A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






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quinta-feira, 6 de julho de 2017

O EGO E A BUSCA





“Observa a tua experiência e vê o que sucede quando te dás a oportunidade de experimentar a desorientação do buscador espiritual que deixa de procurar uma experiência diferente da que ocorre neste preciso instante. Talvez sintas que o buscador se dissolve e surge a paz, aquela paz que era perseguida pelo buscador.” -Adyashanti
                                                                    
Há uma fábula Zen que conta a história de um peixe que, depois de ter ouvido um discurso sobre a água, se envolve numa busca interminável à procura desse "elemento tão precioso". Muitas vezes é o próprio nomear e conceptualizar que gera os problemas que procura resolver. Já me tenho perguntado se haverá alguma forma de falar destas coisas sem que involuntariamente se alimente o próprio ego que se quer dissolver. É muito difícil ler ou ouvir discursos sobre espiritualidade, a não-dualidade, paz, vazio, unidade, etc. sem que o ego se aproprie dos conceitos e os converta em novos objetos de busca e de desejo. Daí o perguntar: como posso alcançar, realizar, obter, etc.?

É urgente e fundamental perceber que a demanda por estas coisas jamais poderá ser satisfeita, porque o ego, o buscador, não vai estar lá para o experimentar e reconhecer. Não há qualquer esperança para a busca, porque na verdade o que o buscador almeja é o estado da sua própria ausência!... Mas isso é algo que o buscador jamais poderá conhecer ou experimentar!   

O ego é uma entidade fictícia que só surge (ou se torna aparente) quando há resistência ao que é, a favor de algum ideal. O ego não é nenhuma entidade, é apenas uma atividade. A mente, o individuo, o agente, o ego, ou como lhe queiramos chamar, é gerado pela própria resistência e compulsão. Não tem qualquer solidez ou permanência. Só parece existir enquanto temos um objetivo que perseguir, um desejo a realizar, algo que adquirir ou rejeitar. É por isso que o desejo de nos libertarmos do ego não passa de combustível para o alimentar. A luta e o esforço na dimensão psicológica sempre mantém e fortalece aquilo contra o qual se luta.

Uma das nossas maiores dificuldades é que não percebemos a natureza ilusória do ego em toda a sua extensão. Podemos reconhecer a futilidade da atividade egocêntrica na busca de prazer, intoxicação, dinheiro, prestigio, reconhecimento, poder, etc., no plano mundano. Mas não percebemos que é o mesmo processo que funciona quando nos viramos para o chamado mundo espiritual e nos envolvemos nas mais diversas atividades a fim de conseguirmos o passaporte que nos leve ao nirvana ou à iluminação. Não percebemos que é a mesma entidade ilusória que se senta aos pés do guru, devora toda a literatura sagrada e formula todo o tipo de dúvidas e questões a fim de garantir que não comete qualquer erro em direção à meta espiritual. Julgamos este “ego espiritual” dotado de algum tipo de permanência ou superioridade, mas a sua natureza é tão efémera e ilusória como aquele ego mundano de que nos quisemos libertar.

E qualquer coisa que queiramos fazer a fim de corrigir esta situação será sempre mais do mesmo. Todo o acto intencional, toda a ação envolvendo o esforço e a vontade consciente é sempre produto da mesma ilusão. Toda a substituição, todo o abandono do "incorreto" para fazer o "correto", toda a renúncia com desejo de ganho, não passam de movimentos no interior da prisão. Quando queremos alcançar, capturar, possuir a experiência da ausência do ego, o "nirvana" ou a "iluminação", a mente é o único instrumento de que dispomos. Mas é um instrumento completamente inadequado. Porque a mente é o instrumento da intenção e da vontade, e a intenção e a vontade é a positiva manifestação do ego. O ego é o próprio centro do esforço e da volição. Só um “eu” pode querer acabar com o “eu”. Então, que fazer?... Nada!... Simplesmente parar, relaxar!... Apenas observar, respirar, escutar, sentir!... E isto não é nenhum "fazer". É o simples funcionamento natural! 

O paradoxo é que a maioria das pessoas converte a abordagem de «não fazer nada» numa nova prescrição ou atividade. A mente está viciada no fazer! Quando nos dizem para «simplesmente ser!», a mente tratará imediatamente de procurar «ser» da forma correta. No momento em que nos dizem para «não  nos envolvermos com os pensamentos», imediatamente criamos um «pensamento gestor» para ficar de guarda e garantir que nenhum pensamento é tocado. Esse gestor ou controlador é apenas o ego com uma nova roupagem. 

A mente não pode fugir de si mesma! O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura eliminar. O jogo da mente é muito subtil. O ego tem uma enorme capacidade de metamorfose. Quando assumimos que temos uma mente doente e confusa e desejamos promover uma transformação, quem é a entidade que deseja promover tal mudança? É essa mesma mente doente e confusa! É a mesma mente e não uma mente diferente! Só há uma mente e está toda ela doente. Não há uma parte sã que vai curar outra parte aleijada. O ego não passa de uma parte da mente a procurar moldar a outra parte. Parece ser o agente, o pensador, mas não passa de um pensamento, uma sensação enganosa. É por isso que o auto-aperfeiçoamento, o esforço para nos melhorarmos, não passa de uma falácia ilusória. É tão inútil como a atividade do cão às voltas atrás da própria cauda. A paz e serenidade vem quando reconhecemos a nossa impotência e abandonamos o problema. Se formos verdadeiramente honestos, tudo o que podemos fazer é desistir de todos os nossos intentos e esforços, porque qualquer coisa que esse agente faça permanece dentro da esfera da ilusão. 

É por isso que a arte da meditação é uma atitude de total aceitação em que cessa toda a fuga, toda a luta e resistência e nos permitimos viver plenamente o momento tal como ele se apresenta. Nunca se tratou de trilhar o caminho da iluminação, da verdade ou da felicidade. Os momentos de despertar sempre consistiram em desmascarar a fraude e a inutilidade de todos os esforços e de todos os caminhos. O verdadeiro despertar significa apenas um percebimento claro de que tu nada podes fazer para o produzires. Trata-se de um abandono, uma "rendição" e não uma conquista. A iluminação não é um resultado que possas conseguir em virtude de aplicares o método ou os ingredientes corretos. A transformação não pode ser deliberadamente calculada e produzida. Sucede de forma espontânea, na ausência de qualquer pretenso agente transformador. 

A autêntica liberdade é a completa extinção de toda a necessidade de manipulação e controlo. Quando nos confiamos ao colo divino já nada precisamos fazer ou buscar, nada precisamos saber, nada há que explicar ou compreender. A vida é puro gozo, puro fruir. Não é nenhum trabalho, nenhuma corrida de obstáculos, nenhum puzzle que temos de montar. É de uma simplicidade absoluta e magistral. Por isso a tal "iluminação" ou "despertar" é tantas vezes associada a uma gargalhada de alivio e prazer! Um alivio que não é resultado de qualquer conquista ou objetivo que tenhamos alcançado, pelo contrário, advém de termos renunciado a todas as nossas exigências  e pretensões. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"MUSHIN" - CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTADO DE "NÃO-MENTE"



De uma forma mais ou menos consciente, os esforços do buscador quase sempre são direcionados ao aperfeiçoamento do conteúdo da mente, à busca da filosofia e das respostas mais rigorosas e perfeitas, à elaboração da suprema norma de conduta, algum principio orientador, alguma fórmula, algo que possa adquirir e usar. A plena maturidade vem com a compreensão de que qualquer apego ou aquisição se converte num estorvo. Qualquer bagagem ou acumulação limita a liberdade e turva a consciência como a sombra escura que limita o circulo brilhante da lua. Maturidade é compreender que a realização suprema não é algo que se possa alcançar ou adquirir, mas antes um estado original que importa reconhecer e em que podemos confiar. O importante não é o conteúdo perfeito mas antes o vazio perfeito. "A melhor coisa não é melhor do que nada!", diz um provérbio Zen.

Os mestres Taoistas e Zen-Budistas descrevem muitas vezes o estado natural como um estado de "Não-Mente" (MuShin em japonês). É um conceito poderoso pela sua radicalidade e poder descritivo. Refere-se a um estado de pura percepção, isenta de verbalização ou pensamento. É o simples estado natural de total disponibilidade, abertura e "não-saber". Nenhuma segurança, nenhuma doutrina, nenhuma crença,  nada em que se apoiar. O encontro com os fenómenos e acontecimentos é totalmente vulnerável e inocente, porque liberto de qualquer mediação pelos mecanismos de tradução da experiência. Ausência da mente significa a ausência do ego, do agente, do pensamento volitivo. É o silenciar das reações dum "eu" separado, daquele comentador de fundo constituído de expectativas, julgamentos, desejos, esperanças e temores; o fim do cálculo em torno da aprovação ou rejeição social; o calar dessa voz que persiste em nos dizer como poderíamos ter agido melhor no passado ou como deveremos agir no futuro.

A iluminação ou o despertar não tem que ver com alguma classe de eventos ou estados particulares. A iluminação não diz respeito à situação em que te encontras, à forma como te sentes ou te comportas. Não existe uma categoria correta de estados iluminados em oposição àqueles que excluem a iluminação. O que desaparece é a divisão interior, a divisão entre um "eu" que vive e um "eu" que ensina a viver. Deixa de estar presente o comentarista ou censor que julga, avalia ou compara. Existe apenas um fluir natural e espontâneo, um sentir, viver e agir puro e simples. Não mais existe a entidade fictícia que se separa da experiência para a julgar, condenar ou justificar, aquela voz que sabe e idealiza e que sempre olha para aquilo que é através de uma ideia de como deveria ser. Cessa a aparente atividade de um "eu" imaginário, de um agente ilusório a pretender controlar, modificar ou manipular a experiência.

Importa compreender que não se trata da aquisição de qualquer tipo de perfeição, sabedoria ou virtude. É um estado totalmente isento de conteúdo, puro vazio. A denominação "Não-Mente" procura precisamente evitar  o conflito da dualidade e da luta entre os opostos. É o fim do conflito entre a aceitação e a recusa, da luta entre o que é e o que deveria ser. Cessa toda a possibilidade de rejeição e escolha, toda a  comparação entre o que penso que sou e aquilo em que me deveria converter. É o fim da "auto-consciência" com as suas atividades calculistas e protetoras em torno de uma imagem, de uma figura imaginária.

O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.

O conhecimento conceptual implica sempre separação e dualidade. O conhecimento é como um dedo que aponta para fora, originando o experimentador separado da experiência, o sujeito separado do objeto, o agente separado da ação. Esta divisão artificial termina quando há perfeita quietude mental, perfeito silêncio. Neste estado de quietude não existe qualquer pensamento ou entidade para verbalizar ou conhecer o estado de consciência experimentado. O estado de "Não-Mente" não é algo que se possa obter ou conhecer, mas apenas ser e vivenciar. Daí que sempre se nos faça a advertência de que as palavras são como setas indicadoras. Elas podem apontar uma direção, mas terão de ser abandonadas ao entrarmos no caminho apontado. Uma metáfora budista diz-nos que, uma vez alcançada a outra margem de um rio, não carregamos às costas o barco que nos serviu na travessia. As palavras são como uma porta ou uma ponte que é deixada para trás uma vez atravessada. Elas não nos podem acompanhar no salto que nos estabelece na pura realidade. A realidade é anterior a todas as palavras. O oceano da verdade é como um poço de ácido corrosivo em que somos completamente dissolvidos ao nele mergulharmos. Nós desaparecemos e resta apenas a realidade. Apenas este fluir interminável sem causa nem propósito a que chamamos viver... e uma alegria transbordante a impregnar o ser e o experimentar.

O estado de "Não-Mente" não pode ser uma ideia a aplicar ou objetivo a atingir. Se eu tiver uma concepção mental do estado de "Não-Mente" (o que seria uma contradição nos termos), então a minha experiência será avaliada de acordo com tal concepção. Esta atividade faz ainda parte das maquinações ilusórias do ego. Na ausência da mente cessa toda a avaliação e escolha. O "eu" simplesmente se dissolve numa fusão total com o ritmo do próprio Cosmos. É um estado de total imobilidade atemporal, de plena comunhão com aquilo que é, com  o que está. A atenção não mais se deixa capturar por algum momento fixo no tempo, mas permite-se fluir harmoniosamente com a perpétua e célere transformação da realidade emergente. Não significa que tu te tornaste inteligente, apenas deixaste de ser um obstáculo no caminho da inteligência.

O estado de "Não-Mente" não pode ser reconhecido, uma vez que está ausente o mecanismo que permite comparar, avaliar ou reconhecer. É por isso que toda a atividade e esforço em torno do auto-aperfeiçoamento, toda a luta procurando aniquilar o ego ou obter a "iluminação", não passa de um inútil desperdício de energia. É tão fútil como a atividade do cão ás voltas sobre si mesmo procurando agarrar a própria cauda, ou da criança que tenta ultrapassar a própria sombra. O silêncio jamais poderá coexistir com a entidade que o procura alcançar, porque o silêncio aniquila completamente aquele que deseja obter o silêncio. Só quando te retiras da frente de um espelho é que ele deixa de refletir a tua imagem, mas então tu já não te encontras aí para confirmar essa ausência!

O que temos de compreender é qual o vento, qual a água que ao banhar a mente a liberta de todo o passado e condicionamento. Por certo que não poderá ser nada vindo da própria mente, da memória ou da especulação intelectual. Não se pode pensar no "estado sem pensamento". Há uma realidade que só toma forma no imediato plano existencial, uma dimensão que o pensamento não pode antecipar nem recordar nem conhecer. A mente jamais poderá invocar a sua própria ausência, é isto que importa compreender. Aquilo que é manifesto no silêncio, só o silêncio pode experimentar. A atividade do pensamento é como um jogo circular de que ele próprio se alimenta. Mas há uma presença inefável que o pensamento jamais poderá tocar. Esta presença não é um atributo mas sim o próprio Ser. É aquilo que somos e não algo que possuímos.

É por isso que o estado de "Não-Mente", a libertação, não pode ser um processo gradual. O tempo só existe na mente e a mente não pode ser o instrumento que te leva além da mente. A mente jamais poderá cooperar com a sua própria destruição. A saída deste circulo opressivo só pode ser uma resolução instantânea, um salto para além da mente. Este salto não requer nenhum "fazer", nenhum requisito é necessário cumprir. Consiste muito mais numa renuncia, numa negação, num não agir, não fazer, não interferir (o "Wu Wei" do taoismo chinês), do que nalgum fazer, agir ou atuar positivamente. A intenção e a vontade representam o obstáculo e não o meio.

É por ser uma coisa tão fácil e tão simples que ela parece difícil ou complicada. No entanto, uma vez mais, a dificuldade ou complicação só existe para a mente. Mas a mente não desempenha aqui qualquer papel. A mente, o ego, o pensamento, jamais poderá contactar ou experimentar a sua própria ausência. Isto é que tem de ser compreendido. Aquele estado torna-se presente quando a mente renuncia a todas as suas atividades, motivos e desejos. Sendo o nosso estado natural, ele não pode ser gerado através de esforço nem precisa ser criado por qualquer atividade da nossa parte. Porque é um estado preexistente a todas as nossas atividades. Não requer sequer ser conhecido ou verbalizado. Procurar conhecê-lo ou obtê-lo, é tão absurdo como um peixe andar em busca da água onde nada. É este o significado profundo do termo "Graça", algo que é  gratuito, livre de causa, que não é nenhum resultado ou objetivo. Acaso a vontade de um recém-nascido poderá ser a causa do seu ser e existir? É ele o autor do seu próprio respirar e sentir? É o nosso esforço e a nossa vontade que faz o coração bater e o sangue circular?... O que a natureza requer de nós é confiança e não resistência!

O risco que se corre ao fazer estas exposições verbais, é o de elas poderem involuntariamente intensificar a própria atividade que se pretende cessar. As palavras fazem parecer complicado aquilo que é naturalmente simples. Estas palavras não devem ser convertidas numa ideia a reter e aplicar. As palavras são meramente a expressão de uma realidade que está antes delas. Devem ser vistas como uma grosseira tentativa de descrição e não como uma prescrição. A claridade e lucidez não depende de palavras, símbolos ou expressão. Nada disto deve ser convertido num esforço de compreensão ou num problema a resolver. Compreender a realidade não é compreender as palavras que a procuram descrever. Nenhuma descrição é adequada, porque nenhuma descrição pode substituir o sabor da realidade. O mapa não é o território. Se entrares num restaurante chinês, poderás não compreender a ementa, mas isso não te impede de usufruir plenamente da refeição. Aquilo que é real e verdadeiro não depende de conhecimento ou verbalização. A ordem da realidade não depende da ordem das palavras. Podemos falhar todas as questões dum exame de anatomia, mas entretanto o nosso metabolismo não deixará de funcionar perfeitamente. Como diz o provérbio Zen, "Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são".  Nunca precisámos de aprender a crescer, a digerir ou a respirar. Ser e viver está além do conhecer e compreender. Uma ideia jamais poderá substituir o espírito capaz de a conceber. O conhecimento é um subproduto, um resultado. O importante é aquilo que lhe é anterior e lhe está na origem: o estado de aprender e experimentar. E este é um estado de vazio e receptividade que só se manifesta plenamente quando não há qualquer esforço nem apego, nem luta por controlar ou alcançar.

Não há solução para este dilema senão o reconhecimento da nossa impotência. A renuncia a toda a volição e esforço. Abandonar completamente todos os problemas e voltar a atenção para a realidade imediata e presente, para este fluir ininterrupto e espontâneo que a todo o momento se desenrola de forma completamente livre e alheia a quaisquer que sejam os nossos motivos, desejos ou lucubrações. "Esquecer tudo é o meio supremo", diz a sabedoria Zen. Abandona todos os teus esforços e pretensões, estabelece-te na paz e quietude do silêncio interior, e aquilo que então restar, isso é que é real.

domingo, 8 de maio de 2011

Ser e Vir-a-Ser


A atividade visando o auto-aperfeiçoamento,  a vontade deliberada de transformação, a luta e o esforço para nos convertermos no que idealizamos, é sempre inútil. Porque o pensador, a entidade que utiliza o pensamento para se auto-aperfeiçoar, para se engrandecer ou diminuir, para atingir ou alcançar, é uma entidade fictícia, ilusória. É apenas uma sensação aparente, uma projeção ou invenção do pensamento. O pensador só parece ter realidade enquanto decorre o processo de pensamento. Mas na verdade faz parte do pensamento e não subsiste quando este termina. Não tem maior solidez ou permanência que o próprio pensamento. É uma entidade fictícia, efémera e passageira, à qual o pensamento atribui permanência. Na realidade não existe pensador mas apenas pensamento. É um processo unitário e não dois processos separados. É na desmontagem desta ilusão de dualidade e separação, que consiste aquele insight a que chamamos "despertar". Esta compreensão põe fim ao esforço volitivo do pensamento e promove a integração interior. Na ausência de pensamento, o que permanece é o Ser ou Consciência impessoal, que não beneficia de qualquer aquisição ou renúncia elaborada pelo pensamento. Esta Consciência é o que nós somos na realidade e não é susceptível de aperfeiçoamento ou modificação. É sempre plena, transparente, luminosa, completa. 

O que significa dizer que não há ninguém para compreender? Ninguém para se libertar? Ninguém para se iluminar? Significa que é artificial e ilusória a separação entre a ação e o agente, entre o pensador e os seus pensamentos, entre o buscador e as suas metas. Esta aparente figura separada não passa de uma invenção. É por isso que quando te criticas ou julgas a ti próprio és vitima de uma ilusão. Crias dentro de ti uma divisão que na realidade não existe. O teu Ser é uno e não dual. O importante é não lutares contigo próprio. É inútil e ilusório estabelecermos dentro de nós mesmos uma fragmentação ou divisão em que uma parte procura consertar ou aperfeiçoar a outra. Tal como é ilusório procurar abstrair da compreensão uma entidade que compreende. Este esforço está condenado ao fracasso. A entidade que recorda e avalia, que procura reter ou recuperar, não existe no exato momento da experiência. É uma invenção à posteriori. O experimentador e a experiência constituem uma unidade. Não existe um experimentador permanente separado das suas experiências transitórias. Mas o viver e experimentar permanece em meio à transitoriedade de todas as experiências.

Eu agora compreendo claramente a futilidade do apego e do esforço para reter a compreensão. Mas é inútil fazer estes registos tendo como motivo o desejo de tornar permanente esta compreensão. Não devo converter isto que estou a escrever numa ideia a reter para servir de guia na ação. Eu não estou a produzir uma receita que me garanta a repetição desta claridade e de futuras compreensões. Eu não tenho o controle, de nada sou o autor. A compreensão vem a mim e apazigua a minha mente assim como os raios de sol aquecem a minha pele. Eu não sou o agente que deliberadamente faz e provoca aquele aparecimento. Apenas o vivencio e usufruo. É uma bênção gratuita. Tudo o que é verdadeiramente grandioso e significativo é gratuito. Não pode ser nada que eu tenha merecido ou conquistado. Por isso a vida do sábio é livre de esforço, de volição e das complicações do pensamento egocêntrico. O sábio vive com a mesma simplicidade e alegria, com a mesma espontaneidade e confiança de uma criança no seu estágio pré-moral e pré-conceptual.

Eu não posso através do esforço volitivo do pensamento, ressuscitar um estado em que o desejo, o esforço e o pensamento se encontravam ausentes. A compreensão surge do silêncio, brota da paz e do vazio. O importante é esta paz e este vazio no qual surge a compreensão. Ao procurar reter a experiência da compreensão, esse desejo constitui-se num empecilho e num obstáculo àquele vazio, àquela paz e quietude na qual a compreensão pode desabrochar. Essa compreensão não pode ser retida, não podemos garantir a sua continuidade e permanência. Por isso J. Krishnamurti afirmava  que "A verdade vem sem chamamento.  Surpreende-nos como um ladrão". Não devemos recear morrer para todas as nossas experiências porque na verdade todas elas têm um findar. Mesmo as experiências de "despertar" ou "iluminação" não constituem qualquer excepção. A renuncia e desapego tem que ser absoluto e incondicional. A entidade que se liberta só existe enquanto não há liberdade; a entidade que se ilumina dissolve-se na iluminação; aquele que desperta desaparece no próprio despertar.

Toda a atividade egocêntrica, toda a preocupação em torno da própria pessoa, todo o esforço visando o auto-aperfeiçoamento, é um roubo àquela disponibilidade, àquele espaço de atenção e silêncio necessário para podermos receber a vida sempre imprevisível que acontece à nossa volta e da qual participamos. E esta atenção ou consciência, este espaço de disponibilidade e silêncio não precisa de ser construído, fabricado ou produzido por qualquer atividade ou esforço. Ele já é inato em nós, ou antes, é aquilo que realmente somos e portanto jamais podemos perder. Não nos apercebemos dele apenas devido à distração que constitui a atividade egocêntrica do pensamento. Não o podemos converter num estado a realizar ou meta a atingir. É paradoxal mas só o vivenciamos verdadeiramente quando renunciamos ao desejo de o obter. Esta renúncia e o silêncio que a acompanha expurga a realidade de tudo aquilo que lhe é alheio. Liberta o nosso ser verdadeiro daquilo que é falso e ilusório.