“Observa a tua experiência e vê o que sucede quando te dás a oportunidade de experimentar a desorientação do buscador espiritual que deixa de procurar uma experiência diferente da que ocorre neste preciso instante. Talvez sintas que o buscador se dissolve e surge a paz, aquela paz que era perseguida pelo buscador.” -Adyashanti
Há uma fábula Zen que conta a história de um peixe que, depois de ter ouvido um discurso sobre a água, se envolve numa busca interminável à procura desse "elemento tão precioso". Muitas vezes é o próprio nomear e conceptualizar que gera os problemas que procura resolver. Já me tenho perguntado se haverá alguma forma de falar destas coisas sem que involuntariamente se alimente o próprio ego que se quer dissolver. É muito difícil ler ou ouvir discursos sobre espiritualidade, a não-dualidade, paz, vazio, unidade, etc. sem que o ego se aproprie dos conceitos e os converta em novos objetos de busca e de desejo. Daí o perguntar: como posso alcançar, realizar, obter, etc.?
É urgente e fundamental perceber que a demanda por estas coisas jamais poderá ser satisfeita, porque o ego, o buscador, não vai estar lá para o experimentar e reconhecer. Não há qualquer esperança para a busca, porque na verdade o que o buscador almeja é o estado da sua própria
ausência!... Mas isso é algo que o buscador jamais poderá conhecer ou experimentar!
Uma das nossas maiores dificuldades é que não percebemos a natureza ilusória do ego em toda a sua extensão. Podemos reconhecer a futilidade da atividade egocêntrica na busca de prazer, intoxicação, dinheiro, prestigio, reconhecimento, poder, etc., no plano mundano. Mas não percebemos que é o mesmo processo que funciona quando nos viramos para o chamado mundo espiritual e nos envolvemos nas mais diversas atividades a fim de conseguirmos o passaporte que nos leve ao nirvana ou à iluminação. Não percebemos que é a mesma entidade ilusória que se senta aos pés do guru, devora toda a literatura sagrada e formula todo o tipo de dúvidas e questões a fim de garantir que não comete qualquer erro em direção à meta espiritual. Julgamos este “ego espiritual” dotado de algum tipo de permanência ou superioridade, mas a sua natureza é tão efémera e ilusória como aquele ego mundano de que nos quisemos libertar.
E qualquer coisa que queiramos fazer a fim de corrigir esta situação será sempre mais do mesmo. Todo o acto intencional, toda a ação envolvendo o esforço e a vontade consciente é sempre produto da mesma ilusão. Toda a substituição, todo o abandono do "incorreto" para fazer o "correto", toda a renúncia com desejo de ganho, não passam de movimentos no interior da prisão. Quando queremos alcançar, capturar, possuir a experiência da ausência do ego, o "nirvana" ou a "iluminação", a mente é o único instrumento de que dispomos. Mas é um instrumento completamente inadequado. Porque a mente é o instrumento da intenção e da vontade, e a intenção e a vontade é a positiva manifestação do ego. O ego é o próprio centro do esforço e da volição. Só um “eu” pode querer acabar com o “eu”. Então, que fazer?... Nada!... Simplesmente parar, relaxar!... Apenas observar, respirar, escutar, sentir!... E isto não é nenhum "fazer". É o simples funcionamento natural!
O paradoxo é que a maioria das pessoas converte a abordagem de «não fazer nada» numa nova prescrição ou atividade. A mente está viciada no fazer! Quando nos dizem para «simplesmente ser!», a mente tratará imediatamente de procurar «ser» da forma correta. No momento em que nos dizem para «não nos envolvermos com os pensamentos», imediatamente criamos um «pensamento gestor» para ficar de guarda e garantir que nenhum pensamento é tocado. Esse gestor ou controlador é apenas o ego com uma nova roupagem.
A mente não pode fugir de si mesma! O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura eliminar. O jogo da mente é muito subtil. O ego tem uma enorme capacidade de metamorfose. Quando assumimos que temos uma mente doente e confusa e desejamos promover uma transformação, quem é a entidade que deseja promover tal mudança? É essa mesma mente doente e confusa! É a mesma mente e não uma mente diferente! Só há uma mente e está toda ela doente. Não há uma parte sã que vai curar outra parte aleijada. O ego não passa de uma parte da mente a procurar moldar a outra parte. Parece ser o agente, o pensador, mas não passa de um pensamento, uma sensação enganosa. É por isso que o auto-aperfeiçoamento, o esforço para nos melhorarmos, não passa de uma falácia ilusória. É tão inútil como a atividade do cão às voltas atrás da própria cauda. A paz e serenidade vem quando reconhecemos a nossa impotência e abandonamos o problema. Se formos verdadeiramente honestos, tudo o que podemos fazer é desistir de todos os nossos intentos e esforços, porque qualquer coisa que esse agente faça permanece dentro da esfera da ilusão.
É por isso que a arte da meditação é uma atitude de total aceitação em que cessa toda a fuga, toda a luta e resistência e nos permitimos viver plenamente o momento tal como ele se apresenta. Nunca se tratou de trilhar o caminho da iluminação, da verdade ou da felicidade. Os momentos de despertar sempre consistiram em desmascarar a fraude e a inutilidade de todos os esforços e de todos os caminhos. O verdadeiro despertar significa apenas um percebimento claro de que tu nada podes fazer para o produzires. Trata-se de um abandono, uma "rendição" e não uma conquista. A iluminação não é um resultado que possas conseguir em virtude de aplicares o método ou os ingredientes corretos. A transformação não pode ser deliberadamente calculada e produzida. Sucede de forma espontânea, na ausência de qualquer pretenso agente transformador.
A autêntica liberdade é a completa extinção de toda a necessidade de manipulação e controlo. Quando nos confiamos ao colo divino já nada precisamos fazer ou buscar, nada precisamos saber, nada há que explicar ou compreender. A vida é puro gozo, puro fruir. Não é nenhum trabalho, nenhuma corrida de obstáculos, nenhum puzzle que temos de montar. É de uma simplicidade absoluta e magistral. Por isso a tal "iluminação" ou "despertar" é tantas vezes associada a uma gargalhada de alivio e prazer! Um alivio que não é resultado de qualquer conquista ou objetivo que tenhamos alcançado, pelo contrário, advém de termos renunciado a todas as nossas exigências e pretensões.

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