A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tu já és aquilo que procuras


“I have lived on the lip of insanity, wanting to know reasons,
knocking on a door. It opens.
I've been knocking from the inside.”
― Jalaluddin Rumi

O dilema e a tragédia de quase todos os buscadores é que, depois de terem um "insight espiritual", uma experiência de "despertar", ficam eternamente presos na armadilha de a procurar reproduzir ou capturar ou nela permanecer. O segredo está em não te aferrares a nada, nem mesmo a qualquer experiência de despertar. Abandona a tua memória de experiências, estados e realizações. São apenas cinzas mortas sem qualquer vida ou substância. A memória é apenas distração. A verdade é sempre viva e vibrante. Este momento nunca aconteceu. Nunca nada se repete.  "Jamais voltes ao lugar onde foste feliz!", diz uma canção, "...Nada do que por lá vires será como no passado. / Não queiras reacender um lume já apagado."

Não te aferres a quaisquer palavras ou conceitos, a nenhum estado, experiência ou conhecimento, pois acabas inevitavelmente por ofuscar a consciência onde todos esses elementos de forma espontânea emergem. Poderás registar as palavras que brotam da claridade e pretendem traduzir a compreensão, mas elas jamais poderão substituir aquela claridade que as fez emergir. Não queiras guardar lembranças através de palavras mortas. Só podes guardar conceitos, não a verdade.

A "coisa" como aparece no pensamento, como é invocada na memória, nada tem a ver com a experiência real, anterior e independente daquela invocação. Aquele que recorda a experiência não é o que a viveu e experimentou. São duas dimensões e duas realidades completamente diferentes e que se excluem mutuamente. A ideia da coisa nada tem a ver com a vivência da coisa sem ideia. A ideia é colorida pela memória psicológica da dor e do prazer, pelo mecanismo de rejeição e apego, aversão e desejo. Todo este processo é alheio ao sabor da experiência original. Por isso diz Shunryu Suzuki, o mestre Zen, "Tão pronto como vês algo e começas a intelectualizá-lo, aquilo que intelectualizas já não é o que viste!" Claro que não é o que viste! A mente não pode ver nada. O pensamento, sendo apenas uma pálida sombra da percepção, jamais a poderá substituir. A mente transporta-te para um mundo ilusório de conflitos, lutas e desejos completamente desnecessários.

Podes invocar a memória de um estado, uma experiência ou um prazer com a intenção de o reviveres, de o ressuscitares, ou de conseguires a fórmula da sua permanência. Mas repara: quando originalmente essa experiência aconteceu, foi ela resultado de alguma atividade volitiva da tua parte?  Ela sucedeu na sequência de algum esforço deliberado tendo em vista produzi-la? Estava presente a memória de alguma experiência que se procurava ressuscitar? Foi produto ou consecução de algum desejo? Havia alguma intenção de alcançar algo, algum agente ou algum processo envolvido? Claro que não! Ela surgiu de forma totalmente inesperada, não foi? Aconteceu por si mesma, de forma espontânea, sem qualquer intervenção consciente da tua parte. A verdade é que tu - a atividade do pensamento, do esforço, da volição e desejo - não estavas aí quando isso sucedeu. A tua pessoa nunca foi necessária. Tu estavas completamente ausente. Então porque queres agora ser um interveniente no processo? Porque te queres tornar agora parte da equação? Não é essa atitude completamente ilógica e insana? Além disso, para quê despender esforço e energia em busca de uma experiência que pela sua própria natureza é instável e impermanente?

Andas em busca de Deus? Da felicidade? Da iluminação? De alguma suprema realização ou compreensão? Esquece tudo isso. As palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação entre ti e a realidade. São estes conceitos que te impedem de ver que tu já és aquilo que procuras. Tudo está já presente. Nada da tua parte é requerido. Tudo é uma dádiva gratuita da consciência. Não podemos entrar no reino da felicidade, levando connosco a ganância, o desejo, o apego e a cobiça. Esse reino só permite a entrada a quem se apresenta completamente despido no coração e no espírito. Neste caso a nossa vontade de posse e domínio só pode resultar na morte da galinha dos ovos de ouro. Erramos e perdemos ao procurar conhecer e conquistar. Jamais poderás ter a receita da felicidade. Porque no reino da felicidade não entra aquele que sabe a receita e a procura aplicar! A felicidade é uma dádiva gratuita àquele que dela não se quer apropriar. Podes usufruir, mas jamais arrecadar! 

Aquilo que tu és é consciência clara, luz imaculada, eternamente presente e imutável. E tu jamais podes perder Isso, jamais podes esquecer Isso ou colocar qualquer distância entre ti e Isso. Porque Isso é o que tu és! Jamais podes afastar-te de ti próprio! Jamais podes deixar de ser Isso que tu és! És sempre essa presença consciente, vazia e transparente que torna possível todo o ver e experimentar. Quando julgas que a perdeste ou esqueceste, só podes ter perdido ou esquecido algum conceito, algum estado, memória ou experiência que com ela associaste. Mas foi apenas um equivoco. O que tu és jamais pode ser perdido ou esquecido. Porque só na presença disto, desta luz imóvel e imutável, é que podem suceder  e desfilar todos os estados transitórios, todas as experiências passageiras, toda a claridade e confusão, todo o lembrar e esquecer. Essa luz é o que tu és. Sempre foste essa luz. Nunca poderás ser outra coisa que não seja essa luz. O que deves valorizar não são as coisas que a consciência percebe mas sim a consciência que percebe as coisas.

Ver isto não é uma questão de aperfeiçoar os conceitos, de encontrar as palavras adequadas, de formular  definições mais perfeitas e rigorosas. O que acontece é que Isto não pode ser captado ou visto mediante nenhum conceito, nenhum raciocínio, nenhum processo especulativo ou intelectual. Deixa de confiar na mente! A mente nada te pode mostrar. Ela apenas te ilude e confunde. O que tens é de olhar e ver! Não tens de pensar! Ver, ser, sentir, observar... antecede todo o pensar e raciocinar. Por mais fiel que seja a reprodução de um lago numa pintura, jamais nela  te poderás banhar. Não podes saciar a sede com a imagem de um copo de água. Trata-se de abandonar completamente toda a conceptualização. Simplesmente olhar a realidade que está presente além de quaisquer nomes e palavras. Um simples acto intuitivo de apreensão daquilo que é presente na experiência imediata e não requer qualquer raciocínio ou elaboração. Daquilo que está ao dispor de qualquer criança, qualquer analfabeto, qualquer animal. É tão simples e tão óbvio que nos passa completamente despercebido. É como se alguém andasse desesperadamente à procura dos óculos que tem colocados sobre o nariz e que são precisamente o que lhe permite ver e procurar.

Lamentavelmente toda a tentativa de comunicar isto por palavras acaba involuntariamente por pôr em marcha o mecanismo que é necessário suspender para que isto possa ser visto. Porque o acto de percepção imediata da realidade acontece num nível diferente daquele que permite a tradução e interpretação verbal da experiência. Por isso talvez uma criança ou um homem sem instrução estejam em melhores condições de o apreender. Um homem que não aprendeu a ler poderá não entender uma ementa, no entanto não verá diminuída a sua capacidade de se alimentar. Mas nem a mais completa e exaustiva das ementas poderá impedir que morra à fome um homem se ele nada tiver que comer. As coisas não são as palavras que inventamos para as nomear. O símbolo não é a realidade. O ver e experimentar não é função do pensamento ou da atividade intelectual. Esta atividade tem que ser posta de lado para que o ver tenha lugar.

Estamos a apontar para aquilo que é o indicador mais primordial, óbvio, claro e evidente da nossa existência: a presença indubitável da consciência. Nada mais do que isto! Nós somos esta consciência.  Ela é tudo o que sempre julgámos que precisávamos de buscar sem nos apercebermos que nunca dela estivemos separados. Só ela representa a realidade última e primeira pois é a condição que precede qualquer fenómeno ou experiência. Como poderias pensar, sentir ou perceber seja o que for, sem que primeiro esteja presente a consciência que te permite pensar os pensamentos, sentir os sentimentos, perceber e experimentar tudo aquilo que percebes e experimentas?

Aquilo que sempre buscaste é na verdade a única coisa que sempre tiveste!... Porque é aquilo que tu és! Aquilo que sempre foste! Nunca serás nada mais do que consciência. É só isto o que tens de reconhecer. Nada mais há que precises de compreender ou alcançar. Tudo o mais não passa de histórias e invenções da mente sem qualquer fundamento, sem qualquer substância ou significado. Essas histórias não te podem ajudar, não te podem completar, nada te podem trazer ou acrescentar. Elas apenas te podem distrair do essencial. Tu já és completo, nada precisas buscar. A consciência que és, já é tudo o que precisas ser. É dela que se origina tudo aquilo que buscas e desejas, tudo o que alguma vez poderás almejar, sentir, viver, experimentar.

Sem comentários:

Enviar um comentário