado ou objetivo. Acaso a vontade de um recém-nascido poderá ser a causa do seu ser e existir? É ele o autor do seu próprio respirar e sentir? É o nosso esforço e a nossa vontade que faz o coração bater e o sangue circular?... O que a natureza requer de nós é confiança e não resistência!
O risco que se corre ao fazer estas exposições verbais, é o de elas poderem involuntariamente intensificar a própria atividade que se pretende cessar. As palavras fazem parecer complicado aquilo que é naturalmente simples. Estas palavras não devem ser convertidas numa ideia a reter e aplicar. As palavras são meramente a expressão de uma realidade que está antes delas. Devem ser vistas como uma grosseira tentativa de descrição e não como uma prescrição. A claridade e lucidez não depende de palavras, símbolos ou expressão. Nada disto deve ser convertido num esforço de compreensão ou num problema a resolver. Compreender a realidade não é compreender as palavras que a procuram descrever. Nenhuma descrição é adequada, porque nenhuma descrição pode substituir o sabor da realidade. O mapa não é o território. Se entrares num restaurante chinês, poderás não compreender a ementa, mas isso não te impede de usufruir plenamente da refeição. Aquilo que é real e verdadeiro não depende de conhecimento ou verbalização. A ordem da realidade não depende da ordem das palavras. Podemos falhar todas as questões dum exame de anatomia, mas entretanto o nosso metabolismo não deixará de funcionar perfeitamente. Como diz o provérbio Zen, "Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são". Nunca precisámos de aprender a crescer, a digerir ou a respirar. Ser e viver está além do conhecer e compreender. Uma ideia jamais poderá substituir o espírito capaz de a conceber. O conhecimento é um subproduto, um resultado. O importante é aquilo que lhe é anterior e lhe está na origem: o estado de aprender e experimentar. E este é um estado de vazio e receptividade que só se manifesta plenamente quando não há qualquer esforço nem apego, nem luta por controlar ou alcançar.
Não há solução para este dilema senão o reconhecimento da nossa impotência. A renuncia a toda a volição e esforço. Abandonar completamente todos os problemas e voltar a atenção para a realidade imediata e presente, para este fluir ininterrupto e espontâneo que a todo o momento se desenrola de forma completamente livre e alheia a quaisquer que sejam os nossos motivos, desejos ou lucubrações. "Esquecer tudo é o meio supremo", diz a sabedoria Zen. Abandona todos os teus esforços e pretensões, estabelece-te na paz e quietude do silêncio interior, e aquilo que então restar, isso é que é real.
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terça-feira, 17 de setembro de 2013
Regressar à Própria Experiência
"Se é de conhecimento ou de sabedoria que andamos à procura, o melhor será irmos procurar diretamente à fonte. E esta não é o erudito ou o filósofo, não é o mestre, o santo ou o professor, mas a própria vida - a experiência direta de vida.".
Henry Miller, Os Livros da Minha Vida
Sendo a natureza humana a mesma que todos partilhamos, quem desvenda os seus segredos tem que forçosamente confluir para a mesma realidade e fazer as mesmas descobertas essenciais. Por isso é um erro achar que todas essas diferentes tradições, métodos, caminhos, religiões,... podem apresentar propostas fundamentalmente diferentes se realmente pretendem despertar e libertar o ser humano. Às vezes apenas confundem e atrapalham quem procura ajuda e esclarecimento. Se realmente é o mesmo ser humano que se procura mapear e libertar, que diferença pode haver nas verdades apontadas?! No entanto, frequentemente essas diferentes propostas apresentam-se como se cada uma delas tivesse a posse exclusiva das chaves do paraíso! Tantos pretensos mestres, tantos diferentes métodos e caminhos, tantas diferentes linhagens e tradições!!... Talvez que esta infindável peregrinação por livros e mestres, seja apenas um adiamento do único caminho que conduz ao esclarecimento e à verdade: decidir-se a estudar e investigar no laboratório sempre disponível da própria mente e do próprio coração!
A que se referem esses mestres, esses seres despertos e iluminados? Referem-se a algo implícito na minha vida? Ao meu ser autêntico e original? Algo intrínseco à minha própria natureza? Se assim é, então não faz sentido buscá-lo uma vez que já é manifesto na minha experiência. Basta-me ser fiel ao meu próprio ser, ser autenticamente eu mesmo. Se assim não for, se é algo alheio à minha vida, algo que tenho que obter, então também não faz sentido buscá-lo, pois é do campo do impermanente. E o que é impermanente não pode ser realizado, pois o que se obtém sempre se perde. É só quando regresso à minha própria experiência, ao ser autenticamente eu próprio, que posso encontrar seja lá o que for que os mestres me possam prometer. Afinal, como declarou Terêncio dois séculos antes de Cristo, "Sou homem! Nada de humano me é estranho!".
Este constante formular de novos problemas, esta necessidade de atualização com os novos livros e professores, este constante buscar e questionar, esta interminável atividade de arranjar pulgas para se coçar,... de onde provém? Não será do impulso tirânico da procura de segurança, garantias e permanência? Mas que entidade poderá beneficiar de toda esta atividade? Quem é este "eu" que deseja o nirvana ou a iluminação? Quem é o individuo que constantemente busca e se interroga e deambula entre diferentes mestres, caminhos e tradições? Terá existência real ou é apenas um produto da imaginação? Para quê insistir em fixar a forma das nuvens, escrever na água ou construir castelos de areia à beira mar?
Hoje muito daquilo que se escreve sobre "espiritualidade" e "não-dualidade" apenas procura esclarecer e solucionar problemas que foram criados precisamente pelas tentativas de expor estas matérias em palavras e conceitos. Uma mente confusa e iludida projeta a sua confusão em tudo aquilo para onde olha. Não é raro que as palavras apenas consigam multiplicar os problemas que procuram resolver. Afinal não serão as palavras que alimentam o pensamento onde se aloja o ego? Há um conto Zen que ilustra este dilema através da história de um pequeno peixe que era feliz, nadava e brincava no oceano, até ao dia em que ouviu um discurso sobre a água e a sua importância. A partir de então ficou obcecado pelo desejo de descobrir e obter tão precioso elemento!?! Foi assim que perdeu a sua paz e alegria.
Sempre será um dilema e um paradoxo procurar através das palavras, comunicar e partilhar com os outros uma realidade que as palavras nunca conseguem capturar. Como podemos nós através das palavras transmitir aquilo que só pudemos constatar quando nos livrámos de todas as palavras?! Só quando nos dispomos a aprender por nós próprios, quando não fugimos á nossa própria solidão, é que podemos estabelecer a relação correta com os livros e a leitura. Ramana Maharshi dizia que os livros apenas vieram corroborar aquilo que ele havia experimentado diretamente antes de os ter lido. Krishnamurti afirmava que lhe era insuportável ler "filosofia" e "espiritualidade", apenas valorizava a experiência direta e livre de quaisquer conhecimentos prévios.
Não se trata de criar uma atitude de evitamento e recusa perante os livros e os mestres. O que se trata é de compreender a relação que com eles estabelecemos, a atitude com que deles nos aproximamos, pois esta atitude é que em grande parte irá determinar o que deles iremos receber. É a nossa atitude e os nossos motivos que podem fazer que eles sejam para nós uma fonte de esclarecimento e partilha ou antes de perturbação.
Não se trata de criar uma atitude de evitamento e recusa perante os livros e os mestres. O que se trata é de compreender a relação que com eles estabelecemos, a atitude com que deles nos aproximamos, pois esta atitude é que em grande parte irá determinar o que deles iremos receber. É a nossa atitude e os nossos motivos que podem fazer que eles sejam para nós uma fonte de esclarecimento e partilha ou antes de perturbação.
É o espírito que dá vida às palavras, não são as palavras que dão vida ao espírito. Tu não podes ser informado primeiro para experimentar depois. Pelo contrário, só depois que experimentaste é que poderás compreender as palavras que o informam. "Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido" observou Herman Hesse.
Quando sabes escutar, de tudo podes aprender. Por isso se diz que "quando o discípulo está pronto, o mestre aparece". De outra forma como o poderia reconhecer?... Não é o mestre que produz em ti o despertar. É a tua intenção sincera de abrir a mente e o coração. Em nós mesmos é que descobrimos o essencial, através da investigação direta do nosso próprio viver e experimentar. Só depois é que os livros começam a fazer sentido. Na geografia terrena um mapa pode conduzir-nos a um tesouro, mas na busca de Deus, primeiro teremos que o encontrar, só depois é que podemos compreender os mapas que o indicavam.
A verdade é uma presença e não uma posse. A verdade não me pode ser dada por outrem. O contacto com a realidade é sempre direto e solitário. Dos outros tenho apenas o corpo e as palavras. Servimo-nos das palavras para comunicar. Mas em ultima análise, as palavras serão sempre uma barreira e não um veiculo. As palavras não transportam a realidade. As palavras não são o ser da realidade que é. Nada nos garante que estamos realmente em comunicação e comunhão com o outro. O outro procura comunicar utilizando palavras. Mas as palavras estão sujeitas a interpretação. A interpretação não é a ponte que nos leva à experiência do outro. É uma barreira que nos separa dessa experiência. Nenhum discurso sobre a água pode saciar a tua sede. Tens que levar os teus próprios lábios à fonte. E a experiência do contacto com a água é algo intimo e solitário. Por isso a comunhão só existe quando assumimos de uma forma plena e completa a solidão. Paradoxalmente, só na solidão pode ser encontrada a experiência plena e autêntica do amor unificador. Só na solidão deixamos de ser muitos para passarmos a ser um só. Apenas quem está só é que pode amar!
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O Silêncio Jamais Será Vazio
Repetidamente ouvimos os mestres falar e distinguir um ego ilusório do nosso ser real, "self" ou consciência. Então desejamos uma garantia ou critério que nos permita saber quando é que uma atividade se origina num ou no outro. Mas só o ego formula tal problema ou interrogação. Apenas a mente, o intelecto pode desejar e obter tal satisfação. Pode alguma atividade auto-centrada, isto é, motivada por interesse próprio, ter origem diferente do ego? Como poderia tê-la? Só o ego deseja eliminar o ego. A luta para te libertares do ego e da personalidade ilusória, é algo semelhante a procurar limpar a tua imagem de um espelho. Por mais tempo e esforço que despendas a esfregar a sua superfície, de cada vez que olhares irás ver nele a tua imagem refletida. Só quando te rendes à tua impotência, quando abandonas o problema e te retiras é que a imagem desaparece. Mas quem estará aí então para confirmar a ausência da imagem?
Só no total desapego se encontra liberdade. O fogo da compreensão consome-nos completamente. É só nesta morte psicológica que a ação está livre dos tentáculos do ego. Temos que desaparecer completamente. A renúncia tem que ser absoluta e incondicional. Só então o acto é lúcido e completo. O agente desaparece, há apenas ação. Termina a ilusão de uma existência separada. É este o significado de "Advaita" no experienciar da realidade: ser e existir liberto da ilusão da dualidade. É o fim do "eu" pessoal, a ausência de qualquer senso de individualidade. Desaparece a entidade separada que avalia, julga, conhece, controla, interpreta, rejeita ou aprova a experiência. Deixamos de existir noutra forma que não seja simplesmente como a luz que permite que a realidade seja. Somos então e apenas a consciência que dá vida e existência a tudo o que se experimenta. Mas não sob forma auto-consciente separada da experiência. Não existe ninguém para conhecer ou verbalizar esse estado. Por isso Dogen, o fundador do Soto Zen japonês, diz no Genjôkôan: "Estudar a via do Buda, é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se a si mesmo é ser uno com todas as coisas".
O que existe são as sensações, as emoções, os sentimentos, os sons, as cores,.... mas não existe nenhum sujeito ao qual estas coisas aconteçam. Jamais encontramos qualquer individuo ou pessoa, mas apenas experiência. O "eu", a entidade separada é uma ficção criada no pensamento, uma suposição sem qualquer fundamento, um significante sem significado. Se formos realmente honestos teremos de reconhecer que tudo o que
podemos encontrar é apenas experiência e jamais encontramos nenhum
experimentador. Nós não somos nada mais do que espírito ou presença, a condição para que todas as manifestações possam acontecer. Somos consciência impessoal, o invisível e imanifestado continente de todo o conteúdo. E deste jamais nos podemos abstrair. A consciência e as suas manifestações forma uma unidade. O som não está separado do silêncio que o acolhe. Toda a especulação que procure separar a consciência do seu conteúdo não passa de um exercício ocioso e artificial condenado ao insucesso.
Nós somos consciência. E a consciência assemelha-se à luz. Quando acendemos uma luz numa sala escura, o que vemos não é a luz, o que vemos são todos os objectos que ela tornou manifestos. Este é o significado autêntico do amor. O amor com nada se parece mais do que com a luz. Porque a luz nada tem de si própria. Não existe para si mesma, mas para dar existência a tudo o que existe. Todas as existências só o podem ser através dela. Sem ela nada pode ser. Mas ela nada é. Nós somos esse vazio feito consciência. Somos luz!... Apenas luz! Sem os objetos a luz perde a sua substância, sem a luz os objectos perdem o seu significado. A consciência precisa dos objetos para se poder reconhecer; os objetos precisam da consciência para poder existir. Interior e exterior é apenas um mesmo movimento inseparável e unitário. E o silêncio é a harmonia que impregna toda a experiência.
Por isso nos escritos Taoístas e Zen-Budistas, o espírito do homem livre é tantas vezes comparado a um espelho. Ele nada busca e nada repele. Tudo recebe sem nada reter. Cada nova imagem que surge na superfície do espelho apaga a que anteriormente ele refletia. Da mesma forma é a natureza vazia da consciência que lhe permite refletir de instante em instante o perpétuo fluir da realidade sempre cambiante. É como um rio a correr, nunca permanece o mesmo e no entanto está sempre cheio. Perdemos na realidade sempre que procuramos reter!
Como posso eu morrer se nunca for permanente? Como pode desaparecer o que nunca chegou a existir? Tal como as águas de um rio sou permanente renovação que nunca volta a percorrer o caminho percorrido. O silêncio jamais será vazio!
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Perguntas e Respostas - Quem Compreende o Quê?
"O dilema não é que o individuo compreenda ou não compreenda. O dilema é o individuo." -Tony Parsons
Isto é para ser compreendido por quem compreende. E isto é para não ser compreendido por quem não compreende. Tudo está bem como está. Só o esforço para converter o que é noutra coisa está a mais. Se não compreendes, mas não te esforças para compreender, então compreendes! Eu não falo de nada que requeira compreensão e esforço. Não há aqui nada a alcançar. Eu estou apenas a endereçar um convite que pode ou não ser aceite. Um convite à imobilização da mente, do tempo, do pensamento. E isto é apenas um modo de estar, de ser. Não é nenhuma meta ou compreensão que se alcança.
Tu deleitas-te a observar aquele
globo prateado que aparece no firmamento numa noite de luar. Mas eis que uma
nuvem passageira vem ocultar a lua. Tu queres ter de volta o luar e podes esforçar-te para arredar a nuvem que agora o cobre. Eu apenas te convido a
permanecer imóvel e a contemplar aquela nuvem. Ela também tem a sua
peculiar beleza. Tu não a convidaste nem a podes expulsar. As mesmas forças que a trouxeram se encarregarão de a levar.
O esforço para atingir a
experiência de um outro a partir das suas palavras e símbolos é inglório e
inútil. É uma necessidade ilusória. Cada um tem o seu próprio caminho a percorrer. Somos todos únicos. A totalidade de que
somos constituídos é formada por um conjunto de acontecimentos e experiências
que representam uma configuração única e irrepetível. Aquilo que um indivíduo
recorda e lhe é significativo, outro indivíduo esquece como destituído de
significado. Cada um de nós faz os seus próprios sublinhados nos livros que lê.
Um indivíduo fica indiferente a uma frase que para um outro se reveste de
profundo significado e o abala de uma forma vital.
Eu vejo algo! E porque o vejo e a
partir desse algo brotam as minhas palavras. Tu ouves as minhas palavras. E com
elas e a partir delas constróis algo. O que te garante que esse algo que
construíste com as minhas palavras é o mesmo algo a partir do qual as
minhas palavras foram construídas?
Podes continuar a fazer perguntas
e ficar ou não satisfeito com as minhas respostas. Mas na verdade não há
qualquer entidade que possa beneficiar dessas perguntas e dessas respostas. Tu
julgas que precisas das respostas às tuas perguntas para poderes atuar
adequadamente, para reagires corretamente à vida e aos seus desafios. Mas na
realidade, quando estás plenamente presente e a resposta é adequada e completa,
não existe a entidade que perguntava e se satisfazia ou não com as respostas. Aquele que busca respostas desaparece quando cessam as perguntas. É uma entidade que apenas existe
no processo de perguntas e respostas. A entidade que obtém respostas só existe
no processo de fazer perguntas. A libertação e a plenitude do teu ser não depende das respostas às tuas perguntas. Tu já és livre, pleno, completo
antes de obteres respostas às tuas perguntas, e és livre, pleno, completo,
depois de as obteres. És plenamente livre e completo mesmo antes que qualquer
pergunta, dúvida ou questão seja formulada.
Nenhuma pergunta requer resposta, porque a única resposta sempre consistirá no desaparecimento daquele que faz a pergunta. A tua existência plenamente
desperta, plenamente iluminada, plenamente consciente, não tem qualquer necessidade
de fazer perguntas e de obter respostas. Por mais respostas e conceitos que
procures acumular, o teu ser real constituí-se de amor. E quando
amas, o amor preenche-te completamente. Não sobra qualquer espaço para ti, para
o ego, para a aplicação de regras ou respostas. Ages de forma espontânea e natural. A
mente é que se alimenta de problemas, por isso necessita converter em
problema tudo aquilo em que toca.
Queres ser iluminado? Nenhum peixe sabe o que é a água. Nenhuma
criança sabe o que é a naturalidade e espontaneidade; nenhuma
águia, cujas asas se abrem naquela infinidade azul com desprezo pela terra
inteira, sabe o que é a liberdade. Aquele que
é generoso desconhece a generosidade. A autêntica beleza nunca resulta da vaidade.
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segunda-feira, 6 de junho de 2011
Sou Livre!
NÃO ME LIXEM!
SE EU NÃO FOR EU, QUEM O SERÁ POR MIM??
O segredo consiste em recuperar a inocência que nos roubaram!
Não é difícil. Afinal nunca a havíamos perdido!
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Silêncio e as Palavras - Crença e Realidade
A realidade do Ser e existir está antes e além de qualquer formulação conceptual. A falsidade e a ilusão é que dependem de conceitos e de crenças. A realidade do que é e do que existe não depende de crença ou formulação verbal. Qual a necessidade de crença? Só o que é falso necessita de ser suportado por crença. O que é real mantém-se por si mesmo. Na ausência de crença, a realidade não deixa de ser o que é. Apenas o que é ilusório desaparece. Podes não acreditar na gravidade, mas não deixarás de te despenhar se saltares de um avião sem para-quedas. A terra sempre girou em torno do sol, não passou a fazê-lo somente depois de Copérnico ou Galileu. Não precisas de saber o nome do rio para nele te poderes banhar. A autêntica realidade encontra-se além do verdadeiro e do falso. Estes conceitos apenas dizem respeito a frases e proposições. Mas a realidade é anterior, transcendente e independente da sua formulação verbal. A mentira não tem qualquer forma de subsistência para além da dimensão verbal. Não há qualquer necessidade de combater a mentira. Temos apenas de iluminar a verdade. Na ausência de palavras não subsiste a mentira. No silêncio apenas a realidade está presente. Na ausência de nomes e palavras a mentira encontra-se desprovida do único alimento que a sustenta. O silêncio apaga a mentira. Faz com que a verdade brilhe no seu máximo esplendor. Purifica a visão da realidade.“O silêncio é a única linguagem capaz de expressar a totalidade da verdade!" -Ramana Maharshi
É um esforço inútil e é completamente ilusório procurar sustentar uma batalha contra o ego. O ego não é uma entidade. É apenas uma atividade. Tão efémera e intermitente como qualquer outra atividade. Procurar combater ou eliminar o ego é atribuir-lhe realidade. À semelhança daquelas pessoas que se munem de amuletos e se dedicam a exorcismos e rituais, alimentando dessa maneira os próprios fantasmas que julgam combater. O ego consiste precisamente neste processo de criar ilusões. Travar uma guerra contra o ego é como utilizar gasolina para apagar um fogo. Não existe tal coisa como um "ego" separado das atividades que o sustentam. E a luta contra o ego é precisamente uma dessas atividades. O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura suprimir.
O ego não é nada mais que desejo e aversão, escolha e rejeição, memória e interpretação. Não existe um ego que atua. Estas atividades são elas mesmas o próprio ego. Na ausência de pensamento, quando a mente está em silêncio, não existe tempo, não existe condicionamento, não existe ego. Aquele que se procura libertar só existe na cela de uma prisão. O escravo não se torna livre. A liberdade é o findar tanto do escravo como da prisão. A liberdade não tem qualquer relação com a escravidão. O escravo que se procura libertar nunca deixará de ser escravo. Tanto o escravo como a liberdade que ele projeta e idealiza fazem parte das grades da prisão.
O ego não é nada mais que desejo e aversão, escolha e rejeição, memória e interpretação. Não existe um ego que atua. Estas atividades são elas mesmas o próprio ego. Na ausência de pensamento, quando a mente está em silêncio, não existe tempo, não existe condicionamento, não existe ego. Aquele que se procura libertar só existe na cela de uma prisão. O escravo não se torna livre. A liberdade é o findar tanto do escravo como da prisão. A liberdade não tem qualquer relação com a escravidão. O escravo que se procura libertar nunca deixará de ser escravo. Tanto o escravo como a liberdade que ele projeta e idealiza fazem parte das grades da prisão.
É por isso que a libertação é tantas vezes apresentada como um processo imediato. Os mestres Zen são os mais pragmáticos, os mais diretos e menos pacientes a este respeito. Não têm paciência para discursos, racionalização e argumentos. O que fazem é renunciar a todo o conhecimento discursivo, a toda a especulação e esforço, para se estabelecerem na gratuitidade e simplicidade deste momento eternamente presente, a realidade atemporal do aqui e agora.
Se nalgum momento a leitura destas linhas suscitar alguma dificuldade ou esforço de compreensão, isso mais uma vez é devido ao desejo de conhecimento, de certeza e segurança. É preferível renunciar a seja o que for que estamos a procurar obter do que converter isto num problema a resolver. Tudo o que esse esforço e essa atividade poderá conseguir será meramente uma satisfação momentânea. Enquanto procurarmos satisfazer esse desejo de segurança, ele terá que ser satisfeito uma e outra vez indefinidamente. O problema terá que ser resolvido repetidamente e jamais alcançaremos satisfação permanente. Porque a satisfação do desejo de segurança é sempre momentânea, tem validade a prazo. Nada de duradouro e permanente pode surgir da atividade do pensamento. O que um pensamento constrói, outro pensamento pode destruir. A própria mente tem uma existência intermitente.
Havia um homem que a intervalos regulares polvilhava com um certo pó todas as divisões da sua casa. Quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu: «É para afastar os fantasmas e espíritos malignos!». «Mas aqui não há fantasmas ou espíritos!», disseram-lhe. «Claro!», respondeu o homem, «porque o pó os mantém à distância!». Enquanto procurarmos satisfazer o anseio de certeza, jamais saberemos se essa necessidade é real ou ilusória.
Enquanto julgarmos que precisamos da experiência e do conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios e circunstâncias, teremos medo de dispensar todo o nosso aparato conceptual. Mas enquanto não o fizermos, jamais poderemos saber se ele é ou não necessário. Jamais saberemos o que é a liberdade e o amor. Através dos mecanismos do medo e das atividades por ele engendradas, jamais poderemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.
Enquanto julgarmos que precisamos da experiência e do conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios e circunstâncias, teremos medo de dispensar todo o nosso aparato conceptual. Mas enquanto não o fizermos, jamais poderemos saber se ele é ou não necessário. Jamais saberemos o que é a liberdade e o amor. Através dos mecanismos do medo e das atividades por ele engendradas, jamais poderemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.
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