A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






quinta-feira, 6 de julho de 2017

O EGO E A BUSCA





Observa a tua experiência e vê o que sucede quando te dás a oportunidade de experimentar a desorientação do buscador espiritual que deixa de procurar uma experiência diferente da que ocorre neste preciso instante. Talvez sintas que o buscador se dissolve e surge a paz, aquela paz que era perseguida pelo buscador.” 
                                                                                                         - Adyashanti

 “A entidade só existe quando há movimento na direção oposta ao facto.”
                                                                                                   -Krishnamurti

 
Alguém uma vez afirmou que o peixe é a ultima criatura a descobrir a água. Há uma fábula Zen que conta a história de um pequeno peixe que, depois de ter ouvido um discurso sobre a água, se envolve numa busca interminável à procura desse elemento tão precioso. Muitas vezes é o próprio nomear e conceptualizar que gera os problemas que procura resolver. Já me tenho perguntado se haverá alguma forma de falar destas coisas sem que involuntariamente estejamos a alimentar o próprio ego que se quer dissolver. É muito difícil ler ou ouvir falar sobre as chamadas matérias espirituais (não-dualidade, paz, vazio, unidade, etc.) sem que o ego se aproprie dos conceitos e os converta em novos objetos de busca e de desejo. Daí o perguntar: como posso alcançar, realizar, obter, etc.?

É urgente e fundamental perceber que a demanda por estas coisas jamais poderá ser satisfeita, porque o ego não vai estar lá para as poder experimentar e possuir. O ego é uma entidade fictícia que só surge ou se torna aparente quando há resistência ao que é, a favor de algum ideal. A mente, o individuo, o ego, ou como lhe queiramos chamar, é gerado pela própria resistência e compulsão. Só pode existir enquanto tiver um objetivo que perseguir, algum desejo a realizar, alguma coisa que manter ou rejeitar. É por isso que o desejo de nos libertarmos do ego é apenas um dos truques que o ego utiliza para sobreviver. A luta e o esforço na dimensão psicológica sempre mantém e fortalece aquilo contra o qual lutamos.

Uma das nossas maiores dificuldades é que não percebemos a natureza ilusória do ego em toda a sua extensão. Podemos reconhecer a futilidade da atividade egocêntrica em busca de prazer, intoxicação, dinheiro, poder, prestigio, reconhecimento, etc., no plano mundano. Mas não percebemos que é a mesma atividade que funciona quando nos viramos para o chamado caminho espiritual e nos envolvemos nas mais diversas atividades a fim de conseguir o passaporte que nos leve ao nirvana ou à iluminação. Não percebemos que é a mesma entidade ilusória que se senta aos pés do guru, devora toda a literatura sagrada e formula todo o tipo de dúvidas e questões a fim de garantir que não comete qualquer erro em direção à meta espiritual. Julgamos este “ego espiritual” dotado de algum tipo de permanência ou superioridade, mas a sua natureza é tão ilusória como aquele ego mundano de que nos quisemos libertar.

E qualquer coisa que queiramos fazer a fim de corrigir esta situação, será sempre mais do mesmo. Toda a ação envolvendo o esforço e a vontade é sempre produto da mesma ilusão. Toda a substituição, todo o abandono do incorreto para abraçar o correto, toda a renúncia com o desejo de ganho, não passam de movimentos no interior da prisão. Quando queremos alcançar, conhecer, controlar, reproduzir a experiência da ausência do ego, a mente é o único instrumento que possuímos. Mas é um instrumento completamente inadequado. Porque a mente é o instrumento da intenção e da vontade. E a intenção e a vontade é a positiva manifestação do ego. O ego é o próprio centro do esforço e da volição. Só um “eu” pode querer acabar com o “eu”.

Então, que fazer?... Nada!... Simplesmente parar, relaxar!... Apenas observar, respirar, escutar, sentir!... E isto não é nenhum fazer. É apenas o simples funcionamento natural. É isto que sugerem alguns mestres como sendo a arte da meditação. Uma atitude de plena aceitação, em que cessa toda a fuga, toda a luta e resistência e nos permitimos viver plenamente o momento tal como ele se apresenta.

A mente não pode fugir dela própria! O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura eliminar. A mente é muito subtil, o ego tem uma enorme capacidade de metamorfose. Quando assumimos que temos uma mente doente e confusa e desejamos promover uma transformação, quem é a entidade que deseja promover tal mudança? É essa mesma mente doente e confusa! É a mesma mente e não uma mente diferente. Só há uma mente e está toda ela doente. Não há uma parte sã que vai curar outra parte aleijada. A paz e serenidade vem quando reconhecemos a nossa impotência e abandonamos o problema. Se formos verdadeiramente honestos, tudo o que podemos fazer é parar completamente todos os nossos intentos e esforços. Porque qualquer coisa que esse agente faça permanece dentro da estrutura da ilusão.

O verdadeiro despertar acontece quando há um percebimento claro de que tu nada podes fazer para o produzires. A iluminação não é um resultado que possas conseguir em virtude de aplicares o método ou os ingredientes corretos. A transformação não pode ser deliberadamente calculada e produzida. Sucede de forma espontânea, na ausência de qualquer pretenso agente transformador, quando cessa toda a luta e resistência.

A autêntica liberdade significa a extinção completa de toda a necessidade de manipulação e controle. Quando nos confiamos ao colo divino já nada precisamos saber, nada precisamos fazer. A vida é puro gozo, puro fruir. Não é nenhum trabalho, nenhuma corrida de obstáculos, nenhum puzzle que temos de montar. É de uma simplicidade absoluta e magistral. Não é de admirar que a tal "iluminação" ou "despertar" seja tantas vezes associada a uma gargalhada de alivio e prazer!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Problemas e Percepção



"Em verdade vos digo que qualquer objeto que tenhais no pensamento, por mais sagrado que seja, será uma barreira entre vós e a intima verdade"  -M. Eckhart




A realidade nunca é problemática ao nível da pura percepção. Fora do pensamento não há problemas, há apenas situações. Um simples dar-se conta dos dados imediatamente presentes aos sentidos. O problema só surge com a reação da memória e experiência acumulada, associada ao conhecimento e ao dar nome.

Foi a mente a criadora do problema e portanto não o pode resolver. O problema não pode ser resolvido no mesmo nível que o criou. Se considerarmos séria e honestamente a hipótese de uma intrínseca disfuncionalidade do pensamento, então teremos de o abordar desde uma perspetiva que se encontra fora das limitações do próprio pensamento. Não mais nos podemos envolver na sua incessante atividade auto-geradora de problemas nem alimentar o seu apetite insaciável por respostas.

Quando renunciamos aos nossos esforços para resolver qualquer problema no limitadíssimo espaço da mente, todo o cosmos é envolvido nessa resolução. Sem a interferência da mente o problema dissolve-se e desaparece. O fundamental é mantermos um espaço de silêncio e abertura ao imprevisível e desconhecido. Só quando a atenção não está inteiramente capturada pelo pensamento é que podemos ser vulneráveis àquela energia criadora que se encontra além dos limites do conhecimento e do intelecto.

A única forma de não te veres enredado nas armadilhas da mente consiste na possibilidade de te manteres à tona do pensamento, não permitindo que a atenção seja completamente absorvida pelo arrazoamento mental. Aprende a considerar o pensamento apenas como mais um elemento entre os objetos da percepção. O próprio pensador faz parte do pensamento e não tem qualquer solidez ou permanência. O importante é não atribuir qualquer preponderância à mente sobre quaisquer outros objetos da realidade presente. Não precisamos lutar com os pensamentos nem procurar eliminá-los definitivamente. Basta canalizarmos para o nível energético e sensorial a energia despendida na atividade mental. Em vez de nos perdermos nos pensamentos, simplesmente nos decidimos a estar atentos e presentes, permitindo-nos ser renovados por aquilo que podemos ver, ouvir, sentir…

Quando a mente se remete ao silêncio e imobilidade total, descobrimos que há uma ação e percepção que acontecem na ausência da mente. Uma ação e percepção totalmente espontâneas em que a compreensão é direta e imediata. Há algo que actua através de nós que é maior que nós, maior que a mente e livre de todo o condicionamento. É uma dimensão que não pode ser conhecida nem possuída pela mente. Está além de todas as nossas dúvidas e perguntas e da nossa incessante  busca por respostas. A ela se referiu Santo Agostinho quando declarou: "Ama et fac quod vis!" (Ama e faz o que quiseres!). Esta realidade nada nos pede. Ela apenas requer a nossa confiança e humildade. Só precisamos sair do seu caminho e deixar esta inteligência atuar livremente.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Mente, Consciência e Identidade



A questão da identidade essencial ou indagação em torno da pergunta “O que sou?”, constitui o núcleo à volta do qual gravitam todas as grandes tradições espirituais e religiosas.

Nesta inquirição alguns termos e expressões poderão adquirir significados ligeiramente diferentes em função do contexto e da tradição em que são utilizados. Por isso devemos permitir-nos alguma flexibilidade e evitar uma atitude demasiado rígida na interpretação de certas palavras e expressões.

Quem leu os grandes mestres do Zen-Budismo terá reparado que nesses textos é muitas vezes utilizado o conceito de “grande mente”, “mente essencial”, "mente única" ou “mente original” para se referirem àquilo que constitui a nossa autêntica natureza, a nossa identidade essencial que os autores Advaita denominam “Consciência”. Ambas as tradições apontam a mesma realidade.

Na maioria dos textos Advaita faz-se uma distinção entre  mente e consciência, que de forma breve podemos clarificar como segue:

Mente – É expressão da experiência individual sob a forma de pensamentos, memórias, desejos e aversões, emoções e sentimentos. É apenas um objeto ou conteúdo da consciência. É resultado do tempo e está sujeita ao jogo da mudança e da impermanência. O "eu" pessoal e fenoménico e aquilo a que chamamos "personalidade" não passa de uma construção fictícia que resulta da nossa identificação com estas formações mentais.

Consciência – É aquilo que constitui a nossa natureza essencial e imutável. É omnipresente e atemporal, impessoal e universal. Não tem quaisquer limites, qualidades ou dimensões.  É informe e vazia, sem qualquer ubicação no tempo ou espaço. Sendo pura subjetividade não pode ser percebida objetivamente. É a realidade última e primeira a que em última instância é redutível todo o fenómeno e experiência. Esta Consciência é o que realmente somos. É aquilo que se encontra por trás da expressão "Eu Sou" ou "Existo".

Esta distinção é importante porque o nosso ser autêntico e essencial, aquilo que realmente somos, não pode ser identificado com nada que seja objeto de percepção ou experiência. A forma como em cada momento pensas, atuas e sentes, apenas reflete o teu estado, não define aquilo que tu és. David Hume, um importante nome da filosofia ocidental, também se apercebeu disto, o que o levou a negar qualquer realidade substancial ao “eu” individual,  tal como já havia feito o Buda há 2500 anos.
 Quanto a mim, quando penetro mais intimamente naquilo a que chamo eu próprio, tropeço sempre numa ou outra percepção particular, de frio ou calor, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de dor ou prazer. Nunca consigo apanhar-me a mim próprio, em qualquer momento, sem uma percepção, e nada posso observar a não ser a percepção.”                                                 -David Hume, Tratado da Natureza Humana
É importante notar que não existe um "tu" e a "consciência" como coisas separadas. Só existe  consciência e não um tu que é consciente. A consciência não é um atributo. Não são as pessoas que têm consciência, é a consciência que tem pessoas. A aparente existência de um "eu" como entidade separada, não passa de uma sensação ilusória e intermitente. É apenas mais uma manifestação que surge na consciência.
Compreenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas. Esse algo que nasce ou que morrerá é puramente imaginário.”                                                                               -Nisargadatta Maharaj, I Am That
Os mestres Advaita terão reparado que o nosso verdadeiro ser, a nossa natureza autêntica e original, não pode ser nada de fenoménico nem ter qualquer marco temporal. Terá que estar sempre presente, não é nada que se possa perder ou adquirir e deve estar antes e além da mente e do “eu individual". Aquilo que és não pode ser definido ou formulado positivamente. Não podes dizer o que és, mas apenas aquilo que não és. Daí a expressão “Neti, Neti” (nem isto, nem aquilo), oriunda do antigo sânscrito,  que significa que a verdade do que és, não é nada susceptível de surgir no tempo ou no espaço, nem nada.que possa ser pensado, sentido, conhecido, experimentado ou verbalizado.

Tu és aquilo que resta depois de descartares tudo o que participa do jogo da impermanência. Isto torna inúteis todos os esforços para apreender objetivamente essa realidade última, o ser essencial ou absoluto, já que todas as aparências surgem no campo fenoménico, pertencem ao mundo do tempo e do transitório.  Qualquer coisa que possas conhecer e conceptualizar manifesta-se no plano consciente. E tudo o que surge no plano da consciência é temporário e impermanente. Por isso os budistas o consideram apenas aparente ou ilusório já que tem realidade meramente relativa e dependente. O mundo surge e desaparece com a própria consciência que o percebe. Sem consciência não há mundo.

A própria consciência é a única realidade estável e permanente em meio a todo este fluxo efémero e passageiro que constitui o mundo fenoménico. Paradoxalmente, a tua realidade mais íntima e essencial é algo que jamais poderás conhecer de forma conceptual e jamais poderá ser objeto de percepção ou experiência, pois é aquilo que está na origem de todo o fenómeno e torna possível todo o experimentar. Não podes conhecer aquilo que és, podes apenas sê-lo!

domingo, 19 de julho de 2015

Intelecto vs Atenção



"Só o lago calmo reflete as estrelas"                                                  -provérbio Zen



Ao confiar no intelecto, procurando segurança nas ideias, torno-me cego à realidade. O pensamento isola e separa, quer gire à volta do profano ou do sagrado, do mundano ou do divino. Uma mente ocupada, não importa qual seja o objeto das suas ruminações, cria sempre isolamento à sua volta. Na medida em que nos ocupamos com o próprio diálogo interior, deixamos de prestar atenção. O espaço dedicado à ruminação é roubado à presença. E ao deixarmos de estar presentes, o condicionamento que jaz ao nivel do subconsciente assume o comando. A ação consciente dá lugar à reação condicionada. As nossas respostas tornam-se mecânicas, comandadas pelos hábitos e padrões instalados.

Só quando estamos plenamente atentos e presentes, se manifesta a consciência livre e descondicionada. Daí resulta uma resposta sempre original e espontânea, porque surge de um estado de disponibilidade e vazio. É uma ação que utiliza criativamente o conhecimento e a memória, mas sem estar limitada por eles. O intelecto é conhecimento e move-se no passado, a plena atenção é presença e move-se no desconhecido. A presença consciente não exclui o intelecto, mas o intelecto não pode substituir a presença consciente. O intelecto é cego e limitado. A consciência é livre, infinitamente aberta e ilimitada. Ao serviço da consciência o intelecto é um instrumento inofensivo; ao pretender substitui-la torna-se cego e destrutivo.

domingo, 11 de maio de 2014

Porque não podemos encontrar a Consciência?



"Não sei o que é conhecer-me. Não vejo para dentro.
  Não acredito que eu exista por detrás de mim."  -Fernando Pessoa

Poucas expressões da "não-dualidade" e do jargão espiritual são mais susceptíveis de confundir ou gerar errónea interpretação do que a sugestão de procedermos a uma rotação no foco da atenção e virá-la para o interior a fim de encontrarmos a sua fonte. Dizem-nos que para acedermos à nossa identidade essencial e conhecermos a natureza autêntica do que somos, devemos proceder a uma rotação de 180º no foco da nossa atenção dirigindo-a do exterior para o interior, dos objetos para a consciência. Quando ouvimos esta indicação podemos cair no erro de procurar ver ou conhecer a consciência do mesmo modo como vemos e conhecemos qualquer objeto da experiência. Procedemos a uma espécie de escrutínio interior em que fazemos desfilar mentalmente o reportório de tudo o que vemos e conhecemos até encontrarmos aquilo a que supostamente tal indicação se refere. Mas este modo de indagar está inevitavelmente condenado ao insucesso e à frustração. Qualquer coisa que possamos conhecer ou experimentar nunca será a consciência, porque a consciência já tem que estar presente antes de qualquer experiência ou conhecimento. Daí que o discurso da "não-dualidade" nos diga que "o buscador já é aquilo que ele busca", "a própria pergunta já é a resposta". Ao referir-se à nossa natureza essencial com palavras como "Ser", "Consciência", "Vazio", "Presença", "Absoluto", etc., o discurso não aponta para alguma coisa que precisamos encontrar, descobrir ou produzir através de algum tipo de atividade ou esforço. Refere-se ao próprio "Ver" e não a algo que tenha que ser visto. A própria formulação de uma questão, independentemente de qualquer resposta, já constitui em si mesma uma perfeita confirmação da presença da consciência.

A dificuldade é criada pela própria estrutura da comunicação verbal. Os nomes e palavras geram uma aparente dualidade e separação sujeito/objeto. Esta é uma inevitabilidade ao nível verbal. Mas a consciência nunca poderá ser objeto de experiência ou conhecimento. Jamais poderá ser convertida em objeto de busca ou indagação. Quem seria a entidade que levaria a cabo tal busca? Quem senão a própria consciência poderá ser já o sujeito desta indagação?  Não podemos estabelecer divisões na consciência. Seria como se a consciência se alienasse de si mesma e andasse em busca de si própria. Percebemos o absurdo desta posição? A forma como inadvertidamente nos enganamos e iludimos a nós próprios? O pleno reconhecimento da consciência não é o fim exitoso de uma qualquer atividade inquiridora. A própria existência dessa atividade, independentemente de qualquer resultado ou conclusão, é já quanto basta para que a presença da consciência esteja perfeitamente estabelecida. É um reconhecimento que não se encontra no fim, mas logo no inicio de qualquer busca ou inquirição. É uma verdade implícita que qualquer manifestação torna evidente. Se eu vejo alguma coisa é porque sou dotado do poder da visão. Mas a própria visão não é algo que eu possa ver.

Perceber a consciência como a essência daquilo que somos é apenas um simples reconhecimento. Não se trata de qualquer realização a alcançar ou qualquer experiência que possamos obter através do esforço do pensamento ou da imaginação. A consciência não é divisível. É una e não dual.  Se aquela indicação (de dirigir a atenção para a própria atenção ou consciência) se converter para nós num problema, é preferível ignorá-la, pois na verdade não é uma expressão muito feliz. O efeito que ela produz no buscador assemelha-se muitas vezes àquela história  Zen do peixe que ingenuamente percorre o fundo do oceano em busca da água. É por isso que no Zen, andar em busca da nossa essência ou natureza budica, é comparado a procurar um boi montado no boi.

A nossa confusão deve-se aos equívocos provocados pelas palavras e comunicação. Quando te recomendam prestar atenção a tal ou qual som, imagem ou fenómeno, tu simplesmente viras para esse objeto a tua atenção; por isso, quando nos sugerem colocar a atenção na própria atenção, o nosso impulso imediato será procurarmos ver a atenção do mesmo modo. Mas tal propósito é irrealizável. A consciência ou atenção não é conhecida desse modo. O que se pretende é apenas que reconheçamos o facto dessa atenção existir,  a presença implícita da própria consciência, o facto inegável de sermos conscientes. Apenas isso! Esta constatação ou reconhecimento não depende de nenhum estado ou experiência em particular. É o fundo subjacente a toda experiência, estado, fenómeno ou percepção. Não importa que o teu estado seja de confusão ou de clareza, que sejas santo ou pecador, dominado pelo vicio ou pela virtude, visitado por anjos ou demónios, tudo é igualmente uma confirmação da consciência, em si mesma vazia, transparente, incorruptível, imutável e atemporal. A ênfase é colocada não já nos objetos, mas antes nesta espaciosidade infinita e  consciente onde eles aparecem. É tão óbvio, tão simples! Significa o fim de toda a identificação. Eu não sou nenhum objeto, sou a luz que ilumina todos os objetos. Não sou nenhuma experiência, sou a capacidade de experimentar. Não sou feito de nada do que vejo, sinto ou experimento, mas todas estas coisas são feitas de mim, são manifestação e expressão da minha existência. Tal como as dunas são formações de areia. As ondas desfazem-se, a água permanece. Sou aquilo que permite e possibilita que todos os objetos e todas as experiências surjam e desapareçam. Sou a ausência que permite todas as presenças, o vazio que acolhe toda a existência.

Não podemos olhar e conhecer esta consciência do modo explicito e objetivo como tudo é visto e conhecido. Não interessa que a busca seja direcionada para o exterior ou para o interior, o que quer que encontremos nunca será a consciência. Uma lanterna jamais poderá surgir no foco de luz que dela própria emana. Um dedo poderá apontar para qualquer coisa menos para o próprio dedo que aponta. Nenhum  objeto é a consciência. A consciência, no entanto, é a condição sine-qua-non do aparecimento de qualquer objeto. É uma verdade implícita e auto-evidente, pois mesmo ao pretender negá-la estamos a afirmá-la uma vez mais. A própria existência não pode ser negada sem que exista o autor de tal negação. Foi também isto que Descartes descobriu e procurou expressar no seu "Cogito". Não é possível alguém acreditar seriamente na afirmação "eu não existo", uma vez que terá que existir para poder fazer tal declaração. A apreensão da própria existência é intuitiva e imediata. A consciência é aquilo que jamais poderás ver ou conhecer objetivamente, mas cuja  realidade é mais evidente e indubitável do que qualquer coisa que possas ver ou conhecer. Tu nunca viste e jamais poderás ver os teus olhos, mas tudo aquilo que vês aponta para a verdade irrefutável da sua existência. Neste sentido podemos dizer que o mundo visível e fenoménico é apenas uma seta que aponta para o invisível. Podes duvidar da realidade de qualquer coisa que vês, mas jamais poderás duvidar da existência dos olhos que veem. A consciência é sempre evidente. A única evidência.

É apenas isto que se pretende fazer notar ao ser-nos sugerido virar a atenção para a própria atenção. Trata-se de um redirecionamento do foco, um simples corrigir de uma distração. É um convite a recordarmos a real natureza do que somos. Para que a consciência não mais se veja ofuscada ou absorvida pelas suas diversas manifestações, expressões ou criações. Não faz apelo a qualquer atividade com vista à aquisição de algo que não esteja já presente. Não podemos converter a consciência noutro objeto de busca, uma vez que tanto esse esforço como aquele que o realiza, são eles próprios aparições temporárias e transitórias dentro dessa consciência que na verdade sempre somos. É esta presença consciente que constitui o único elemento imutável e permanente ao longo desse fluxo de percepções intermitentes e passageiras que constitui toda a nossa experiência do mundo e da vida. Apenas Consciência é sinónimo de Realidade. Só a Consciência É. Tudo é feito de Consciência.  E como nos dizem os antigos Upanishades indianos: "Tat Tvam Asi" (Tu És Isso).

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tu já és aquilo que procuras



A verdade ou a realidade não pode ser armazenada, não pode ser retida -  não é acumulável. O valor de qualquer intuição, compreensão ou realização só pode estar na eternamente fresca presença do momento. A realização de ontem não vale um pimento, agora está morta,  já perdeu a sua vitalidade. É inútil procurar suster-se ou aferrar-se  a algum insight, compreensão ou realização, porque só no seu movimento existe a possibilidade de que surjam sempre novas e frescas intuições sobre a verdade ou a realidade. A ideia da iluminação ou auto-realização como um único evento, ou como um estado ou experiência permanente ou duradoura, é uma concepção errónea”.                                                                                                            Sailor Bob Adamson

O dilema e a tragédia de quase todos os buscadores é que, depois de terem um "insight espiritual", uma experiência de "despertar", ficam eternamente presos na armadilha de a procurar reproduzir ou capturar ou nela permanecer. O segredo está em não te aferrares a nada, nem mesmo a qualquer experiência de despertar. Abandona a tua memória de experiências, estados e realizações. São apenas cinzas mortas sem qualquer vida ou substância. A memória é apenas distração. A verdade é sempre viva e vibrante. Este momento nunca aconteceu. Nunca nada se repete.  "Jamais voltes ao lugar onde foste feliz!", diz uma canção, "...Nada do que por lá vires será como no passado. Não queiras reacender um lume já apagado."

Não te aferres a quaisquer palavras ou conceitos, a nenhum estado, experiência ou conhecimento, porque ao fazê-lo acabas inevitavelmente por ofuscar a consciência onde todos esses elementos de forma espontânea emergem. Poderás registar as palavras que brotam da claridade e pretendem traduzir a compreensão, mas elas jamais poderão substituir aquela claridade que as fez emergir. Não queiras guardar lembranças através de palavras mortas. Só podes guardar conceitos, não a verdade.

A "coisa" como aparece no pensamento, como é invocada na memória, nada tem a ver com a experiência real, anterior e independente dessa invocação. Aquele que recorda a experiência não é o que a viveu e experimentou. São duas dimensões e duas realidades completamente diferentes e que se excluem mutuamente. A ideia da "coisa" nada tem a ver com a vivência da "coisa" sem ideia. A ideia é colorida pela memória psicológica da dor e do prazer, pelo mecanismo de rejeição e apego, aversão e desejo. Todo este processo é alheio ao sabor da experiência original. Por isso diz Shunryu Suzuki, o mestre Zen, "Tão pronto como vês algo e começas a intelectualizá-lo, aquilo que intelectualizas já não é o que viste!" Claro que não é o que viste! A mente não pode ver nada. O intelecto lida com símbolos e não com a realidade. O pensamento, sendo apenas uma pálida sombra da percepção, jamais a poderá substituir. A mente transporta-te para um mundo ilusório de conflitos, lutas e desejos completamente desnecessários.

Podes invocar a memória de um estado, uma experiência ou um prazer com a intenção de o reviveres, de o ressuscitares, ou de conseguires a fórmula da sua permanência. Mas repara, quando originalmente essa experiência aconteceu, foi ela resultado de alguma atividade volitiva da tua parte?  Ela sucedeu na sequência de algum esforço deliberado tendo em vista produzi-la? Estava presente a memória de alguma experiência que se procurava ressuscitar? Foi produto ou consecução de algum desejo? Havia alguma intenção de alcançar algo, algum agente ou algum processo envolvido? Não, pois não? Ela surgiu de forma totalmente inesperada, não foi? Aconteceu por si mesma, de forma espontânea, sem qualquer intervenção consciente da tua parte. A verdade é que tu - a atividade do pensamento, do esforço, da volição, do cálculo e do desejo - não estavas aí quando isso sucedeu. A tua pessoa nunca foi necessária. Tu estavas completamente ausente. Então porque queres agora ser um interveniente no processo? Porque te queres tornar agora parte da equação? Não é essa atitude completamente ilógica e insana? Além disso, para quê despender esforço e energia em busca de uma experiência que pela sua própria natureza é instável e impermanente?

Andas em busca de Deus? Da felicidade? Da iluminação? De alguma suprema realização ou compreensão? Esquece tudo isso. As palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação entre ti e a realidade. São estes conceitos que te impedem de ver que tu já és aquilo que procuras. Tudo está já presente. Nada da tua parte é requerido. Tudo é uma dádiva gratuita da consciência. Não podemos entrar no reino da felicidade, levando connosco a ganância, o desejo, o apego e a cobiça. Esse reino só permite a entrada a quem se apresenta completamente despido no coração e no espírito. Neste caso a nossa vontade de posse e domínio só pode resultar na morte da galinha dos ovos de ouro. Erramos e perdemos ao procurar conhecer e conquistar. Jamais poderás ter a receita da felicidade. Porque no reino da felicidade não entra aquele que sabe a receita e a procura aplicar. A felicidade é uma dádiva gratuita àquele que dela não se quer apropriar. Podes usufruir, mas jamais arrecadar.

Tu não existes como agente autónomo e separado do mistério e da graça divina. És a manifestação perfeita e inseparável desse mistério e dessa graça. Aquilo que tu és é consciência clara, luz imaculada eternamente presente e imutável. E tu jamais podes perder Isso, jamais podes esquecer Isso ou colocar qualquer distância entre ti e Isso. Porque Isso é o que tu és! Jamais podes afastar-te de ti próprio! Jamais podes deixar de ser Isso que tu és! És sempre essa presença consciente, vazia e transparente que torna possível todo o ver e experimentar. Quando julgas que a perdeste ou esqueceste, só podes ter perdido ou esquecido algum conceito, algum estado, memória ou experiência que com ela associaste. Mas foi apenas um equivoco. O que tu és jamais pode ser perdido ou esquecido. Porque só na presença disto, desta luz imóvel e imutável, é que podem suceder  e desfilar todos os estados transitórios, todas as experiências passageiras, toda a claridade e confusão, todo o lembrar e esquecer. Essa luz é o que tu és! Sempre foste essa luz! Nunca poderás ser outra coisa que não seja essa luz. O que deves valorizar não são as coisas que a consciência percebe mas sim a consciência que percebe as coisas.

Ver isto não é uma questão de aperfeiçoar os conceitos, de encontrar as palavras adequadas, de formular  definições mais perfeitas e rigorosas. O que acontece é que isto não pode ser captado mediante nenhum conceito, nenhum raciocínio, nenhum processo especulativo ou intelectual. Deixa de confiar na mente! A mente nada te pode mostrar. Ela apenas te ilude e confunde. Tens apenas de olhar e ver! Não tens de pensar. Ver, experimentar, sentir, escutar... antecede todo o pensar e raciocinar. Por mais fiel que seja a reprodução de um lago numa pintura, jamais nela  te poderás banhar. Não podes saciar a sede com a imagem de um copo de água. Trata-se de abandonar completamente toda a conceptualização. Simplesmente olhar a realidade que está presente além de quaisquer nomes e palavras. O simples acto intuitivo de apreensão daquilo que é presente na experiência imediata e não requer qualquer raciocínio ou elaboração. Daquilo que está ao dispor de qualquer criança, qualquer analfabeto, qualquer animal. É tão simples e tão óbvio que nos passa completamente despercebido. É como se alguém andasse desesperadamente à procura dos óculos que tem colocados sobre o nariz e que são precisamente o que lhe permite ver e procurar.

Lamentavelmente toda a tentativa de comunicar isto por palavras acaba involuntariamente por pôr em marcha o mecanismo que é necessário suspender para que isto possa ser visto. Porque o acto de percepção imediata da realidade acontece num nível diferente daquele que permite a tradução e interpretação verbal da experiência. Por isso talvez uma criança ou um homem sem instrução estejam em melhores condições de o apreender. Um homem que não aprendeu a ler poderá não entender a ementa dum restaurante, no entanto não verá diminuída a sua capacidade de se alimentar. Mas nem a mais completa e exaustiva das ementas poderá impedir que morra à fome um homem que nada tem para comer. As coisas não são as palavras que inventamos para as nomear. O símbolo não é a realidade. O ver e experimentar não é função do pensamento ou da atividade intelectual. Esta atividade tem que ser posta de lado para que o ver tenha lugar.

Estamos a apontar para aquilo que é o indicador mais primordial, óbvio, claro e evidente da nossa existência: a presença indubitável da consciência. Nada mais do que isto. Nós somos esta consciência.  Ela é tudo o que sempre julgámos que precisávamos de buscar sem nos apercebermos que nunca dela estivemos separados. Só ela representa a realidade última e primeira pois é a condição que precede todo o fenómeno e experiência. Como poderias pensar, sentir ou perceber seja o que for, sem que primeiro esteja presente a consciência que te permite pensar os pensamentos, sentir os sentimentos, perceber e experimentar tudo aquilo que percebes e experimentas?

Aquilo que sempre buscaste é na verdade a única coisa que sempre tiveste!... Porque é aquilo que tu és! Aquilo que sempre foste e jamais deixarás de ser! Nunca serás nada mais do que consciência. É só isto o que tens de reconhecer. Nada mais há que precises de compreender ou alcançar. Tudo o mais não passa de histórias e invenções da mente sem qualquer fundamento, sem qualquer substância ou significado. Essas histórias não te podem ajudar, não te podem completar, nada te podem trazer ou acrescentar. Elas apenas te podem distrair do essencial. Tu já és completo, nada precisas buscar. A consciência que és, é tudo o que precisas ser. É dela que se origina tudo aquilo que buscas e desejas, tudo o que alguma vez poderás almejar, sentir, viver, experimentar. Não precisas de um mapa para caminhar, porque tu próprio já és a luz que ilumina o caminho.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Nada precisas buscar, modificar ou compreender

A maioria das publicações que tratam a não-dualidade consiste na transcrição de diálogos e exposições orais que emergem de forma espontânea em palestras, encontros (Satsang) ou outras situações. Os aspetos tratados só podem ser parciais e limitados. Referem-se sempre a determinada faceta ou perspetiva de uma realidade cuja totalidade é impossível abarcar em qualquer discurso singular. Geralmente são respeitantes à superação de qualquer dificuldade ou obstáculo apresentado por um buscador em particular. As palavras e conceitos que então se utilizam não devem ser erigidos em verdades absolutas com as quais qualquer outra exposição verbal deverá concordar. As palavras e conceitos em que isto se procura expressar terão sempre um valor meramente relativo e contextual. Não existe qualquer conhecimento, doutrina ou verdade definitiva e absoluta que elas procurem transmitir. São apenas um instrumento provisório que poderá ser útil para superar uma dificuldade ou esclarecer uma situação em particular. O que se procura é clarificar uma atitude, desmascarar o auto-engano, provocar um  despertar ou tomada de consciência das múltiplas formas em que a mente nos procura iludir. Mas a realidade estará sempre além e independente de qualquer formulação conceptual.

Nesta jornada de auto-conhecimento e libertação, todas as palavras, todos os conceitos e declarações verbais só poderão ter como destino final o seu próprio abandono e superação. A sua função é meramente instrumental. São como aquelas toalhas de limpeza descartáveis que se jogam no lixo depois de terem cumprido a sua função. A tua própria compreensão da verdade não tem de ser de acordo com as palavras de qualquer mestre, professor, doutrina ou tradição. A verdade e a compreensão não te virão através do esforço por decifrar qualquer dessas declarações, por maior que seja a autoridade ou veneração que concedas ao seu autor. Se a tua vida não está de acordo com um livro, o que deves queimar é o livro e não a tua vida, pois é a tua vida que é real. A teoria jamais se poderá sobrepor à experiência, que é a fonte de toda a teoria.. As palavras só são significativas quando brotam do contato direto com a realidade, isto é, quando são expressão do teu próprio entendimento, do teu próprio sentir e experimentar. Não é a verdade que provém das palavras, as palavras é que deverão ser submetidas ao julgamento da verdade. Daí, a sentença de um antigo filósofo grego: "Indaga as palavras a partir das coisas e não as coisas a partir das palavras!". 

Quando o teu desejo por certeza e segurança te leva ao apego a crenças, símbolos e palavras, confundes os conceitos com a realidade. Passas a exigir que a realidade se ajuste às tuas palavras em vez de ajustares estas à realidade. Entregas-te à construção de um castelo conceptual que te garanta a segurança e certeza de estares na posse da verdade. Mas tal exigência jamais poderá ser satisfeita e constantemente te verás na necessidade de o defender contra o assalto de dúvidas e contradições. Porque as palavras e conceitos não passam de ferramentas limitadas e imperfeitas para representar a realidade. Quando julgas que a compreensão e a verdade te poderão vir através de símbolos e do pensamento conceptual, estás a exigir dos conceitos e palavras algo que  eles jamais te poderão dar. O estudo de um mapa não pode substituir a experiência real de pisar um território.

As palavras que se revelaram adequadas e esclarecedoras num determinado contexto, podem ser completamente disfuncionais e inapropriadas num contexto diferente. E além disso como poderemos saber com segurança se não estaremos a atribuir às palavras de alguém um significado diferente do que esse alguém lhes atribui? Quanto mais enigmáticas e estranhas te parecerem as expressões que julgas ter de entender, mais irás esforçar o pensamento no sentido de as descodificar. E por sua vez, quanto mais intensa for esta atividade pensante, mais ela te irá afastar daquilo que é verdadeiramente essencial: permanecer centrado nessa límpida e clara presença consciente onde tudo se origina e a que nada pode ser acrescentado ou subtraído. Tu já és essa presença consciente, sempre perfeita, eternamente brilhante e completa. Nada precisas decifrar ou compreender. Essa consciência que tu és é tudo o que tens de recordar.

Encontras-te envolvido numa batalha interior procurando conciliar palavras e conceitos? A desatar nós e clarificar significados? A deslindar aparentes paradoxos e contradições? Estás a confundir o mapa com o território. A desperdiçar energia num conflito supérfluo e inútil do qual nenhum beneficio te poderá advir. O salto para fora da mente não pode ser dado procurando satisfazer as suas intermináveis pretensões e exigências. A própria mente sempre está ocupada em destruir as suas próprias construções. Tudo o que a mente constrói, a mente pode destruir. A mente sempre encontra mais uma pergunta para colocar, mais um problema para resolver. Desse jogo depende a sua própria sobrevivência. E entretanto a tua atenção deixa de estar focada no mundo da realidade presente, óbvia e inescapável e és arrastado para um mundo imaginário, virtual, ilusório, meramente conceptual. É como se estivesses a assistir a um filme Western na TV e te atirasses para debaixo da mesa em busca de proteção dos tiros que acontecem no ecrã, ou te levantasses frenéticamente em busca do impermeável e do guarda-chuva quando assistes ao "Singing in the rain". A realidade está além da mente, dos seus jogos e dilemas e da sua interminável busca por respostas.

Para qualquer afirmação podemos sempre encontrar um sentido em que é verdadeira e outro em que é falsa, um ponto de vista que a sustenta e outro que a refuta, uma perspetiva que a confirma e outra que a rejeita. A mente alimenta-se deste inevitável dilema ao nível verbal. Mas os paradoxos e contradições só acontecem ao nível conceptual, dizem apenas respeito a símbolos e palavras, não afetam a realidade. O conflito nunca é entre uma verdade e outra verdade, mas entre diferentes expressões da verdade. Quaisquer problemas, dúvidas ou confusões são sempre respeitantes ao mapa, jamais se encontram no território. A realidade nunca é paradoxal ou contraditória. A realidade é o que é, independentemente das palavras que a pretendam descrever ou simbolizar. Nenhuma confirmação lhe pode dar maior solidez e nenhuma refutação a pode beliscar sequer. Um juízo falso pode ser desmontado no confronto com a realidade, mas a realidade jamais poderá ser determinada por qualquer juízo erróneo a seu respeito. Tu não tens que desperdiçar a tua energia a resolver problemas que apenas existem para uma entidade fictícia num mundo ilusório e irreal. Nada de fundamental ou significativo se perde pelo facto de renunciares à luta e ao esforço para apreenderes palavras e conceitos. Tens apenas que despertar para a realidade imediata e presente que se encontra aqui, agora, e é independente de toda a formulação verbal. O que é real é sempre claro e evidente e nunca é problemático ou contraditório porque não é um conceito mental.

As palavras e conceitos geram uma separação ilusória e então julgas ter que buscar a única coisa que sempre tiveste. Elas enganam-te e iludem-te. Tu não estás separado do que julgas andar em busca. Aquilo que é real e verdadeiro é uno e não dual. Tu próprio já és a verdade que sempre perseguiste. Nada precisa ser modificado ou melhorado, nenhuma pergunta respondida, nenhum problema precisas resolver. Não tens que lutar contra a confusão ou esforçar-te por buscar claridade. Aquilo que é verdadeiro e essencial não é uma realização a alcançar porque nunca foi perdido.

Como diz um provérbio Zen : "Se tu compreendes, as coisas são exatamente o que elas são; se não compreendes, as coisas são exatamente o que elas são!". Ou como afirmava o célebre mestre Ma-Tsu: "A mente que não compreende é o Buda, não existe outra!". Isto significa que a natureza essencial da consciência que tu és, não pode ser afetada por qualquer dúvida, confusão ou incerteza e não é susceptível de qualquer aperfeiçoamento ou modificação. É sempre perfeita, completa e luminosa. O segredo da plena conexão com a misteriosa inteligência que rege o  universo tem muito mais a ver com aceitação e confiança do que com rejeição e resistência.

Permanece céptico e vigilante em relação ao canto de sereia da mente. Ela constantemente irá procurar atrair a tua atenção e envolver-te na resolução de problemas imaginários para uma entidade imaginária. Não tens que levar a sério as suas invenções. Tudo não passa de uma criação do pensamento. Evita sucumbir à sua sedução. Não permitas que a tua atenção seja absorvida pelos jogos da mente, pelos seus dilemas e sugestões. Permanece ancorado naquela realidade que não é produto da fábrica mental. Dirige a atenção para as sensações presentes no corpo. Através da consciência corporal podes sempre conectar-te à realidade presente aqui e agora. Escuta o bater do coração; observa o teu próprio respirar; nota tudo o que te chega através dos sentidos. Não permitas que o riso das crianças ou o canto dos pássaros te passem despercebidos. Que a tua atenção seja como o ar que invade uma habitação, que nenhum recanto por mais escondido, que nenhum espaço por mais afastado deixe de por ela ser preenchido. Sente a carícia do sol, a brisa do vento e o chão que pisas ao caminhar. Isto liberta o foco da prisão da mente e traz a atenção para aquilo que é real e presente. Coloca-te sempre num plano superior ao burburinho da mente. A mente é atraída pelas suas projeções mas a consciência observa a própria mente. Cria alguma distância. Não te identifiques. Sê um espectador de ti próprio. Nada disto tem a ver contigo. Nada disto és tu. Nada disto te pertence. És uma ausência plenamente presente.
 
Não convertas estas palavras num outro problema que precises resolver. Quem seria a entidade a lutar para o fazer? Não existe o individuo que supostamente iria beneficiar dessa atividade. Repara como o pensamento se encontra às voltas numa luta consigo próprio. Tal luta significa apenas que acreditas na existência de alguém (tu) que a pode travar e que através dela poderá evoluir ou crescer. É essa entidade que tem uma existência meramente fictícia, fantasmagórica. Não tem qualquer substância, nenhuma estabilidade, nenhuma permanência, nenhuma realidade. Todas as construções do pensamento têm a mesma consistência de figuras desenhadas na areia à beira-mar. São como nuvens dispersas pelo vento. 

O discurso do sábio não pretende satisfazer o teu desejo de segurança e de saber, mas antes aniquilá-lo completamente. O conflito e o esforço são sempre inúteis pois não existe a entidade que deles possa beneficiar. Nada existe de estável no aparente individuo separado. Não existe nenhum pensador que subsista quando o pensamento desaparece. Toda a atividade egocêntrica em busca de respostas, todo o apego e acumulação, todo o avanço e retrocesso em torno desta figura imaginária, tem a mesma utilidade e consistência de um livro escrito nas águas passageiras de um rio. É como vapor que se dispersa e desaparece. É por isso que a busca é inútil e jamais pode ser satisfeita. Porque o ego que ela pretende preencher é totalmente ilusório. Tem a mesma solidez de um desenho esboçado nas nuvens. Despertar da busca significa simplesmente perceber que o buscador nunca teve existência real. Nunca teve maior consistência que um pensamento.
Questiona a mente e os seus produtos e atividades, por mais atraentes e irresistíveis que eles te possam parecer. Podes sempre abandonar os problemas que ela insiste em te colocar, renunciar às batalhas em que ela te quer envolver. Pergunta a ti mesmo se realmente necessitas da segurança que ela te promete oferecer. Decide-te simplesmente a prescindir das soluções que o pensamento constantemente está ocupado em encontrar. Poderás descobrir que nunca precisaste delas, que a mente apenas te pretende enganar. Só o que permanece na ausência da mente, aquilo que resiste ao teste do silêncio, é que é real.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Mostra-me o Teu Rosto Original

"Mostra-me o teu verdadeiro rosto, aquele que é o teu rosto original antes dos teus pais serem nascidos." -Koan Zen
Os outros têm de ti apenas uma representação. Aos outros tu apareces como objeto. Mas tu, a ti mesmo, vives-te como sujeito. Aquilo que tu és verdadeiramente é a  vivência subjetiva que tens de ti mesmo como sujeito de percepções e experiências. Tu és Aquele que vê e não aquilo que é visto. A tua dimensão como sujeito jamais poderá surgir no campo de percepção do outro. O outro apenas pode vivenciar a sua própria subjetividade que a ti é invisível. Somos todos invisíveis uns para os outros! É só ao nível da subjetividade interna que a realidade ultima é "experienciada", que  contactamos aquilo que constitui a nossa verdadeira natureza, o ser autêntico e real de cada um de nós.

Em ultima instância apenas a consciência é real, pois a consciência é a condição de toda a experiência. A sua natureza é impessoal e universal. Não é nenhum atributo pessoal ou individual.  A pessoa separada não existe. A sensação de sermos indivíduos separados é ilusória. Origina-se da identificação com o corpo e a história pessoal. A pessoa é a experiência; a consciência é a capacidade de experimentar.Tu não és diferente de mim. Somos apenas diferentes ondas de um mesmo oceano de existência. Todas as distinções aparentes são emanações de um único campo universal de inteligência. Não existe outra realidade além da consciência única da qual todos participamos; além dessa linha invisível, subjacente a todos esses centros de percepção que emergem como os nossos corpos aparentes. Não existe nada a distinguir e a separar duas gotas de água que se elevam do oceano. E todo o oceano se manifesta em cada gota! 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"MuShin" - Considerações sobre o estado de "Não-Mente"



De uma forma mais ou menos consciente, os esforços do buscador quase sempre são direcionados ao aperfeiçoamento do conteúdo da mente, à busca da filosofia e das respostas mais rigorosas e perfeitas, à elaboração da suprema norma de conduta, algo que possa adquirir e usar. A plena maturidade vem com a compreensão de que qualquer apego ou aquisição se converte num estorvo. Todo o conteúdo e acumulação limita a liberdade e turva a consciência como a sombra escura que limita e diminui o circulo brilhante da lua. Maturidade é compreender que a realização suprema não é algo que se possa alcançar ou adquirir, mas antes um estado original que importa reconhecer. O importante não é o conteúdo perfeito mas sim o vazio perfeito. "A melhor coisa não é melhor do que nada!", diz um provérbio Zen.

Os mestres Taoistas e Zen-Budistas descrevem muitas vezes o nosso estado natural como um estado de "Não-Mente" (MuShin em japonês). É um conceito poderoso pela sua radicalidade e poder descritivo. Refere-se a um estado de pura percepção, isenta de verbalização ou pensamento conceptual. É o simples estado natural de total disponibilidade, abertura e "não-saber". O encontro com os fenómenos e acontecimentos é totalmente vulnerável, inocente e inseguro, porque liberto de qualquer mediação pelos mecanismos de tradução da experiência. Ausência da mente significa a ausência do ego. É o silenciar das reações dum observador separado; daquele comentador de fundo constituído de expectativas, julgamentos, desejos, esperanças e temores; o fim do cálculo em torno da aprovação ou rejeição social; o calar dessa voz que persiste em nos dizer que poderíamos ter agido melhor no passado ou como deveremos agir no futuro.

A iluminação ou o despertar não tem que ver com alguma classe de eventos ou estados particulares. A iluminação não diz respeito à situação em que te encontras ou à forma como te sentes ou te comportas. Não existe uma categoria correta de estados iluminados em oposição àqueles que excluem a iluminação. O que desaparece é a divisão interior. Deixa de estar presente o comentarista ou censor que julga, avalia ou compara. Existe apenas um fluir natural e espontâneo. O sentir, viver e agir puro e simples. Não mais existe a entidade ficticia que se separa da experiência para a julgar, condenar ou justificar, "alguém" que sabe e idealiza e que sempre olha para aquilo que é, através de uma ideia de como deveria ser. Cessa a aparente atividade de um "eu" imaginário, de um agente ilusório a pretender controlar, modificar ou manipular.

Importa compreender que não se trata da aquisição de qualquer tipo de perfeição, sabedoria ou virtude. É um estado totalmente isento de conteúdo. Puro vazio! A denominação "Não-Mente" procura precisamente evitar  a confusão da dualidade e da luta entre os opostos. É o fim do conflito entre a aceitação e a recusa, da luta entre "o que é" e "o que deveria ser". Cessa toda a possibilidade de rejeição e escolha, toda a  comparação entre o que penso que sou e algo em que me deveria converter. É o fim da auto-consciência com as suas atividades calculistas e protetoras em torno de uma figura imaginária.

O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece deixa de haver qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém que possa reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de "Não-Mente" não existe o conhecimento do estado de "Não-Mente". Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que dele possa beneficiar. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de "vir-a-ser" ou de "tornar-se algo", desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia, equilíbrio e unidade, mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.

O conhecimento conceptual implica sempre separação e dualidade. O conhecimento é como um dedo que aponta para fora, originando o experimentador separado da experiência, o sujeito separado do objeto, o agente separado da ação. Esta divisão termina quando há perfeita quietude mental. Neste estado de quietude não existe qualquer pensamento ou entidade para verbalizar ou conhecer o estado de consciência experimentado. O estado de "Não-Mente" não é algo que se possa obter ou conhecer, mas apenas ser e vivenciar. Daí que sempre se nos faça a advertência de que as palavras são como indicadores que nos apontam uma direção mas que teremos de abandonar ao entrarmos no caminho apontado. As palavras são como uma porta que é deixada para trás uma vez atravessada. Elas não nos podem acompanhar no salto que nos estabelece na pura realidade. A realidade é anterior a todas as palavras. O oceano da verdade é como um poço de ácido corrosivo em que somos completamente dissolvidos ao nele mergulharmos. Nós desaparecemos e resta apenas a realidade. Apenas este fluir interminável sem causa nem propósito a que chamamos viver... e uma alegria transbordante a impregnar o ser e o experimentar.

O estado de "Não-Mente" não pode ser uma ideia a aplicar ou objetivo a atingir. Se eu tiver uma concepção mental do estado de "Não-Mente", o que seria uma contradição nos termos, então a minha experiência será avaliada de acordo com tal concepção. Esta atividade faz ainda parte das maquinações ilusórias do ego. Na ausência da mente cessa toda a avaliação e escolha. O ego simplesmente se dissolve numa fusão total com o ritmo do próprio Cosmos. É um estado de total imobilidade atemporal, de plena comunhão com "aquilo que é", com  "o que está". A atenção não mais se deixa capturar por algum momento fixo no tempo, mas permite-se fluir harmoniosamente com a perpétua e célere transformação da realidade emergente. Não significa que tu te tornaste inteligente, mas sim que deixaste de ser um obstáculo no caminho da inteligência.

O estado de "Não-Mente" não pode ser reconhecido, uma vez que está ausente o mecanismo que permite comparar, avaliar ou reconhecer. É por isso que toda a atividade e esforço em torno do auto-aperfeiçoamento, toda a luta procurando aniquilar o ego ou obter a "iluminação", não passa de um inútil desperdício de energia. É tão fútil como um cão procurar agarrar a própria cauda ou uma criança tentar ultrapassar a própria sombra. O silêncio jamais poderá coexistir com a entidade que o procura alcançar, porque o silêncio aniquila completamente  aquele que almeja o silêncio. Só quando te retiras da frente de um espelho é que ele deixa de refletir a tua imagem, mas então tu já não te encontras aí para confirmar essa ausência.

O que temos de compreender é qual o vento, qual a água que ao banhar a mente a liberta de todo o passado e condicionamento. Por certo que não poderá ser nada vindo da própria mente. Há uma realidade que só toma forma no imediato plano existencial. É uma dimensão que o pensamento não pode antecipar ou recordar. A mente jamais poderá invocar a sua própria ausência. Isto é que importa perceber. Aquilo que é manifesto no silêncio, só o silêncio pode experimentar. A atividade do pensamento é um jogo circular de que ele próprio se alimenta. Mas há uma presença inefável que o pensamento jamais  poderá tocar. Esta presença não é um atributo mas sim o próprio Ser. É aquilo que somos e não algo que possuímos.

É por isso que o estado de "Não-Mente", a "libertação", não pode ser um processo gradual. O tempo só existe na mente e a mente não pode ser o instrumento que permite passar além da mente. A mente jamais poderá cooperar na sua própria destruição. A saída deste circulo opressivo só pode ser uma resolução instantânea, como um salto para além da mente. Este salto não requer nenhum "fazer", nenhum pré-requisito é necessário cumprir. Consiste muito mais numa negação, num não agir, não fazer, não interferir (o "Wu Wei" do taoismo chinês), do que nalgum fazer, agir ou actuar positivamente.

É por ser uma coisa tão fácil e tão simples que ela parece difícil ou complicada. No entanto, uma vez mais, a dificuldade ou complicação só existe para a mente. Mas a mente não desempenha aqui qualquer papel. A mente, o ego, o pensamento jamais poderá contactar ou experimentar a sua própria ausência. Isto é que tem que ser compreendido. Aquele estado torna-se presente quando a mente renuncia a todas as suas atividades, motivos e desejos. Sendo o nosso estado natural, ele não pode ser gerado através de esforço nem precisa de ser criado por qualquer atividade da nossa parte. Porque é preexistente a todas as nossas atividades. Não requer sequer ser conhecido ou verbalizado. Procurar conhecê-lo ou obtê-lo, é tão absurdo como um peixe andar à procura da água onde nada. É este o significado profundo do termo "Graça", aquilo que é  gratuito, livre de causa, que não pode ser um resultado ou objetivo. Acaso a vontade de um recém-nascido poderá ser a causa do seu ser e existir? Poderá ele ser o autor do seu próprio respirar, ver e sentir? É o nosso esforço e a nossa vontade que faz o coração bater e o sangue circular?...

O risco que se corre ao fazer estas exposições verbais, é o de elas poderem involuntariamente intensificar a própria atividade que se pretende fazer cessar. As palavras fazem parecer complicado aquilo que de modo nenhum o é. Podem dar um colorido de complexidade àquilo que é naturalmente simples.  Estas palavras não devem ser convertidas numa ideia a reter e aplicar. As palavras são meramente a expressão de uma realidade que está antes delas. Devem ser vistas como uma grosseira tentativa de descrição e não como uma prescrição. A claridade e lucidez não depende de palavras ou de expressão. Nada disto deve ser convertido num problema ou num esforço de compreensão. Compreender a realidade não é compreender as palavras que a procuram descrever. Nenhuma descrição é adequada, porque nenhuma descrição pode substituir o sabor da realidade. Se entrares num restaurante chinês, poderás não compreender a ementa, mas isso não te impede de usufruir plenamente da refeição. Aquilo que é real e verdadeiro não depende de conhecimento ou de verbalização. A ordem da realidade não depende da ordem das palavras e do pensamento. Podemos falhar todas as questões dum exame de anatomia, no entanto o nosso metabolismo não deixará de funcionar perfeitamente. Nunca precisámos de aprender a crescer, a digerir ou a respirar. Ser e viver está além do conhecer e compreender. O conhecimento é um subproduto, um resultado. O importante é aquilo que lhe é anterior e lhe está na origem: o estado de aprender e experimentar. E este é um estado de vazio e receptividade que só se manifesta plenamente quando não há esforço nem apego, nem luta por controlar, reter ou alcançar.

Não há solução para este dilema senão o abandono de todo o problema. Voltar a atenção para a realidade imediata e presente que a todo o momento se desenrola, completamente livre e alheia a quaisquer que sejam os nossos motivos, desejos e ruminações. "Esquecer tudo é o meio supremo", dizem os mestres Zen. Abandona todos os teus pensamentos e pretensões, estabelece-te na paz e quietude do silêncio interior, e aquilo que então restar, isso é que é real!

domingo, 22 de setembro de 2013

Milagres e Realidade, Santos e Profetas, Verdade e Autoridade

Nesta questão da busca espiritual e procura da verdade, sempre me pareceu essencial a libertação da autoridade. Não há salvação fora da inteligência e esclarecimento individual. Não existe alternativa à investigação da própria experiência, à descoberta direta por nós mesmos. Por isso sou particularmente alérgico a um dos principais obstáculos à comunicação eficaz e esclarecimento da realidade. Refiro-me à necessidade de atribuir origens misteriosas e poderes sobrenaturais àqueles que consideramos sábios e esclarecidos. Deste vicio nefasto sempre sofreram as religiões organizadas. E é também o truque a que recorrem muitos pseudo-mestres ou gurus. Atraem discípulos e seguidores fazendo apelo a superstições e fantasias, avidez por milagres e promessas. Esta tentação sempre constituiu uma barreira que impediu que a autêntica mensagem dos sábios e profetas fosse eficazmente compreendida. Para que uma mensagem seja significativa e tenha valor para nós, não tem de provir de algum ser especial e transcendente que não partilhe a mesma natureza que nós partilhamos. Pelo contrário. Se essa mensagem não provem de alguém cuja natureza partilhamos, então não faz qualquer sentido procurar compreendê-la, uma vez que a sua experiência estará além daquilo que nós mesmos podemos experimentar e compreender.

Para encontrar sentido e significado no Sermão da Montanha, não preciso de acreditar que Jesus nasceu de uma mulher virgem, caminhava sobre as águas ou ressuscitava os mortos! Mesmo que comprovados, nenhum destes atributos seria o factor capaz de conferir veracidade às suas declarações. Para determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa, o que temos que verificar é se tem ou não correspondência na realidade dos factos e da experiência. E isso nada tem a ver com quaisquer características pessoais de quem a enuncia. Nada no mensageiro determina o valor da mensagem. Se alguém chegasse ao pé de nós e nos dissesse que a nossa casa se encontrava em chamas, o que faríamos? Iamos verificar as credenciais e o currículo de quem nos dava a informação?... Ou simplesmente desatávamos a correr para o local da nossa moradia?  Se não fosse a tentação que os seguidores (ou aproveitadores!?) dos sábios e profetas tiveram de deturpar os seus ensinamentos envolvendo-os em mitos e fantasias, a mensagem daqueles homens teria chegado até nós de forma mais autêntica, útil e eficaz. Não duvido que hoje, em muitos livros religiosos, é uma verdadeira proeza separar  a mensagem autêntica da fantasia que lhes foi acrescentada.

O que é para nós significativo e útil, é aquilo que contribui para o esclarecimento da nossa vida e da nossa experiência. As fantasias, mitos e milagres apenas confundem e impedem que a verdade chegue até nós. Somos seres humanos comuns e todos partilhamos da mesma humana natureza. A nossa experiência nada tem de transcendente ou sobrenatural. O mágico e o miraculoso não nos interessam. Só quem não está desperto para ver e sentir a beleza e o milagre que é a nossa existência concreta neste mundo, precisa da compensação e promessas de um outro mundo qualquer. A libertação e a alegria nesta vida não advém do facto de sermos imunes ao condicionamento, ao sofrimento e às paixões. Pelo contrário. Vem do facto de mais intensamente o termos experimentado e sofrido, para assim o podermos compreender e transcender. Foi o facto de termos sofrido mas termos descoberto a saída do sofrimento que leva a querer compartilhar com os outros essa descoberta.

A libertação encontra-se neste mundo e nesta vida. Na vida ordinária do quotidiano. Temos é de estar despertos e viver de forma mais consciente as nossas circunstâncias ordinárias. O paraíso que procuramos já está aqui. Nós é que sempre estivemos distraídos, ocupados em procurá-lo noutro sitio qualquer.