A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






Mostrar mensagens com a etiqueta Desejo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desejo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

”NENHUM FLOCO DE NEVE CAI NO LUGAR ERRADO”


A impermanência e transitoriedade é a condição inevitável de todos os estados e experiências. Não existe um estado de perpétua iluminação e bem-aventurança. Essa é uma ideia errada. Mesmo os mestres que admiramos e reverenciamos não vivem num estado de permanente nirvana e ininterrupta felicidade. Não acredites naquela história em que um autor fala de um passeio na floresta, um maravilhoso contemplar do pôr-do-sol à beira-mar, um acordar após uma noite de angustia existencial ou outra experiência qualquer, em que de repente é atingido pela flecha iluminada do nirvana ou um raio de compreensão súbita que lhe desvenda os segredos do universo, passando então a viver num estado de êxtase iluminado e felicidade permanente. Isso não existe! É apenas um estratagema literário que empresta certo colorido romântico ao discurso mas sem rigorosa correspondência na realidade.

Essencialmente todos passamos pelas mesmas dúvidas e perplexidades. Julgávamo-nos já definitivamente instalados no jardim do Éden e constantemente nos vemos expulsos do paraíso. O jogo da mente é muito subtil. Consideramos um estado ou experiência como o correto ou satisfatório e quando outro estado se nos depara julgamos que há alguma coisa errada. Não há nada de errado se nós assim o não considerarmos! O problema só é criado pelo pensamento que julga, avalia e compara.

Para o nosso estado natural, o nosso ser mais profundo e essencial, não há quaisquer problemas, nem desejos ou aversões. Tudo o que surge é aceite e permitido. As coisas são vividas tal como se apresentam, sem rejeição nem apego. Ninguém tem o controle. Nós nada podemos fazer. O segredo está em não discutirmos, não lutarmos. Para sermos plenos e completos devemos permitir-nos experimentar tudo. O sábio não é um ser humano perfeito, é um ser humano total!

O desejo por experiências, mesmo as mais nobres e espirituais, é como outro desejo qualquer. Enquanto houver alguém a avaliar e escolher o que é espiritual e não é, a rejeitar uma experiência e procurar reter outra, a perseguir determinados estados particulares que se procuram repetir e capturar, estaremos sob o domínio da ilusão. Se compreendemos que tudo é impermanente, então nenhum estado tentaremos produzir, nenhuma perturbação evitar, nenhum prazer desejaremos reter, nenhuma experiência rejeitar!

Aquilo que realmente somos, a nossa natureza essencial, não tem nada a ver com estados e experiências de índole particular. O Ser está presente em todas as experiências. Quando vivemos desde o nosso estado natural, da pura consciência impessoal que somos, não há desejo, nem esforço, nem gostos ou aversões, não há escolha, avaliação ou comparação. Nem sequer há palavras a tentar descrever, explicar, definir. Há apenas atenção e silêncio. Apenas disponibilidade e vazio... pura receptividade, paz, quietude! E nem mesmo existe alguém para saber disto. Não há ninguém para saber coisa nenhuma. E é maravilhoso e magnífico! Mas não tem nada a ver contigo ou comigo. Nós nada podemos fazer. Nada podemos produzir. É Graça total!

Com a aceitação vem a paz. A constante atividade mental de calcular, julgar, resistir ou aprovar é que complica a vida. Tudo flui, nada permanece! A vida é como um rio a correr. Às vezes a água vai mais clara, outras vezes mais turva, às vezes leva alguma sujidade, mas se não a estancarmos, acaba sempre por retornar à pureza original. O importante é não nos rebelarmos, não julgarmos que devíamos fazer ou sentir alguma coisa diferente do que fazemos ou sentimos, ou que as coisas deviam ser de outra maneira. Tudo é como deve ser! Tudo está bem como está! Ao longe todos os acidentes se alisam. À distância todos os percalços ganham sentido. Por maior que seja a agitação das ondas, sob uma perspetiva mais ampla o mar é sempre sereno

”Nenhum floco de neve cai no lugar errado”, diz o ditado Zen. O fim da dualidade significa o calar daquele comentador cá dentro, sempre a emitir juízos e avaliações, a condenar ou a aprovar, a dizer o que é correto e o que não é, o que está bem e o que está mal. Nós somos imensos. Somos maiores do que a mente. Maiores do que qualquer coisa que possamos pensar. Do que isto trata não é de sermos iluminados e perfeitos. Trata-se de sermos íntegros, completos. O importante é aquilo que é real e não o que desejamos ou perseguimos.

 Aquilo a que devemos aspirar é total e completa liberdade. E nunca seremos plenamente livres enquanto houver coisas que perseguimos e coisas que rejeitamos. Nenhuma moeda pode existir com uma única face. Queremos felicidade sem dor, mas não se pode ter um arco-íris sem um pouco de chuva. Por isso sê benevolente contigo próprio. Permite-te ser visitado por todos os anjos e demónios, "simplesmente não lhes sirvas chá", como advertia um sábio mestre Zen. Eles vêm sem que tu os tenhas chamado e partirão do mesmo modo como vieram.

Uma história budista conta que certa vez um rei se dirigiu a um homem sábio para lhe pedir uma fórmula que sintetizasse toda a sua sabedoria. Então o sábio entregou-lhe um anel com um simples aforismo que devia recordar em todos os seus encontros com a vida. Continha apenas três palavras: “Isto também passará!”. Esta história nada tem a ver com a atitude “new age”, nem é nenhuma apologia do pensamento positivo ou da coragem perante a adversidade. É um convite à descoberta de uma paz e serenidade que subjaz além de todos os estados e circunstâncias. Ao desapego e desidentificação perante todas as situações e experiências, quer sejam de dor e sofrimento, quer de êxtase ou iluminação.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O EGO E A BUSCA





“Observa a tua experiência e vê o que sucede quando te dás a oportunidade de experimentar a desorientação do buscador espiritual que deixa de procurar uma experiência diferente da que ocorre neste preciso instante. Talvez sintas que o buscador se dissolve e surge a paz, aquela paz que era perseguida pelo buscador.” -Adyashanti
                                                                    
Há uma fábula Zen que conta a história de um peixe que, depois de ter ouvido um discurso sobre a água, se envolve numa busca interminável à procura desse "elemento tão precioso". Muitas vezes é o próprio nomear e conceptualizar que gera os problemas que procura resolver. Já me tenho perguntado se haverá alguma forma de falar destas coisas sem que involuntariamente se alimente o próprio ego que se quer dissolver. É muito difícil ler ou ouvir discursos sobre espiritualidade, a não-dualidade, paz, vazio, unidade, etc. sem que o ego se aproprie dos conceitos e os converta em novos objetos de busca e de desejo. Daí o perguntar: como posso alcançar, realizar, obter, etc.?

É urgente e fundamental perceber que a demanda por estas coisas jamais poderá ser satisfeita, porque o ego, o buscador, não vai estar lá para o experimentar e reconhecer. Não há qualquer esperança para a busca, porque na verdade o que o buscador almeja é o estado da sua própria ausência!... Mas isso é algo que o buscador jamais poderá conhecer ou experimentar!   

O ego é uma entidade fictícia que só surge (ou se torna aparente) quando há resistência ao que é, a favor de algum ideal. O ego não é nenhuma entidade, é apenas uma atividade. A mente, o individuo, o agente, o ego, ou como lhe queiramos chamar, é gerado pela própria resistência e compulsão. Não tem qualquer solidez ou permanência. Só parece existir enquanto temos um objetivo que perseguir, um desejo a realizar, algo que adquirir ou rejeitar. É por isso que o desejo de nos libertarmos do ego não passa de combustível para o alimentar. A luta e o esforço na dimensão psicológica sempre mantém e fortalece aquilo contra o qual se luta.

Uma das nossas maiores dificuldades é que não percebemos a natureza ilusória do ego em toda a sua extensão. Podemos reconhecer a futilidade da atividade egocêntrica na busca de prazer, intoxicação, dinheiro, prestigio, reconhecimento, poder, etc., no plano mundano. Mas não percebemos que é o mesmo processo que funciona quando nos viramos para o chamado mundo espiritual e nos envolvemos nas mais diversas atividades a fim de conseguirmos o passaporte que nos leve ao nirvana ou à iluminação. Não percebemos que é a mesma entidade ilusória que se senta aos pés do guru, devora toda a literatura sagrada e formula todo o tipo de dúvidas e questões a fim de garantir que não comete qualquer erro em direção à meta espiritual. Julgamos este “ego espiritual” dotado de algum tipo de permanência ou superioridade, mas a sua natureza é tão efémera e ilusória como aquele ego mundano de que nos quisemos libertar.

E qualquer coisa que queiramos fazer a fim de corrigir esta situação será sempre mais do mesmo. Todo o acto intencional, toda a ação envolvendo o esforço e a vontade consciente é sempre produto da mesma ilusão. Toda a substituição, todo o abandono do "incorreto" para fazer o "correto", toda a renúncia com desejo de ganho, não passam de movimentos no interior da prisão. Quando queremos alcançar, capturar, possuir a experiência da ausência do ego, o "nirvana" ou a "iluminação", a mente é o único instrumento de que dispomos. Mas é um instrumento completamente inadequado. Porque a mente é o instrumento da intenção e da vontade, e a intenção e a vontade é a positiva manifestação do ego. O ego é o próprio centro do esforço e da volição. Só um “eu” pode querer acabar com o “eu”. Então, que fazer?... Nada!... Simplesmente parar, relaxar!... Apenas observar, respirar, escutar, sentir!... E isto não é nenhum "fazer". É o simples funcionamento natural! 

O paradoxo é que a maioria das pessoas converte a abordagem de «não fazer nada» numa nova prescrição ou atividade. A mente está viciada no fazer! Quando nos dizem para «simplesmente ser!», a mente tratará imediatamente de procurar «ser» da forma correta. No momento em que nos dizem para «não  nos envolvermos com os pensamentos», imediatamente criamos um «pensamento gestor» para ficar de guarda e garantir que nenhum pensamento é tocado. Esse gestor ou controlador é apenas o ego com uma nova roupagem. 

A mente não pode fugir de si mesma! O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura eliminar. O jogo da mente é muito subtil. O ego tem uma enorme capacidade de metamorfose. Quando assumimos que temos uma mente doente e confusa e desejamos promover uma transformação, quem é a entidade que deseja promover tal mudança? É essa mesma mente doente e confusa! É a mesma mente e não uma mente diferente! Só há uma mente e está toda ela doente. Não há uma parte sã que vai curar outra parte aleijada. O ego não passa de uma parte da mente a procurar moldar a outra parte. Parece ser o agente, o pensador, mas não passa de um pensamento, uma sensação enganosa. É por isso que o auto-aperfeiçoamento, o esforço para nos melhorarmos, não passa de uma falácia ilusória. É tão inútil como a atividade do cão às voltas atrás da própria cauda. A paz e serenidade vem quando reconhecemos a nossa impotência e abandonamos o problema. Se formos verdadeiramente honestos, tudo o que podemos fazer é desistir de todos os nossos intentos e esforços, porque qualquer coisa que esse agente faça permanece dentro da esfera da ilusão. 

É por isso que a arte da meditação é uma atitude de total aceitação em que cessa toda a fuga, toda a luta e resistência e nos permitimos viver plenamente o momento tal como ele se apresenta. Nunca se tratou de trilhar o caminho da iluminação, da verdade ou da felicidade. Os momentos de despertar sempre consistiram em desmascarar a fraude e a inutilidade de todos os esforços e de todos os caminhos. O verdadeiro despertar significa apenas um percebimento claro de que tu nada podes fazer para o produzires. Trata-se de um abandono, uma "rendição" e não uma conquista. A iluminação não é um resultado que possas conseguir em virtude de aplicares o método ou os ingredientes corretos. A transformação não pode ser deliberadamente calculada e produzida. Sucede de forma espontânea, na ausência de qualquer pretenso agente transformador. 

A autêntica liberdade é a completa extinção de toda a necessidade de manipulação e controlo. Quando nos confiamos ao colo divino já nada precisamos fazer ou buscar, nada precisamos saber, nada há que explicar ou compreender. A vida é puro gozo, puro fruir. Não é nenhum trabalho, nenhuma corrida de obstáculos, nenhum puzzle que temos de montar. É de uma simplicidade absoluta e magistral. Por isso a tal "iluminação" ou "despertar" é tantas vezes associada a uma gargalhada de alivio e prazer! Um alivio que não é resultado de qualquer conquista ou objetivo que tenhamos alcançado, pelo contrário, advém de termos renunciado a todas as nossas exigências  e pretensões. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

JÁ ÉS AQUILO QUE PROCURAS



“A verdade ou a realidade não pode ser armazenada, não pode ser retida -  não é acumulável. O valor de qualquer intuição, compreensão ou realização só pode estar na eternamente fresca presença do momento. A realização de ontem agora está morta,  já perdeu a sua vitalidade. É inútil procurar suster-se ou aferrar-se  a algum insight, compreensão ou realização, porque só no seu movimento existe a possibilidade de que surjam sempre novas e frescas intuições sobre a verdade ou a realidade. A ideia da iluminação ou auto-realização como um único evento, ou como um estado ou experiência permanente ou duradoura, é uma concepção errónea”.    - Sailor Bob Adamson
                                          
O dilema e a tragédia de quase todos os buscadores é que, depois de terem um "insight" revelador, uma experiência de "despertar", ficam eternamente presos na armadilha de a procurar reproduzir ou capturar ou nela permanecer. O segredo está em não te aferrares a nada, nem mesmo a qualquer experiência de despertar. Abandona a tua memória de experiências, estados e realizações. São apenas cinzas mortas sem qualquer vida ou substância. A memória é apenas distração. A verdade é sempre viva e vibrante. Este momento nunca aconteceu. Nunca nada se repete.  "Jamais voltes ao lugar onde foste feliz!", diz a canção, "...Nada do que por lá vires será como no passado. Não queiras reacender um lume já apagado!"

Não te aferres a quaisquer palavras ou conceitos, a nenhum estado, experiência ou conhecimento, porque ao fazê-lo acabas inevitavelmente por ofuscar a consciência onde todos esses elementos de forma espontânea emergem. Um espelho não retém as imagens que reflete. Não queiras guardar lembranças através de palavras mortas. Só podes guardar conceitos, não a verdade. Poderás registar as palavras que brotam da claridade, mas elas jamais poderão substituir aquela claridade que as fez emergir. O homem pensante não pode substituir o homem vivente. O pensamento não pode substituir a consciência. O intelecto não pode captar a vida. É a vida que integra o  intelecto 

A "coisa" como aparece no pensamento, como é invocada na memória, nada tem a ver com a experiência real, anterior e independente dessa invocação. Aquele que recorda a experiência não é o que a viveu e experimentou. São duas dimensões e duas realidades completamente diferentes e que se excluem mutuamente. Quando estás completamente imerso numa melodia não pensas que a estás a ouvir. Porque o pensamento funciona como distração. É como um véu que se interpõe entre ti e a vivência direta da realidade. Quando tenho um orgasmo não penso nele, experimento-o! Só penso nele quando já terminou. Uma criança não pensa na felicidade, ela simplesmente é feliz. A "ideia da coisa" nada tem a ver com a "vivência da coisa" sem ideia. A ideia é colorida pela memória psicológica da dor e do prazer, o mecanismo de rejeição e apego, aversão e desejo. Todo este processo é alheio ao sabor da experiência original. Por isso Shunryu Suzuki, o mestre Zen, declarou: "Tão pronto como vês algo e começas a intelectualizá-lo, aquilo que intelectualizas já não é o que viste!" Claro que não é o que viste! A mente não pode ver nada. O intelecto lida com símbolos e palavras e não com a realidade. O pensamento é apenas um subproduto, uma pálida sombra da percepção, jamais a poderá substituir. A mente envolve-te num mundo ilusório de conflitos, lutas e esforços completamente desnecessários.

Podes invocar a memória de um estado, uma experiência ou um "insight" com a intenção de o reviveres, de o ressuscitares, ou de obteres uma fórmula que o torne permanente. Mas repara: quando originalmente essa experiência aconteceu, foi ela resultado de alguma atividade volitiva da tua parte? Ela sucedeu na sequência de algum esforço deliberado tendo em vista produzi-la? Estava presente a memória de alguma experiência que se procurava ressuscitar? Foi produto ou consecução de algum desejo? Havia alguma intenção de alcançar algo? Algum agente ou algum processo envolvido? Não, pois não? Ela surgiu de forma totalmente inesperada, não foi? Aconteceu por si mesma, de forma espontânea, sem qualquer intervenção consciente da tua parte. A verdade é que tu (a atividade do cálculo, do pensamento, do esforço, da volição e do desejo) não estavas aí quando isso sucedeu. A tua pessoa como agente nunca foi necessária. Tu estavas completamente ausente. Então porque queres agora ser um interveniente no processo? Porque te queres tornar parte da equação? Não é essa atitude completamente ilógica e insana? Além disso, para quê despender esforço e energia em busca de uma experiência que pela sua própria natureza é efémera e passageira?

Andas em busca de Deus? Da felicidade? Da iluminação? De alguma suprema realização ou compreensão? Esquece tudo isso. As palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação entre ti e a realidade. São estes conceitos que te impedem de ver que tu já és aquilo que procuras. Tudo está já presente. Nada da tua parte é requerido. Tudo é uma dádiva gratuita da consciência. Não podemos entrar no reino da felicidade, levando connosco a ganância, a cobiça e o desejo. Esse reino só permite a entrada a quem se apresenta completamente despido no coração e no espírito. Neste caso a nossa vontade de posse e domínio só pode resultar na morte da galinha dos ovos de ouro. Erramos e perdemos ao procurar conhecer e conquistar. Jamais poderás ter a receita da felicidade, porque no reino da felicidade não entra aquele que tem uma receita que procura aplicar. A felicidade é uma dádiva gratuita àquele que dela não se quer apropriar. Poderás usufruir, mas jamais arrecadar.

Tu não existes como um agente autónomo e independente, separado do mistério e da graça divina. És a manifestação perfeita e inseparável desse mistério e dessa graça. És consciência clara, luz imaculada, eternamente presente e imutável. E Isso é algo que tu jamais poderás perder, jamais podes esquecer. Qualquer distância entre ti e Isso é  apenas imaginária, não passa de uma ilusão. Porque Isso é o que tu és. E não podes afastar-te de ti próprio. Jamais podes deixar de ser Isso que tu és. És sempre essa presença consciente, vazia e transparente que torna possível todo o ver e experimentar. Quando julgas que a perdeste ou esqueceste, só podes ter perdido ou esquecido algum conceito, algum estado, memória ou experiência que com ela identificaste. Mas foi apenas um equivoco. O que tu és jamais pode ser perdido ou esquecido. Porque só na presença disto, desta luz imóvel e imutável, é que podem suceder  e desfilar todos os estados transitórios, todas as experiências passageiras, toda a claridade e confusão, todo o lembrar e esquecer. Tu és essa luz! Sempre foste essa luz! Nunca poderás ser outra coisa que não seja essa luz. O que deves valorizar não são as coisas que a consciência percebe mas sim a consciência que percebe as coisas.

Ver isto não é uma questão de aperfeiçoar os conceitos, de encontrar as palavras adequadas, de formular definições mais perfeitas e rigorosas. O que acontece é que isto não pode ser captado mediante nenhum conceito, nenhum raciocínio, nenhum processo especulativo ou intelectual. Nenhuma ideia poderá jamais substituir o espírito capaz de a conceber.  Deixa de confiar na mente. A mente nada te pode mostrar. Ela apenas te ilude e confunde. Tens apenas de olhar, ver! Não tens de pensar! Ver, experimentar, sentir, escutar... antecede todo o pensar e raciocinar. Por mais fiel que seja a reprodução de um lago numa pintura, jamais nela  te poderás banhar. Não podes saciar a sede com a imagem de um copo de água. Trata-se de abandonar completamente toda a conceptualização e simplesmente olhar a realidade que está presente além dos nomes e palavras. É o simples acto intuitivo de apreensão daquilo que está presente na experiência imediata e não requer qualquer raciocínio, esforço ou elaboração. Daquilo que está ao dispor de qualquer criança, qualquer analfabeto, qualquer animal. É tão simples e tão óbvio que nos passa completamente despercebido. É como se alguém andasse desesperadamente à procura dos óculos que tem colocados sobre o nariz e que são precisamente o que lhe permite ver e procurar.

Lamentavelmente a própria tentativa de procurar comunicar isto por palavras pode, involuntariamente,  pôr em marcha o mecanismo que é necessário suspender para que isto possa ser visto. Porque o acto de percepção direta e imediata da realidade acontece num nível diferente daquele que permite a tradução e interpretação verbal da experiência. É por isso que, às vezes, uma criança ou um homem sem instrução talvez  estejam em melhores condições de o apreender. Um homem que não aprendeu a ler poderá não entender a ementa dum restaurante, mas não verá diminuída a sua capacidade de se alimentar. No entanto nem a mais completa e exaustiva das ementas poderá impedir que ele morra à fome se nada tiver que comer. As coisas não são as palavras que inventamos para as nomear. O símbolo não é a realidade, a palavra não é a coisa. O ver e experimentar não é função do pensamento ou da atividade conceptual. Esta atividade tem que ser posta de lado para que o ver tenha lugar.

Estamos a apontar para aquilo que é o indicador mais primordial, óbvio, claro e evidente da nossa existência: a presença indubitável da consciência. Nada mais do que isto. Nós somos esta consciência. Ela é tudo o que sempre julgámos que precisávamos de buscar sem nos apercebermos que nunca dela estivemos separados. Só ela representa a realidade última e primeira pois é a condição que precede todo o fenómeno e experiência. Como poderias pensar, sentir ou perceber seja o que for, sem que primeiro esteja presente a consciência que te permite pensar os pensamentos, sentir os sentimentos, perceber e experimentar tudo aquilo que percebes e experimentas?

Aquilo que sempre buscaste é na verdade a única coisa que sempre tiveste!... Porque é aquilo que tu és, aquilo que sempre foste e jamais deixarás de ser! Nunca serás nada menos e nada mais do que consciência. É só isto o que tens de reconhecer. Nada mais precisas compreender ou alcançar. Tudo o mais não passa de histórias e invenções da mente sem qualquer utilidade ou fundamento. Essas histórias não te podem ajudar, não te podem completar, nada te podem trazer ou acrescentar. Elas apenas te podem distrair do essencial. Tu já és completo, sempre foste, nada precisas buscar. A consciência que tu és, é tudo o que precisas ser. É dela que se origina tudo aquilo que buscas e desejas, tudo o que alguma vez poderás almejar, sentir, viver, experimentar. Não precisas de um mapa para caminhar. Tu próprio já és a luz que ilumina o caminho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Silêncio e as Palavras - Crença e Realidade


“O silêncio é a única linguagem capaz de expressar a totalidade da verdade!"  -Ramana Maharshi                                                                                 
A realidade do Ser e existir está antes e além de qualquer formulação conceptual. A falsidade e a ilusão é que dependem de conceitos e de crenças. A realidade do que é e do que existe não depende de crença ou formulação verbal. Qual a necessidade de crença? Só o que é falso necessita de ser suportado por crença. O que é real mantém-se por si mesmo. Na ausência de crença, a realidade não deixa de ser o que é. Apenas o que é ilusório desaparece. Podes não acreditar na gravidade, mas não deixarás de te despenhar se saltares de um avião sem para-quedas. A terra sempre girou em torno do sol, não passou a fazê-lo somente depois de Copérnico ou Galileu. Não precisas de saber o nome do rio para nele te poderes banhar. A autêntica realidade encontra-se além do verdadeiro e do falso. Estes conceitos apenas dizem respeito a frases e proposições. Mas a realidade é anterior, transcendente e independente da sua formulação verbal. A mentira não tem qualquer forma de subsistência para além da dimensão verbal. Não há qualquer necessidade de combater a mentira. Temos apenas de iluminar a verdade. Na ausência de palavras não subsiste a mentira. No silêncio apenas a realidade está presente. Na ausência de nomes e palavras a mentira encontra-se desprovida do único alimento que a sustenta. O silêncio apaga a mentira. Faz com que a verdade brilhe no seu máximo esplendor. Purifica a visão da realidade.

É um esforço inútil e é completamente ilusório procurar sustentar uma batalha contra o ego. O ego não é uma entidade. É apenas uma atividade. Tão efémera e intermitente como qualquer outra atividade. Procurar combater ou eliminar o ego é atribuir-lhe realidade. À semelhança daquelas pessoas que se munem de amuletos e se dedicam a exorcismos e rituais, alimentando dessa maneira os próprios fantasmas que julgam combater. O ego consiste precisamente neste processo de criar ilusões. Travar uma guerra contra o ego é como utilizar gasolina para apagar um fogo. Não existe tal coisa como um "ego" separado das atividades que o sustentam. E a luta contra o ego é precisamente uma dessas atividades. O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura suprimir.

O ego não é nada mais que desejo e aversão, escolha e rejeição, memória e interpretação. Não existe um ego que atua. Estas atividades são elas mesmas o próprio ego. Na ausência de pensamento, quando a mente está em silêncio, não existe tempo, não existe condicionamento, não existe ego. Aquele que se procura libertar só existe na cela de uma prisão. O escravo não se torna livre. A liberdade é o findar tanto do escravo como da prisão. A liberdade não tem qualquer relação com a escravidão. O escravo que se procura libertar nunca deixará de ser escravo. Tanto o escravo como a liberdade que ele projeta e idealiza fazem parte das grades da prisão.

É por isso que a libertação é tantas vezes apresentada como um processo imediato. Os mestres Zen são os mais pragmáticos, os mais diretos e menos pacientes a este respeito. Não têm paciência para discursos, racionalização e argumentos. O que fazem é renunciar a todo o conhecimento discursivo, a toda a especulação e esforço, para se estabelecerem na gratuitidade e simplicidade deste momento eternamente presente, a realidade atemporal do aqui e agora.

Se nalgum momento a leitura destas linhas suscitar alguma dificuldade ou esforço de compreensão, isso mais uma vez é devido ao desejo de conhecimento, de certeza e segurança. É preferível renunciar a seja o que for que estamos a procurar obter do que converter isto num problema a resolver. Tudo o que esse esforço e essa atividade poderá conseguir será meramente uma satisfação momentânea. Enquanto procurarmos satisfazer esse desejo de segurança, ele terá que ser satisfeito uma e outra vez indefinidamente. O problema terá que ser resolvido repetidamente e jamais alcançaremos satisfação permanente. Porque a satisfação do desejo de segurança é sempre momentânea, tem validade a prazo. Nada de duradouro e permanente pode surgir da atividade do pensamento. O que um pensamento constrói, outro pensamento pode destruir. A própria mente tem uma existência intermitente.

Havia um homem que a intervalos regulares polvilhava com um certo pó todas as divisões da sua casa. Quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu: «É para afastar os fantasmas e espíritos malignos!». «Mas aqui não há fantasmas ou espíritos!», disseram-lhe. «Claro!», respondeu o homem, «porque o pó os mantém à distância!». Enquanto procurarmos satisfazer o anseio de certeza, jamais saberemos se essa necessidade é real ou ilusória.

Enquanto julgarmos que precisamos da experiência e do conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios e circunstâncias, teremos medo de dispensar todo o nosso aparato conceptual. Mas enquanto não o fizermos, jamais poderemos saber se ele é ou não necessário. Jamais saberemos o que é a liberdade e o amor. Através dos mecanismos do medo e das atividades por ele engendradas, jamais poderemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.

domingo, 8 de maio de 2011

Ser e Vir-a-Ser


A atividade visando o auto-aperfeiçoamento,  a vontade deliberada de transformação, a luta e o esforço para nos convertermos no que idealizamos, é sempre inútil. Porque o pensador, a entidade que utiliza o pensamento para se auto-aperfeiçoar, para se engrandecer ou diminuir, para atingir ou alcançar, é uma entidade fictícia, ilusória. É apenas uma sensação aparente, uma projeção ou invenção do pensamento. O pensador só parece ter realidade enquanto decorre o processo de pensamento. Mas na verdade faz parte do pensamento e não subsiste quando este termina. Não tem maior solidez ou permanência que o próprio pensamento. É uma entidade fictícia, efémera e passageira, à qual o pensamento atribui permanência. Na realidade não existe pensador mas apenas pensamento. É um processo unitário e não dois processos separados. É na desmontagem desta ilusão de dualidade e separação, que consiste aquele insight a que chamamos "despertar". Esta compreensão põe fim ao esforço volitivo do pensamento e promove a integração interior. Na ausência de pensamento, o que permanece é o Ser ou Consciência impessoal, que não beneficia de qualquer aquisição ou renúncia elaborada pelo pensamento. Esta Consciência é o que nós somos na realidade e não é susceptível de aperfeiçoamento ou modificação. É sempre plena, transparente, luminosa, completa. 

O que significa dizer que não há ninguém para compreender? Ninguém para se libertar? Ninguém para se iluminar? Significa que é artificial e ilusória a separação entre a ação e o agente, entre o pensador e os seus pensamentos, entre o buscador e as suas metas. Esta aparente figura separada não passa de uma invenção. É por isso que quando te criticas ou julgas a ti próprio és vitima de uma ilusão. Crias dentro de ti uma divisão que na realidade não existe. O teu Ser é uno e não dual. O importante é não lutares contigo próprio. É inútil e ilusório estabelecermos dentro de nós mesmos uma fragmentação ou divisão em que uma parte procura consertar ou aperfeiçoar a outra. Tal como é ilusório procurar abstrair da compreensão uma entidade que compreende. Este esforço está condenado ao fracasso. A entidade que recorda e avalia, que procura reter ou recuperar, não existe no exato momento da experiência. É uma invenção à posteriori. O experimentador e a experiência constituem uma unidade. Não existe um experimentador permanente separado das suas experiências transitórias. Mas o viver e experimentar permanece em meio à transitoriedade de todas as experiências.

Eu agora compreendo claramente a futilidade do apego e do esforço para reter a compreensão. Mas é inútil fazer estes registos tendo como motivo o desejo de tornar permanente esta compreensão. Não devo converter isto que estou a escrever numa ideia a reter para servir de guia na ação. Eu não estou a produzir uma receita que me garanta a repetição desta claridade e de futuras compreensões. Eu não tenho o controle, de nada sou o autor. A compreensão vem a mim e apazigua a minha mente assim como os raios de sol aquecem a minha pele. Eu não sou o agente que deliberadamente faz e provoca aquele aparecimento. Apenas o vivencio e usufruo. É uma bênção gratuita. Tudo o que é verdadeiramente grandioso e significativo é gratuito. Não pode ser nada que eu tenha merecido ou conquistado. Por isso a vida do sábio é livre de esforço, de volição e das complicações do pensamento egocêntrico. O sábio vive com a mesma simplicidade e alegria, com a mesma espontaneidade e confiança de uma criança no seu estágio pré-moral e pré-conceptual.

Eu não posso através do esforço volitivo do pensamento, ressuscitar um estado em que o desejo, o esforço e o pensamento se encontravam ausentes. A compreensão surge do silêncio, brota da paz e do vazio. O importante é esta paz e este vazio no qual surge a compreensão. Ao procurar reter a experiência da compreensão, esse desejo constitui-se num empecilho e num obstáculo àquele vazio, àquela paz e quietude na qual a compreensão pode desabrochar. Essa compreensão não pode ser retida, não podemos garantir a sua continuidade e permanência. Por isso J. Krishnamurti afirmava  que "A verdade vem sem chamamento.  Surpreende-nos como um ladrão". Não devemos recear morrer para todas as nossas experiências porque na verdade todas elas têm um findar. Mesmo as experiências de "despertar" ou "iluminação" não constituem qualquer excepção. A renuncia e desapego tem que ser absoluto e incondicional. A entidade que se liberta só existe enquanto não há liberdade; a entidade que se ilumina dissolve-se na iluminação; aquele que desperta desaparece no próprio despertar.

Toda a atividade egocêntrica, toda a preocupação em torno da própria pessoa, todo o esforço visando o auto-aperfeiçoamento, é um roubo àquela disponibilidade, àquele espaço de atenção e silêncio necessário para podermos receber a vida sempre imprevisível que acontece à nossa volta e da qual participamos. E esta atenção ou consciência, este espaço de disponibilidade e silêncio não precisa de ser construído, fabricado ou produzido por qualquer atividade ou esforço. Ele já é inato em nós, ou antes, é aquilo que realmente somos e portanto jamais podemos perder. Não nos apercebemos dele apenas devido à distração que constitui a atividade egocêntrica do pensamento. Não o podemos converter num estado a realizar ou meta a atingir. É paradoxal mas só o vivenciamos verdadeiramente quando renunciamos ao desejo de o obter. Esta renúncia e o silêncio que a acompanha expurga a realidade de tudo aquilo que lhe é alheio. Liberta o nosso ser verdadeiro daquilo que é falso e ilusório.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mestre e discípulo

A maioria dos mestres e gurus fazem atraentes discursos sobre a beleza da comunhão com Deus, o ser uno com o universo e o êxtase da vida livre da tirania do ego. Fazem-no à semelhança de alguém que, das águas frescas de um rio numa tarde de calor, fala para os que se encontram na margem e descreve a maravilhosa sensação do contacto com a água. O verdadeiro sábio e mestre mais eficaz é aquele que sem pronunciar uma palavra te agarra por um braço, te puxa para dentro da água e deixa que tu mesmo descubras essas sensações. Quem está numa prisão não quer brilhantes discursos sobre a vida ao sol e ao ar livre. O que quer é um túnel ou uma ponte que o tire dali para fora. Imagina que estás à beira da morte por inanição. Um homem acerca-se de ti fazendo maravilhosas descrições da comida,  explica-te todo o processo biológico da assimilação dos alimentos, a circulação do sangue e o funcionamento do aparelho digestivo. Depois fica exasperado por verificar que morreste antes de ter concluído. Um outro, simplesmente te apoia a cabeça nos seus braços e te leva à boca água e alimento. Qual deles foi para ti a ajuda mais essencial?

Os mestres espirituais, os gurus, os "despertos" e "iluminados" podem ser infinitamente bem-intencionados ao falar e ao escrever os seus livros. Mas a verdade é que involuntariamente podem alimentar nos discípulos precisamente aquilo que cumpre eliminar: a actividade do ego, da busca e do desejo. O guru ou o mestre espiritual, pode ter-se desembaraçado do ego e ter acedido ao ser autêntico, puro, essencial e não condicionado. Mas quando põe em palavras a sua experiência, desperta em quem o ouve o desejo de aceder à mesma realidade. Podem querer eliminar a atividade egocêntrica mas o que fazem é apenas dar-lhe uma nova forma, uma nova direção. O ego não deixa de ser o que é apenas porque muda o seu objecto de desejo. Um mestre pode, porque se libertou do desejo e da atividade do ego, experimentar um estado de ser que pinta com as cores mais maravilhosas. Mas a verdade é que ao dar nome à sua experiência, ao pô-la em palavras perante um auditório, o que faz involuntariamente é espetar neste o aguilhão da inveja, contribuindo assim para fortalecer precisamente o que pretende eliminar.

Aquilo que é fruto da naturalidade e da espontaneidade não pode ser transformado em objecto de desejo. Não pode ser colocado no fim de uma estrada como uma meta ou objectivo a atingir. O mestre ou guru não tem que exibir perante o discípulo a beleza e o êxtase de um estado futuro que supostamente poderá alcançar. O que ganha o discípulo com essas descrições? A ajuda eficaz seria aquela que volta a atenção para o estado real do discípulo. Aquela que lhe permite tomar consciência das atividades ilusórias da mente e do desejo. Aquela que lhe mostra como ele é o seu próprio carcereiro. Que lhe permite tomar consciência de que o seu sofrimento, a sua ansiedade e o inferno que experimenta não é mais do que um produto da sua própria fábrica mental. Apenas disto é que se deve consciencializar e apenas sobre isto é que deve despertar. O que vier depois dessa libertação, virá, e ele cá estará para o receber. Não tem que ser previamente informado para assim transformá-lo num objectivo, numa meta a alcançar e num desejo a satisfazer. Se o que o mestre ou guru faz é despertar-lhe esta atividade do desejo, seria preferível não os ler ou escutar, pois longe de lhe serem benéficos são antes prejudiciais.

O mestre mais eficaz e compassivo estende ao discípulo uma mão que representa uma ajuda inteligível desde a sua margem do rio (do discípulo). Se apenas se compraz numa espécie de masturbação verbal a partir da margem em que se encontra (o mestre), então de nenhuma utilidade poderá ser. O discípulo não tem que ser exposto a belas descrições do paraíso e da vida beatífica que o aguarda após a libertação do ego. Quando já não funcionar através do ego, ele próprio poderá experimentar e fazer essas descrições. E talvez até encontre formas mais belas e sublimes de o fazer e expressar. Enquanto sob a tirania do ego, essas descrições de nada lhe servem. Liberto dessa tirania, elas são-lhe totalmente supérfluas.

A principal barreira que o discípulo experimenta na sua relação com o mestre tem a ver com a  dificuldade em se colocar na mesma perspetiva e ponto de vista. Mas frequentemente o mestre comete o erro de não se saber colocar no lugar do discípulo. O mestre encontra-se numa dimensão diferente e muitas vezes não sabe, ou não procura, descer ao nível do discípulo e estender-lhe uma ajuda compreensível desde o ponto de vista deste último. Fala utilizando uma linguagem que só é compreensível para quem já não precisa dela.