A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






terça-feira, 25 de agosto de 2015

MENTE – CONSCIÊNCIA - IDENTIDADE



A questão da identidade essencial, a indagação em torno da pergunta “O que sou?”, constitui o núcleo à volta do qual gravitam todas as grandes tradições espirituais e religiosas.

Nesta inquirição alguns termos e expressões poderão adquirir significados ligeiramente diferentes em função do contexto e da tradição em que são utilizados. Por isso devemos evitar uma atitude demasiado rígida e permitir-nos alguma flexibilidade na interpretação de certas palavras e expressões.

Quem leu os grandes mestres do Zen-Budismo terá reparado que nesses textos é muitas vezes utilizado o conceito de “grande mente”, “mente essencial”, "mente única" ou “mente original” para se referirem àquilo que constitui a nossa autêntica natureza, a nossa identidade essencial e que os autores Advaita (náo-dualidade) denominam “Consciência”. Ambas as tradições apontam para a mesma realidade.

Na maioria dos textos Advaita faz-se uma distinção entre  mente e consciência, que de forma breve podemos clarificar como segue:

Mente – É expressão da experiência individual sob a forma de pensamentos, memórias, desejos e aversões, emoções e sentimentos. É apenas um objeto ou conteúdo da consciência. É resultado do tempo e está sujeita ao jogo da mudança e da impermanência. O "eu" pessoal e fenoménico e aquilo a que chamamos "personalidade" não passa de uma construção fictícia que resulta da nossa identificação com estas formações mentais.

Consciência – É aquilo que constitui a nossa natureza essencial e imutável. É omnipresente, atemporal, impessoal e universal. Não tem quaisquer limites, qualidades ou dimensões.  É informe e vazia, sem qualquer ubicação no tempo ou espaço. Sendo pura subjetividade não pode ser percebida objetivamente. É a realidade última e primeira a que em última instância é redutível todo o fenómeno e experiência. Esta Consciência é o que realmente somos. É aquilo que se encontra por trás da expressão "Eu Sou" ou "Existo".

Esta distinção é importante porque o nosso ser autêntico e essencial, aquilo que realmente somos, não pode ser identificado com nada que seja objeto de percepção ou experiência. A forma como em cada momento pensas, atuas e sentes, apenas reflete o teu estado, não define aquilo que tu és. David Hume, uma importante figura da filosofia ocidental, também se apercebeu disto, o que o levou a negar qualquer realidade substancial ao “eu” individual,  tal como já havia feito o Buda há 2500 anos.
 Quanto a mim, quando penetro mais intimamente naquilo a que chamo eu próprio, tropeço sempre numa ou outra percepção particular, de frio ou calor, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de dor ou prazer. Nunca consigo captar-me a mim próprio, em qualquer momento, sem uma percepção, e nada posso observar a não ser a percepção.”                                                                        -David Hume, Tratado da Natureza Humana
Fernando Pessoa faz uma reflexão semelhante no Livro do Desassossego:
"A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas." -Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

É importante notar que não existe um "eu" e a "consciência" como coisas separadas. A consciência não é um atributo, não é algo que tu tens, é aquilo que tu és. Só existe consciência e não um "eu" que é consciente. Não são as pessoas que têm consciência, é a consciência que tem pessoas. A aparente existência de um "eu" como entidade separada, não passa de uma sensação ilusória e intermitente. É apenas mais uma manifestação que surge na consciência.
Compreenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas. Esse algo que nasce ou que morrerá é puramente imaginário.”                                                                               -Nisargadatta Maharaj, I Am That
Os mestres Advaita terão reparado que o nosso verdadeiro ser, a nossa natureza autêntica e original, não pode ser nada de fenoménico nem ter qualquer marco temporal. Terá que estar sempre presente, não é nada que se possa perder ou adquirir e deve estar antes e além da mente e do “eu individual". Aquilo que és não pode ser definido ou formulado positivamente. Não podes dizer o que és, mas apenas aquilo que não és. Daí a expressão “Neti, Neti” (nem isto, nem aquilo), oriunda do antigo sânscrito,  que significa que a verdade do que és, não é nada susceptível de surgir no tempo ou no espaço, nem nada que possa ser pensado, sentido, conhecido, experimentado ou verbalizado.

Tu és aquilo que resta depois de descartares tudo o que participa do jogo da impermanência. Isto torna inúteis todos os esforços para apreender objetivamente essa realidade última, o ser essencial ou absoluto, já que todas as aparências surgem no campo fenoménico, pertencem ao mundo do tempo e do transitório.  Qualquer coisa que possas conhecer e conceptualizar manifesta-se no plano consciente. E tudo o que surge no plano da consciência é temporário e impermanente. Por isso os budistas o consideram apenas aparente ou ilusório já que tem realidade meramente relativa e dependente. O mundo surge e desaparece com a própria consciência que o percebe. Sem consciência não há mundo.

A própria consciência é a única realidade estável e permanente em meio a todo esse fluxo efémero e passageiro que constitui o mundo fenoménico. Paradoxalmente, a nossa realidade mais íntima e essencial é algo que jamais poderemos conhecer de forma conceptual e jamais poderá ser objeto de percepção ou experiência, pois é aquilo que está na origem de todo o fenómeno e torna possível todo o experimentar. Não podes conhecer o que és, podes apenas sê-lo!

domingo, 19 de julho de 2015

INTELECTO E ATENÇÃO




      "Só o lago calmo reflete as estrelas"                                                  -provérbio Zen


"Em verdade vos digo que qualquer objeto que       tenhais no pensamento, por mais sagrado que
 seja, será uma barreira entre vós e a intima verdade".                   -Meister Eckhart



Ao confiar no intelecto, procurando segurança nas ideias, torno-me cego à realidade. O pensamento isola e separa, quer gire à volta do profano ou do sagrado, do mundano ou do divino. Uma mente ocupada, seja qual for o objeto das suas lucubrações, cria sempre isolamento à sua volta. 

Na medida em que nos ocupamos com o próprio diálogo interior, deixamos de prestar atenção. O espaço dedicado à ruminação é roubado à presença. E ao deixarmos de estar presentes, o condicionamento que jaz ao nivel do subconsciente assume o comando. A ação consciente dá lugar à reação condicionada. As nossas respostas tornam-se mecânicas, automáticas, comandadas pelos hábitos e padrões instalados.

Só quando estamos plenamente atentos e presentes, se manifesta a consciência livre e descondicionada. Daí resulta uma resposta sempre original e espontânea, porque surge de um estado de disponibilidade e vazio. Esta ação utiliza criativamente o conhecimento e a memória, mas sem estar limitada por eles. O intelecto é conhecimento e move-se no passado; a plena atenção é presença e move-se no desconhecido (o desconhecido é o presente, não o futuro). A presença consciente não exclui o intelecto, mas o intelecto não pode substituir a presença consciente, o pensamento não pode substituir a atenção.  O intelecto é cego e limitado. A consciência é livre, infinitamente aberta e ilimitada. Ao serviço da consciência o intelecto é um instrumento inofensivo; ao pretender substitui-la torna-se cego e destrutivo.

domingo, 11 de maio de 2014

NÃO PODEMOS ENCONTRAR A CONSCIÊNCIA



René Magritte  -"Reprodução Interdita"

 "Não sei o que é conhecer-me. Não vejo para dentro.  Não acredito que eu exista por detrás de mim."  -Fernando Pessoa


Poucas expressões da "não-dualidade" ou do jargão espiritual são mais susceptíveis de confundir ou gerar errónea interpretação do que a sugestão de procedermos a uma rotação no foco da atenção e virá-la para o interior a fim de encontrarmos a sua fonte. Dizem-nos que para acedermos à nossa identidade essencial, conhecermos a natureza autêntica do que somos, devemos proceder a uma rotação de 180º no foco da nossa atenção, dirigindo-a do exterior para o interior, dos objetos para a consciência. Quando ouvimos esta indicação podemos cair no erro de procurar ver ou conhecer a consciência do mesmo modo como vemos e conhecemos qualquer objeto da experiência. Procedemos a uma espécie de escrutínio interior em que fazemos desfilar mentalmente o reportório de tudo o que vemos e conhecemos até encontrarmos aquilo a que supostamente tal indicação se refere. Mas este modo de indagar está inevitavelmente condenado ao insucesso e à frustração. Qualquer coisa que possamos conhecer ou experimentar nunca será a consciência, porque a consciência já tem que estar presente antes de qualquer experiência ou conhecimento. Daí que o discurso da "não-dualidade" nos diga que "o buscador já é aquilo que ele busca", "a própria pergunta já é a resposta". Ao referir-se à nossa natureza essencial com palavras como "Ser", "Consciência", "Vazio", "Presença", "Absoluto", etc., o discurso não aponta para alguma coisa que precisamos encontrar, descobrir ou produzir através de algum tipo de atividade ou esforço. Refere-se ao próprio "Ver" e não a algo que tenha que ser visto. A própria formulação de uma questão, independentemente de qualquer resposta, já constitui em si mesma uma perfeita confirmação da presença da consciência.

A dificuldade é criada pela própria estrutura da comunicação verbal. Os nomes e palavras geram uma aparente dualidade e separação sujeito/objeto. Esta é uma inevitabilidade ao nível verbal. Mas a consciência nunca poderá ser objeto de experiência ou conhecimento. Jamais poderá ser convertida em objeto de busca ou indagação. Quem seria a entidade que levaria a cabo tal busca? Quem senão a própria consciência poderá ser o sujeito desta indagação? Não podemos estabelecer divisões na consciência. Seria como se a consciência se alienasse de si mesma e andasse em busca de si própria. Percebemos o absurdo desta posição? A forma como inadvertidamente nos enganamos e iludimos a nós próprios? O pleno reconhecimento da consciência não é o fim exitoso de uma qualquer atividade inquiridora. A própria existência dessa atividade, independentemente de qualquer resultado ou conclusão, é já quanto basta para que a presença da consciência esteja perfeitamente estabelecida. É um reconhecimento que não se encontra no fim, mas logo no inicio de qualquer busca ou inquirição. É uma verdade implícita que qualquer manifestação torna evidente. Se eu vejo alguma coisa é porque sou dotado do poder da visão. Mas a própria visão não é algo que eu possa ver.

Perceber a consciência como a essência daquilo que somos é apenas um simples reconhecimento. Não se trata de qualquer realização a alcançar ou qualquer experiência que possamos obter através de esforço, do pensamento ou da imaginação. A consciência não é divisível. É una e não dual. Se aquela indicação (de dirigir a atenção para a própria atenção ou consciência) se converter para nós num problema, é preferível ignorá-la, pois na verdade não é uma expressão muito feliz. O efeito que ela produz no buscador assemelha-se muitas vezes à história Zen do peixe que percorre o fundo do oceano em busca da água. É por isso que o Zen afirma que andar em busca da nossa essência ou natureza budica, é como procurar um boi montado no boi.

Quando nos recomendam prestar atenção a tal ou qual som, imagem ou fenómeno, nós simplesmente viramos para esse objeto a nossa atenção; por isso, quando nos sugerem colocar a atenção na própria atenção, o nosso impulso imediato será procurar ver a atenção do mesmo modo. Mas tal propósito é irrealizável. A consciência ou atenção não é conhecida desse modo. O que se pretende é apenas que reconheçamos o facto dessa atenção existir, a presença implícita da própria consciência, o facto inegável de sermos conscientes. Apenas isso! Não é um logro a obter no futuro, mas sim um reconhecimento daquilo que já está presente. Esta constatação ou reconhecimento não depende de nenhum estado ou experiência em particular. É o fundo subjacente a toda experiência, estado, fenómeno ou percepção. Não importa que o teu estado seja de confusão ou de clareza, que sejas santo ou pecador, dominado pelo vicio ou pela virtude, visitado por anjos ou demónios, tudo é igualmente uma confirmação da presença da consciência, em si mesma vazia, transparente, incorruptível, imutável e atemporal. A ênfase é colocada não já nos objetos, mas antes nesta espaciosidade infinita e consciente onde eles aparecem. É tão óbvio, tão simples! Significa o fim de toda a identificação. Eu não sou nenhum objeto, sou a luz que ilumina todos os objetos. Não sou nenhuma experiência, sou a capacidade de experimentar. Não sou feito de nada do que vejo, sinto ou experimento, mas todas estas coisas são feitas de mim, são manifestação e expressão da minha existência. Tal como as dunas são formações de areia. As ondas desfazem-se, a água permanece. Sou aquilo que permite e possibilita que todos os objetos e todas as experiências surjam e desapareçam. Sou a ausência que permite todas as presenças, o vazio que acolhe toda a existência.

Não podemos olhar e ver a consciência do modo explicito e objetivo como tudo é visto e conhecido. Não interessa que a busca seja direcionada para o exterior ou para o interior, o que quer que encontremos nunca será a consciência. Uma lanterna jamais poderá surgir no foco de luz que dela própria emana. Um dedo poderá apontar para qualquer coisa menos para o próprio dedo que aponta. O olho não pode ver-se a si próprio. Uma câmara fotográfica nunca aparece na foto. No entanto a foto torna evidente a existência da câmara. Nenhum  objeto é a consciência. A consciência, no entanto, é a condição sine-qua-non do aparecimento de qualquer objeto. É uma verdade implícita e auto-evidente, pois mesmo ao pretender negá-la estamos a afirmá-la uma vez mais. A própria existência não pode ser negada sem que exista o autor de tal negação. Foi também o que Descartes descobriu e procurou expressar no seu "Cogito". Não é possível alguém acreditar seriamente na afirmação "eu não existo", uma vez que terá que existir para produzir tal declaração. A apreensão da própria existência é intuitiva e imediata. A consciência é aquilo que jamais poderás ver ou conhecer objetivamente, mas cuja  realidade é mais evidente e indubitável do que qualquer coisa que possas ver ou conhecer. Tu nunca viste e jamais poderás ver os teus olhos, mas tudo aquilo que vês aponta para a verdade irrefutável da existência desses olhos que veem. Neste sentido podemos dizer que o mundo visível e fenoménico é apenas uma seta que aponta para o invisível. Podes duvidar da realidade de qualquer coisa que vês, mas jamais poderás duvidar da existência dos olhos que veem. A consciência é sempre evidente. A única evidência.

É apenas isto que se pretende fazer notar ao ser-nos sugerido virar a atenção para a própria atenção. Trata-se de um um simples corrigir de uma distração. Um convite a recordarmos a real natureza do que somos. Para que a consciência não mais seja identificada, nem aparentemente se veja ofuscada ou absorvida pelas suas diversas manifestações ou expressões. Não faz apelo a qualquer atividade com vista à aquisição de algo que não esteja já presente. Não podemos converter a consciência noutro objeto de busca, uma vez que tanto esse esforço como aquele que o realiza, são eles próprios aparições temporárias e transitórias dentro dessa consciência que, na verdade, sempre somos. Esta presença, esta consciência, é que constitui o único elemento imutável e permanente ao longo desse fluxo de percepções intermitentes e passageiras que constitui toda a nossa experiência do mundo e da vida. Apenas Consciência é sinónimo de Realidade. Só a Consciência É. Tudo é feito de Consciência.  E como nos dizem os antigos Upanishades indianos: "Tat Tvam Asi" (Tu És Isso).

sexta-feira, 2 de maio de 2014

JÁ ÉS AQUILO QUE PROCURAS



“A verdade ou a realidade não pode ser armazenada, não pode ser retida -  não é acumulável. O valor de qualquer intuição, compreensão ou realização só pode estar na eternamente fresca presença do momento. A realização de ontem agora está morta,  já perdeu a sua vitalidade. É inútil procurar suster-se ou aferrar-se  a algum insight, compreensão ou realização, porque só no seu movimento existe a possibilidade de que surjam sempre novas e frescas intuições sobre a verdade ou a realidade. A ideia da iluminação ou auto-realização como um único evento, ou como um estado ou experiência permanente ou duradoura, é uma concepção errónea”.                                                                                                            Sailor Bob Adamson

O dilema e a tragédia de quase todos os buscadores é que, depois de terem um "insight" revelador, uma experiência de "despertar", ficam eternamente presos na armadilha de a procurar reproduzir ou capturar ou nela permanecer. O segredo está em não te aferrares a nada, nem mesmo a qualquer experiência de despertar. Abandona a tua memória de experiências, estados e realizações. São apenas cinzas mortas sem qualquer vida ou substância. A memória é apenas distração. A verdade é sempre viva e vibrante. Este momento nunca aconteceu. Nunca nada se repete.  "Jamais voltes ao lugar onde foste feliz!", diz a canção, "...Nada do que por lá vires será como no passado. Não queiras reacender um lume já apagado!"

Não te aferres a quaisquer palavras ou conceitos, a nenhum estado, experiência ou conhecimento, porque ao fazê-lo acabas inevitavelmente por ofuscar a consciência onde todos esses elementos de forma espontânea emergem. Um espelho não retém as imagens que reflete. Não queiras guardar lembranças através de palavras mortas. Só podes guardar conceitos, não a verdade. Poderás registar as palavras que brotam da claridade, mas elas jamais poderão substituir aquela claridade que as fez emergir. O homem pensante não pode substituir o homem vivente. O pensamento não pode captar a vida. É a vida que integra o pensamento.

A "coisa" como aparece no pensamento, como é invocada na memória, nada tem a ver com a experiência real, anterior e independente dessa invocação. Aquele que recorda a experiência não é o que a viveu e experimentou. São duas dimensões e duas realidades completamente diferentes e que se excluem mutuamente. Quando estás completamente imerso numa melodia não pensas que a estás a ouvir. Porque o pensamento funciona como distração. É como um véu que se interpõe entre ti e a vivência direta da realidade. Quando tenho um orgasmo não penso nele, experimento-o! Só penso nele quando já terminou. Uma criança não pensa na felicidade, ela simplesmente é feliz. A "ideia da coisa" nada tem a ver com a "vivência da coisa" sem ideia. A ideia é colorida pela memória psicológica da dor e do prazer, pelo mecanismo de rejeição e apego, aversão e desejo. Todo este processo é alheio ao sabor da experiência original. Por isso Shunryu Suzuki, o mestre Zen, declarou: "Tão pronto como vês algo e começas a intelectualizá-lo, aquilo que intelectualizas já não é o que viste!" Claro que não é o que viste! A mente não pode ver nada. O intelecto lida com símbolos e palavras e não com a realidade. O pensamento, sendo apenas um subproduto, uma pálida sombra da percepção, jamais a poderá substituir. A mente envolve-te num mundo ilusório de conflitos, lutas e esforços completamente desnecessários.

Podes invocar a memória de um estado, uma experiência ou um "insight" com a intenção de o reviveres, de o ressuscitares, ou de obteres uma fórmula que o torne permanente. Mas repara: quando originalmente essa experiência aconteceu, foi ela resultado de alguma atividade volitiva da tua parte? Ela sucedeu na sequência de algum esforço deliberado tendo em vista produzi-la? Estava presente a memória de alguma experiência que se procurava ressuscitar? Foi produto ou consecução de algum desejo? Havia alguma intenção de alcançar algo, algum agente ou algum processo envolvido? Não, pois não? Ela surgiu de forma totalmente inesperada, não foi? Aconteceu por si mesma, de forma espontânea, sem qualquer intervenção consciente da tua parte. A verdade é que tu (a atividade do cálculo, do pensamento, do esforço, da volição e do desejo) não estavas aí quando isso sucedeu. A tua pessoa como agente nunca foi necessária. Tu estavas completamente ausente. Então porque queres agora ser um interveniente no processo? Porque te queres tornar parte da equação? Não é essa atitude completamente ilógica e insana? Além disso, para quê despender esforço e energia em busca de uma experiência que pela sua própria natureza é efémera e transitória?

Andas em busca de Deus? Da felicidade? Da iluminação? De alguma suprema realização ou compreensão? Esquece tudo isso. As palavras geram uma aparente dualidade, uma aparente separação entre ti e a realidade. São estes conceitos que te impedem de ver que tu já és aquilo que procuras. Tudo está já presente. Nada da tua parte é requerido. Tudo é uma dádiva gratuita da consciência. Não podemos entrar no reino da felicidade, levando connosco a ganância, a cobiça e o desejo. Esse reino só permite a entrada a quem se apresenta completamente despido no coração e no espírito. Neste caso a nossa vontade de posse e domínio só pode resultar na morte da galinha dos ovos de ouro. Erramos e perdemos ao procurar conhecer e conquistar. Jamais poderás ter a receita da felicidade, porque no reino da felicidade não entra aquele que tem uma receita que procura aplicar. A felicidade é uma dádiva gratuita àquele que dela não se quer apropriar. Poderás usufruir, mas jamais arrecadar.

Tu não existes como um agente autónomo e independente, separado do mistério e da graça divina. És a manifestação perfeita e inseparável desse mistério e dessa graça. És consciência clara, luz imaculada, eternamente presente e imutável. E Isso é algo que tu jamais poderás perder, jamais podes esquecer. Qualquer distância entre ti e Isso é  apenas imaginária, não passa de uma ilusão. Porque Isso é o que tu és. E não podes afastar-te de ti próprio. Jamais podes deixar de ser Isso que tu és. És sempre essa presença consciente, vazia e transparente que torna possível todo o ver e experimentar. Quando julgas que a perdeste ou esqueceste, só podes ter perdido ou esquecido algum conceito, algum estado, memória ou experiência que com ela identificaste. Mas foi apenas um equivoco. O que tu és jamais pode ser perdido ou esquecido. Porque só na presença disto, desta luz imóvel e imutável, é que podem suceder  e desfilar todos os estados transitórios, todas as experiências passageiras, toda a claridade e confusão, todo o lembrar e esquecer. Tu és essa luz! Sempre foste essa luz! Nunca poderás ser outra coisa que não seja essa luz. O que deves valorizar não são as coisas que a consciência percebe mas sim a consciência que percebe as coisas.

Ver isto não é uma questão de aperfeiçoar os conceitos, de encontrar as palavras adequadas, de formular definições mais perfeitas e rigorosas. O que acontece é que isto não pode ser captado mediante nenhum conceito, nenhum raciocínio, nenhum processo especulativo ou intelectual. Nenhuma ideia poderá jamais substituir o espírito capaz de a conceber.  Deixa de confiar na mente. A mente nada te pode mostrar. Ela apenas te ilude e confunde. Tens apenas de olhar, ver! Não tens de pensar! Ver, experimentar, sentir, escutar... antecede todo o pensar e raciocinar. Por mais fiel que seja a reprodução de um lago numa pintura, jamais nela  te poderás banhar. Não podes saciar a sede com a imagem de um copo de água. Trata-se de abandonar completamente toda a conceptualização e simplesmente olhar a realidade que está presente além dos nomes e palavras. É o simples acto intuitivo de apreensão daquilo que está presente na experiência imediata e não requer qualquer raciocínio, esforço ou elaboração. Daquilo que está ao dispor de qualquer criança, qualquer analfabeto, qualquer animal. É tão simples e tão óbvio que nos passa completamente despercebido. É como se alguém andasse desesperadamente à procura dos óculos que tem colocados sobre o nariz e que são precisamente o que lhe permite ver e procurar.

Lamentavelmente a própria tentativa de procurar comunicar isto por palavras pode, involuntariamente,  pôr em marcha o mecanismo que é necessário suspender para que isto possa ser visto. Porque o acto de percepção direta e imediata da realidade acontece num nível diferente daquele que permite a tradução e interpretação verbal da experiência. É por isso que, às vezes, uma criança ou um homem sem instrução talvez  estejam em melhores condições de o apreender. Um homem que não aprendeu a ler poderá não entender a ementa dum restaurante, mas não verá diminuída a sua capacidade de se alimentar. No entanto nem a mais completa e exaustiva das ementas poderá impedir que ele morra à fome se nada tiver que comer. As coisas não são as palavras que inventamos para as nomear. O símbolo não é a realidade. O ver e experimentar não é função do pensamento ou da atividade conceptual. Esta atividade tem que ser posta de lado para que o ver tenha lugar.

Estamos a apontar para aquilo que é o indicador mais primordial, óbvio, claro e evidente da nossa existência: a presença indubitável da consciência. Nada mais do que isto. Nós somos esta consciência. Ela é tudo o que sempre julgámos que precisávamos de buscar sem nos apercebermos que nunca dela estivemos separados. Só ela representa a realidade última e primeira pois é a condição que precede todo o fenómeno e experiência. Como poderias pensar, sentir ou perceber seja o que for, sem que primeiro esteja presente a consciência que te permite pensar os pensamentos, sentir os sentimentos, perceber e experimentar tudo aquilo que percebes e experimentas?

Aquilo que sempre buscaste é na verdade a única coisa que sempre tiveste!... Porque é aquilo que tu és, aquilo que sempre foste e jamais deixarás de ser! Nunca serás nada menos e nada mais do que consciência. É só isto o que tens de reconhecer. Nada mais precisas compreender ou alcançar. Tudo o mais não passa de histórias e invenções da mente sem qualquer utilidade ou fundamento. Essas histórias não te podem ajudar, não te podem completar, nada te podem trazer ou acrescentar. Elas apenas te podem distrair do essencial. Tu já és completo, sempre foste, nada precisas buscar. A consciência que já és, é tudo o que precisas ser. É dela que se origina tudo aquilo que buscas e desejas, tudo o que alguma vez poderás almejar, sentir, viver, experimentar. Não precisas de um mapa para caminhar. Tu próprio já és a luz que ilumina o caminho.

terça-feira, 29 de abril de 2014

NADA QUE CONSERTAR OU ENTENDER

A maioria das publicações sobre a não-dualidade consiste na transcrição de diálogos e exposições orais que emergem de forma espontânea em palestras, encontros (Satsang) ou outras situações. Geralmente são respeitantes à superação de uma qualquer dificuldade ou obstáculo apresentado por um buscador em particular. As palavras e conceitos que então se utilizam não devem ser erigidos em verdades absolutas com as quais qualquer outra exposição verbal deverá concordar. As palavras e conceitos terão sempre um valor meramente relativo e contextual. Não existe qualquer conhecimento, doutrina ou conclusão definitiva que elas procurem transmitir. A sua finalidade é pragmáticaSão apenas um instrumento provisório que poderá ser útil para superar uma dificuldade ou esclarecer uma situação em particular. O que se procura é desmascarar o auto-engano, provocar um  despertar ou tomada de consciência das múltiplas formas em que a mente nos procura iludir. 

Na jornada de auto-conhecimento e libertação, todas as palavras, todos os conceitos e declarações verbais só poderão ter como destino final o seu próprio abandono e superação. A sua função é meramente instrumental. São como aquelas toalhas de limpeza descartáveis que se jogam no lixo depois de terem cumprido a sua função. A tua própria compreensão da verdade não tem de ser de acordo com as palavras de qualquer mestre, professor, doutrina ou tradição. A verdade e a compreensão não provêm do esforço por decifrar qualquer dessas declarações, por maior que seja a autoridade ou veneração que concedas ao seu autor.  As palavras só são significativas quando brotam do contacto direto com a realidade, isto é, quando são expressão do teu próprio entendimento, do teu próprio sentir e experimentar. Se a tua vida não está de acordo com um livro, é o livro que deves queimar e não a tua vida, pois a tua vida é que é real. A teoria não pode substituir a experiência que é a fonte de toda a teoria. Não é a verdade que provém das palavras, as palavras é que devem ser submetidas ao julgamento da verdade. Daí a sentença de um antigo filósofo grego: "Indaga as palavras a partir das coisas e não as coisas a partir das palavras!".  

Quando o teu desejo por certeza e segurança te leva ao apego a crenças, símbolos e palavras, confundes os conceitos com a realidade. Então passas a exigir que a realidade se ajuste às tuas palavras em vez de ajustares estas à realidade. Entregas-te à construção de um castelo conceptual que te garanta a segurança e certeza de estares na posse da verdade. Mas tal exigência jamais poderá ser satisfeita e constantemente te verás na necessidade de o defender contra o assalto de dúvidas e contradições. Porque as palavras e conceitos não passam de ferramentas limitadas e imperfeitas para representar a realidade. Quando julgas que a compreensão e a verdade poderá provir dos símbolos e do pensamento conceptual, estás a exigir dos conceitos e palavras algo que  estas jamais te poderão dar. O estudo de um mapa não pode substituir a experiência real de pisar um território.

As palavras que se revelaram esclarecedoras num determinado contexto, podem ser completamente disfuncionais num contexto diferente. Além disso como podemos ter a certeza de atribuir às palavras de alguém o mesmo significado que ele lhes atribui? Quanto mais enigmáticas e estranhas te parecerem as expressões que julgas ter de entender, mais te irás esforçar no sentido de as decifrar. Mas quanto mais intensa for esta atividade, maior a confusão em que te verás enredado. Porque não podes captar a essência de uma comunicação de forma abstrata e descontextualizada. Essa ruminação apenas te irá afastar daquilo que é verdadeiramente essencial: permanecer centrado nessa límpida e clara presença consciente onde tudo se origina e a que nada pode ser acrescentado ou subtraído. Tu já és essa presença consciente, sempre perfeita, eternamente brilhante e completa. Nada precisas buscar ou entender e nada precisas consertar ou melhorar. Essa consciência que tu és é tudo o que tens de recordar.

Encontras-te envolvido numa batalha interior procurando conciliar palavras e conceitos? A desatar nós e clarificar significados? A deslindar aparentes paradoxos e contradições? Estás a confundir o mapa com o território. A desperdiçar energia num conflito supérfluo e inútil que em nada te poderá beneficiar. O salto para fora da mente não pode acontecer procurando satisfazer as suas intermináveis pretensões e exigências. Tudo o que o pensamento constrói, o pensamento pode destruir. A mente está sempre ocupada em destruir as suas próprias construções, sempre encontra mais uma pergunta para colocar, mais um problema para resolver. Desse jogo depende a sua própria sobrevivência. E entretanto a tua atenção deixa de estar focada no mundo da realidade e és arrastado para um mundo virtual e ilusório, meramente conceptual. É como se estivesses a assistir a um Western na TV e te atirasses para debaixo da mesa em busca de proteção dos tiros que acontecem no ecrã, ou te levantasses freneticamente em busca do impermeável e do guarda-chuva quando assistias ao filme "Singing in the rain". A realidade está além da mente, dos seus jogos e dilemas e da sua interminável busca por respostas.

Para qualquer afirmação podemos sempre encontrar um sentido em que é verdadeira e outro em que é falsa, um ponto de vista que a sustenta e outro que a refuta, uma perspetiva que a confirma e outra que a rejeita. A mente alimenta-se deste inevitável dilema verbal. Irá sempre encontrar um novo problema para cada solução. Mas os paradoxos, os problemas e contradições só acontecem ao nível conceptual, dizem apenas respeito a símbolos e palavras, não afetam a realidade. O conflito nunca é entre verdades mas entre representações. Os problemas, dúvidas e confusões são sempre respeitantes ao mapa, nunca ao território. A realidade nunca é paradoxal ou contraditória em si mesma. A realidade é o que é, independentemente das palavras que a pretendam descrever ou traduzir. Nenhuma confirmação lhe pode dar maior solidez e nenhuma refutação a pode beliscar. Um juízo falso pode ser desmontado no confronto com a realidade, mas a realidade jamais poderá ser determinada por qualquer juízo a seu respeito. Tu não tens que desperdiçar a tua energia a resolver problemas que apenas existem para uma entidade fictícia num mundo virtual. Nada de fundamental se perde pelo facto de renunciares à luta e ao esforço para apreenderes palavras e conceitos. Tens apenas de despertar para a realidade imediata e presente que se encontra aqui, agora, e é independente de formulação verbal. O que é real é sempre claro e evidente e nunca é problemático nem contraditório porque não é um conceito mental.

Como diz um provérbio Zen : "Se tu compreendes, as coisas são o que são; se não compreendes, as coisas são  o que são!". Ou como dizia Ma-Tsu, o mestre zen: "A mente que não compreende é o Buda, não existe outra!". Isto significa que a natureza essencial da consciência que tu és, não pode ser afetada por qualquer dúvida, confusão ou incerteza e não é susceptível de qualquer aperfeiçoamento ou modificação. É sempre perfeita, completa e luminosa. Temos apenas de confiar nela. Ela se encarregará de responder de forma adequada e criativa a todos os desafios que a vida nos apresenta. O segredo da conexão com a misteriosa inteligência que rege o  universo tem muito mais a ver com aceitação e confiança do que com luta e resistência.

As palavras e conceitos geram uma separação ilusória.  Elas enganam-te e iludem-te. Então julgas ter que buscar algo que sempre tiveste. É como se fosses um peixe às voltas no oceano em busca da água. Tu não estás separado do que julgas andar em busca. O teu ser é uno e não dual. Tu próprio já és a verdade que sempre perseguiste. Nada precisa ser modificado ou melhorado, nenhuma pergunta respondida, nenhum problema precisas resolver. Não tens que lutar contra a confusão ou esforçar-te por buscar clareza. Aquilo que é verdadeiro e essencial não é uma realização a alcançar porque nunca foi perdido.

O discurso do sábio não pretende satisfazer o teu desejo de segurança e de saber, mas antes aniquilá-lo completamente. A busca e o esforço são sempre inúteis pois não existe a entidade que deles possa beneficiar. Não existe nenhum pensador que subsista quando o pensamento termina. Nada existe de estável no aparente individuo separado. Toda a atividade egocêntrica em busca de respostas, todo o apego e acumulação, todo o avanço e retrocesso em torno desta figura imaginária, tem a mesma utilidade e solidez de um livro escrito nas águas passageiras de um rio. É como vapor que se dispersa e desaparece. Por isso a busca é inútil e jamais pode ser satisfeita. Porque o ego que ela pretende preencher é totalmente ilusório. Despertar da busca significa simplesmente perceber que o buscador nunca teve existência real. Nunca teve maior consistência que um pensamento.

Não convertas estas palavras num outro problema com que te debater. Quem seria a entidade a lutar para o resolver? Não existe o individuo que supostamente iria beneficiar dessa atividade. Repara como o pensamento se encontra às voltas numa luta consigo próprio. Tal luta significa apenas que acreditas na existência de alguém (tu) que a pode travar e que através dela poderá evoluir ou crescer. É essa entidade que tem uma existência meramente fictícia, fantasmagórica. Não tem qualquer estabilidade ou permanência, nenhuma substância ou realidade. Todas as construções do pensamento têm a mesma consistência de figuras desenhadas na areia à beira-mar. São como nuvens dispersas pelo vento. 

Permanece céptico e vigilante em relação ao canto de sereia da mente. Ela constantemente irá procurar atrair a tua atenção e envolver-te na resolução de problemas imaginários para uma entidade imaginária. Não tens que levar a sério as suas invenções. Tudo não passa de uma criação do pensamento. Evita sucumbir à sua sedução. Não permitas que a tua atenção seja absorvida pelos jogos da mente, pelos seus dilemas e sugestões. Permanece ancorado naquela realidade que não é produto da fábrica mental. Dirige a atenção para as sensações presentes no corpo. Através da consciência corporal podes sempre conectar-te com a realidade presente aqui e agora. Escuta o bater do coração, observa o teu próprio respirar, percebe os estímulos sensoriais do ambiente. Não permitas que o riso das crianças e o canto dos pássaros te passem despercebidos. Que a tua atenção seja como o ar que invade uma habitação: que nenhum recanto por mais escondido, que nenhum espaço por mais afastado deixe de por ela ser preenchido. Sente a carícia do sol, a brisa do vento e o chão que pisas ao caminhar. Isto liberta o foco da prisão da mente e traz a atenção para aquilo que é real e presente. Coloca-te sempre num plano superior ao burburinho da mente. A mente é atraída pelas suas próprias construções, mas a consciência observa a própria mente. Cria alguma distância. Não te identifiques. Sê um observador de ti próprio. Nada disto és tu. Nada disto te pertence. És uma ausência plenamente presente.

Questiona a mente, os seus produtos e atividades, por mais atraentes e irresistíveis que eles te possam parecer. Podes sempre abandonar os problemas que ela insiste em te colocar, renunciar às batalhas em que ela te quer envolver. Pergunta a ti mesmo se realmente necessitas da segurança que ela te promete oferecer. Decide-te simplesmente a prescindir das soluções que o pensamento constantemente está ocupado a procurar. Poderás descobrir que nunca precisaste delas, que a mente apenas te pretende enganar. Somente aquilo que permanece na ausência da mente, aquilo que resiste ao teste do silêncio, é que é real.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O TEU ROSTO ORIGINAL

"Mostra-me o teu verdadeiro rosto, aquele que é o teu rosto original antes dos teus pais serem nascidos." -Koan Zen
Os outros têm de ti apenas uma representação. Aos outros apareces como objeto. Mas tu, a ti mesmo, vives-te como sujeito. Aquilo que és verdadeiramente é a  vivência subjetiva que tens como sujeito de percepções e experiências. Tu és Aquele que vê e não aquilo que é visto. A tua dimensão como sujeito jamais poderá surgir no campo de percepção do outro. O outro apenas pode vivenciar a sua própria subjetividade que a ti é invisível. Somos todos invisíveis uns para os outros! É só ao nível interior que a realidade ultima é "experienciada", que  contactamos aquilo que constitui a nossa verdadeira natureza, o ser autêntico de cada um de nós.  Em ultima instância apenas a consciência é real, pois a consciência é a condição de toda a experiência.  

A pessoa separada não existe. A sensação de sermos indivíduos separados é ilusória. Origina-se da identificação com o corpo e a história. A pessoa é a experiência; a consciência é a capacidade de experimentar. A consciência não é nenhum atributo individual. É de natureza impessoal e universal. Tu não és diferente de mim. Somos apenas diferentes ondas de um mesmo oceano de existência. Todas as distinções aparentes são emanações de um único campo universal de inteligência. Não existe outra realidade além da consciência única da qual todos participamos. Dessa linha invisível, subjacente a todos esses centros de percepção que emergem como os nossos corpos aparentes. Não existe nada a distinguir e a separar duas gotas de água que se elevam do oceano. Todo o oceano se manifesta em cada gota! 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"MUSHIN" - CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTADO DE "NÃO-MENTE"



De uma forma mais ou menos consciente, os esforços do buscador quase sempre são direcionados ao aperfeiçoamento do conteúdo da mente, à busca da filosofia e das respostas mais rigorosas e perfeitas, à elaboração da suprema norma de conduta, algum principio orientador, alguma fórmula, algo que possa adquirir e usar. A plena maturidade vem com a compreensão de que qualquer apego ou aquisição se converte num estorvo. Qualquer bagagem ou acumulação limita a liberdade e turva a consciência como a sombra escura que limita o circulo brilhante da lua. Maturidade é compreender que a realização suprema não é algo que se possa alcançar ou adquirir, mas antes um estado original que importa reconhecer e em que podemos confiar. O importante não é o conteúdo perfeito mas antes o vazio perfeito. "A melhor coisa não é melhor do que nada!", diz um provérbio Zen.

Os mestres Taoistas e Zen-Budistas descrevem muitas vezes o estado natural como um estado de "Não-Mente" (MuShin em japonês). É um conceito poderoso pela sua radicalidade e poder descritivo. Refere-se a um estado de pura percepção, isenta de verbalização ou pensamento. É o simples estado natural de total disponibilidade, abertura e "não-saber". Nenhuma segurança, nenhuma doutrina, nenhuma crença,  nada em que se apoiar. O encontro com os fenómenos e acontecimentos é totalmente vulnerável e inocente, porque liberto de qualquer mediação pelos mecanismos de tradução da experiência. Ausência da mente significa a ausência do ego, do agente, do pensamento volitivo. É o silenciar das reações dum "eu" separado, daquele comentador de fundo constituído de expectativas, julgamentos, desejos, esperanças e temores; o fim do cálculo em torno da aprovação ou rejeição social; o calar dessa voz que persiste em nos dizer como poderíamos ter agido melhor no passado ou como deveremos agir no futuro.

A iluminação ou o despertar não tem que ver com alguma classe de eventos ou estados particulares. A iluminação não diz respeito à situação em que te encontras, à forma como te sentes ou te comportas. Não existe uma categoria correta de estados iluminados em oposição àqueles que excluem a iluminação. O que desaparece é a divisão interior, a divisão entre um "eu" que vive e um "eu" que ensina a viver. Deixa de estar presente o comentarista ou censor que julga, avalia ou compara. Existe apenas um fluir natural e espontâneo, um sentir, viver e agir puro e simples. Não mais existe a entidade fictícia que se separa da experiência para a julgar, condenar ou justificar, aquela voz que sabe e idealiza e que sempre olha para aquilo que é através de uma ideia de como deveria ser. Cessa a aparente atividade de um "eu" imaginário, de um agente ilusório a pretender controlar, modificar ou manipular a experiência.

Importa compreender que não se trata da aquisição de qualquer tipo de perfeição, sabedoria ou virtude. É um estado totalmente isento de conteúdo, puro vazio. A denominação "Não-Mente" procura precisamente evitar  a confusão da dualidade e da luta entre os opostos. É o fim do conflito entre a aceitação e a recusa, da luta entre o que é e o que deveria ser. Cessa toda a possibilidade de rejeição e escolha, toda a  comparação entre o que penso que sou e aquilo em que me deveria converter. É o fim da "auto-consciência" com as suas atividades calculistas e protetoras em torno de uma imagem, de uma figura imaginária.

O estado de "Não-Mente" é um estado atemporal, dado que sem a mente o tempo não existe. Portanto não é nenhum resultado a que se possa chegar ou algo em que se possa pensar. Quando este salto acontece não há qualquer entidade para saber que alcançou algo. Não há ninguém para reclamar direitos de autor, ninguém para reivindicar coisa nenhuma. No estado de não-mente não existe o reconhecimento do "estado de não-mente", não se armazena qualquer experiência nem se elabora qualquer receita. Eu não posso conhecer ou produzir conscientemente um estado em que está ausente o mecanismo que permite nomear e conhecer. Por isso dizemos que não existe o individuo que desse estado possa beneficiar. O "eu" está de todo ausente. Mas o "Ser" está plenamente presente. Há apenas o usufruir e experimentar, sem ninguém que usufrua ou experimente. Tendo cessado as atividades do ego, do pensamento como processo de vir-a-ser ou de tornar-se algo, desaparece o individuo separado capaz de atuar, conhecer ou produzir. O conhecimento está ausente, apenas o Ser está presente. Existe ação, mas não existe nenhum agente. O estado de "Não-Mente" é um estado de perfeita harmonia e unidade. Mas não é uma meta a lograr ou um resultado que tenhas alcançado. Existe precisamente no começo e não no fim. Só pode ser um despojamento, nunca uma aquisição.

O conhecimento conceptual implica sempre separação e dualidade. O conhecimento é como um dedo que aponta para fora, originando o experimentador separado da experiência, o sujeito separado do objeto, o agente separado da ação. Esta divisão artificial termina quando há perfeita quietude mental, perfeito silêncio. Neste estado de quietude não existe qualquer pensamento ou entidade para verbalizar ou conhecer o estado de consciência experimentado. O estado de "Não-Mente" não é algo que se possa obter ou conhecer, mas apenas ser e vivenciar. Daí que sempre se nos faça a advertência de que as palavras são como setas indicadoras. Elas podem apontar uma direção, mas terão de ser abandonadas ao entrarmos no caminho apontado. Uma metáfora budista diz-nos que, uma vez alcançada a outra margem de um rio, não carregamos às costas o barco que nos serviu na travessia. As palavras são como uma porta ou uma ponte que é deixada para trás uma vez atravessada. Elas não nos podem acompanhar no salto que nos estabelece na pura realidade. A realidade é anterior a todas as palavras. O oceano da verdade é como um poço de ácido corrosivo em que somos completamente dissolvidos ao nele mergulharmos. Nós desaparecemos e resta apenas a realidade. Apenas este fluir interminável sem causa nem propósito a que chamamos viver... e uma alegria transbordante a impregnar o ser e o experimentar.

O estado de "Não-Mente" não pode ser uma ideia a aplicar ou objetivo a atingir. Se eu tiver uma concepção mental do estado de "Não-Mente" (o que seria uma contradição nos termos), então a minha experiência será avaliada de acordo com tal concepção. Esta atividade faz ainda parte das maquinações ilusórias do ego. Na ausência da mente cessa toda a avaliação e escolha. O "eu" simplesmente se dissolve numa fusão total com o ritmo do próprio Cosmos. É um estado de total imobilidade atemporal, de plena comunhão com aquilo que é, com  o que está. A atenção não mais se deixa capturar por algum momento fixo no tempo, mas permite-se fluir harmoniosamente com a perpétua e célere transformação da realidade emergente. Não significa que tu te tornaste inteligente, apenas deixaste de ser um obstáculo no caminho da inteligência.

O estado de "Não-Mente" não pode ser reconhecido, uma vez que está ausente o mecanismo que permite comparar, avaliar ou reconhecer. É por isso que toda a atividade e esforço em torno do auto-aperfeiçoamento, toda a luta procurando aniquilar o ego ou obter a "iluminação", não passa de um inútil desperdício de energia. É tão fútil como a atividade do cão que dá voltas sobre si mesmo procurando agarrar a própria cauda, ou da criança que tenta ultrapassar a própria sombra. O silêncio jamais poderá coexistir com a entidade que o procura alcançar, porque o silêncio aniquila completamente aquele que deseja obter o silêncio. Só quando te retiras da frente de um espelho é que ele deixa de refletir a tua imagem, mas então tu já não te encontras aí para confirmar essa ausência!

O que temos de compreender é qual o vento, qual a água que ao banhar a mente a liberta de todo o passado e condicionamento. Por certo que não poderá ser nada vindo da própria mente, da memória ou da especulação intelectual. Não se pode pensar no "estado sem pensamento". Há uma realidade que só toma forma no imediato plano existencial, uma dimensão que o pensamento não pode antecipar nem recordar nem conhecer. A mente jamais poderá invocar a sua própria ausência, é isto que importa compreender. Aquilo que é manifesto no silêncio, só o silêncio pode experimentar. A atividade do pensamento é como um jogo circular de que ele próprio se alimenta. Mas há uma presença inefável que o pensamento jamais poderá tocar. Esta presença não é um atributo mas sim o próprio Ser. É aquilo que somos e não algo que possuímos.

É por isso que o estado de "Não-Mente", a libertação, não pode ser um processo gradual. O tempo só existe na mente e a mente não pode ser o instrumento que te leva além da mente. A mente jamais poderá cooperar com a sua própria destruição. A saída deste circulo opressivo só pode ser uma resolução instantânea, um salto para além da mente. Este salto não requer nenhum "fazer", nenhum requisito é necessário cumprir. Consiste muito mais numa renuncia, numa negação, num não agir, não fazer, não interferir (o "Wu Wei" do taoismo chinês), do que nalgum fazer, agir ou atuar positivamente. A intenção e a vontade representam o obstáculo e não o meio.

É por ser uma coisa tão fácil e tão simples que ela parece difícil ou complicada. No entanto, uma vez mais, a dificuldade ou complicação só existe para a mente. Mas a mente não desempenha aqui qualquer papel. A mente, o ego, o pensamento, jamais poderá contactar ou experimentar a sua própria ausência. Isto é que tem de ser compreendido. Aquele estado torna-se presente quando a mente renuncia a todas as suas atividades, motivos e desejos. Sendo o nosso estado natural, ele não pode ser gerado através de esforço nem precisa ser criado por qualquer atividade da nossa parte. Porque é um estado preexistente a todas as nossas atividades. Não requer sequer ser conhecido ou verbalizado. Procurar conhecê-lo ou obtê-lo, é tão absurdo como um peixe andar em busca da água onde nada. É este o significado profundo do termo "Graça", algo que é  gratuito, livre de causa, que não é nenhum resultado ou objetivo. Acaso a vontade de um recém-nascido poderá ser a causa do seu ser e existir? É ele o autor do seu próprio respirar e sentir? É o nosso esforço e a nossa vontade que faz o coração bater e o sangue circular?... O que a natureza requer de nós é confiança e não resistência!

O risco que se corre ao fazer estas exposições verbais, é o de elas poderem involuntariamente intensificar a própria atividade que se pretende cessar. As palavras fazem parecer complicado aquilo que é naturalmente simples. Estas palavras não devem ser convertidas numa ideia a reter e aplicar. As palavras são meramente a expressão de uma realidade que está antes delas. Devem ser vistas como uma grosseira tentativa de descrição e não como uma prescrição. A claridade e lucidez não depende de palavras, símbolos ou expressão. Nada disto deve ser convertido num esforço de compreensão ou num problema a resolver. Compreender a realidade não é compreender as palavras que a procuram descrever. Nenhuma descrição é adequada, porque nenhuma descrição pode substituir o sabor da realidade. O mapa não é o território. Se entrares num restaurante chinês, poderás não compreender a ementa, mas isso não te impede de usufruir plenamente da refeição. Aquilo que é real e verdadeiro não depende de conhecimento ou verbalização. A ordem da realidade não depende da ordem das palavras. Podemos falhar todas as questões dum exame de anatomia, mas entretanto o nosso metabolismo não deixará de funcionar perfeitamente. Como diz o provérbio Zen, "Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são".  Nunca precisámos de aprender a crescer, a digerir ou a respirar. Ser e viver está além do conhecer e compreender. Uma ideia jamais poderá substituir o espírito capaz de a conceber. O conhecimento é um subproduto, um resultado. O importante é aquilo que lhe é anterior e lhe está na origem: o estado de aprender e experimentar. E este é um estado de vazio e receptividade que só se manifesta plenamente quando não há qualquer esforço nem apego, nem luta por controlar ou alcançar.

Não há solução para este dilema senão o reconhecimento da nossa impotência. A renuncia a toda a volição e esforço. Abandonar completamente todos os problemas e voltar a atenção para a realidade imediata e presente, para este fluir ininterrupto e espontâneo que a todo o momento se desenrola de forma completamente livre e alheia a quaisquer que sejam os nossos motivos, desejos ou lucubrações. "Esquecer tudo é o meio supremo", diz a sabedoria Zen. Abandona todos os teus esforços e pretensões, estabelece-te na paz e quietude do silêncio interior, e aquilo que então restar, isso é que é real.

domingo, 22 de setembro de 2013

Milagres e Realidade, Santos e Profetas, Verdade e Autoridade

Nesta questão da busca espiritual e procura da verdade, sempre me pareceu essencial a libertação da autoridade. Não há salvação fora da inteligência e esclarecimento individual. Não existe alternativa à investigação da própria experiência, à descoberta direta por nós mesmos. Por isso sou particularmente alérgico a um dos principais obstáculos à comunicação eficaz e esclarecimento da realidade. Refiro-me à necessidade de atribuir origens misteriosas e poderes sobrenaturais àqueles que consideramos sábios e esclarecidos. Deste vicio nefasto sempre sofreram as religiões organizadas. E é também o truque a que recorrem muitos pseudo-mestres ou gurus. Atraem discípulos e seguidores fazendo apelo a superstições e fantasias, avidez por milagres e promessas. Esta tentação sempre constituiu uma barreira que impediu que a autêntica mensagem dos sábios e profetas fosse eficazmente compreendida. Para que uma mensagem seja significativa e tenha valor para nós, não tem de provir de algum ser especial e transcendente que não partilhe a mesma natureza que nós partilhamos. Pelo contrário. Se essa mensagem não provem de alguém cuja natureza partilhamos, então não faz qualquer sentido procurar compreendê-la, uma vez que a sua experiência estará além daquilo que nós mesmos podemos experimentar e compreender.

Para encontrar sentido e significado no Sermão da Montanha, não preciso de acreditar que Jesus nasceu de uma mulher virgem, caminhava sobre as águas ou ressuscitava os mortos! Mesmo que comprovados, nenhum destes atributos seria o factor capaz de conferir veracidade às suas declarações. Para determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa, o que temos que verificar é se tem ou não correspondência na realidade dos factos e da experiência. E isso nada tem a ver com quaisquer características pessoais de quem a enuncia. Nada no mensageiro determina o valor da mensagem. Se alguém chegasse ao pé de nós e nos dissesse que a nossa casa se encontrava em chamas, o que faríamos? Iamos verificar as credenciais e o currículo de quem nos dava a informação... ou simplesmente desatávamos a correr para o local da nossa moradia?  Se não fosse a tentação que os seguidores (ou aproveitadores!?) dos sábios e profetas tiveram de deturpar os seus ensinamentos envolvendo-os em mitos e fantasias, a mensagem daqueles homens teria chegado até nós de forma mais autêntica, útil e eficaz. Não duvido que atualmente, em muitos livros religiosos, é uma verdadeira proeza separar  a mensagem autêntica da fantasia que lhes foi acrescentada.

O que é para nós significativo e útil, é aquilo que contribui para o esclarecimento da nossa vida e da nossa experiência. As fantasias, mitos e milagres apenas confundem e impedem que a verdade chegue até nós. Somos seres humanos comuns e todos partilhamos da mesma humana natureza. A nossa experiência nada tem de transcendente ou sobrenatural. O mágico e o miraculoso não nos interessam. Só quem não está desperto para ver e sentir a beleza e o milagre que é a nossa existência concreta neste mundo, precisa da compensação e promessas de um outro mundo qualquer. A libertação e a alegria nesta vida não advém do facto de sermos imunes ao sofrimento e às paixões. Pelo contrário. Vem do facto de mais intensamente o termos experimentado e sofrido, para assim o podermos compreender e transcender. Foi o facto de termos sofrido mas termos descoberto a saída do sofrimento que leva a querer compartilhar com os outros essa descoberta.

A libertação encontra-se neste mundo e nesta vida. Na vida ordinária do quotidiano. Temos é de estar despertos e viver de forma mais consciente as nossas circunstâncias ordinárias. O paraíso que procuramos já está aqui. Nós é que sempre estivemos distraídos, ocupados em procurá-lo noutro sitio qualquer.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Regressar à Própria Experiência


 "Se é de conhecimento ou de sabedoria que andamos à procura, o melhor será irmos procurar diretamente à fonte. E esta não é o erudito ou o filósofo, não é o mestre, o santo ou o professor, mas a própria vida - a experiência direta de vida.".
                                                                                Henry Miller, Os Livros da Minha Vida

Sendo a natureza humana a mesma que todos partilhamos, quem desvenda os seus segredos tem que forçosamente confluir para a mesma realidade e fazer as mesmas descobertas essenciais. Por isso é um erro achar que todas essas diferentes tradições, métodos, caminhos, religiões,...  podem apresentar propostas fundamentalmente diferentes se realmente pretendem despertar e libertar o ser humano. Às vezes apenas confundem e atrapalham quem procura ajuda e esclarecimento. Se realmente é o mesmo ser humano que se procura mapear e libertar, que diferença pode haver nas verdades apontadas?! No entanto, frequentemente essas diferentes propostas apresentam-se como se cada uma delas tivesse a posse exclusiva das chaves do paraíso! Tantos pretensos mestres, tantos diferentes métodos e caminhos, tantas diferentes linhagens e tradições!!... Talvez que esta infindável peregrinação por livros e mestres, seja apenas um adiamento do único caminho que conduz ao esclarecimento e à verdade: decidir-se a estudar e investigar no laboratório sempre disponível da própria mente e do próprio coração!

A que se referem esses mestres, esses seres despertos e iluminados? Referem-se a algo implícito na minha vida? Ao meu ser autêntico e original? Algo intrínseco à minha própria natureza? Se assim é, então não faz sentido buscá-lo uma vez que já é manifesto na minha experiência. Basta-me ser fiel ao meu próprio ser, ser autenticamente eu mesmo. Se assim não for, se é algo alheio à minha vida, algo que tenho que obter, então também não faz sentido buscá-lo, pois é do campo do impermanente. E o que é impermanente não pode ser realizado, pois o que se obtém sempre se perde. É só quando regresso à minha própria experiência, ao ser autenticamente eu próprio, que posso encontrar seja lá o que for que os mestres me possam prometer. Afinal, como declarou Terêncio dois séculos antes de Cristo, "Sou homem! Nada de humano me é estranho!".

Este constante formular de novos problemas, esta necessidade de atualização com os novos livros e professores, este constante buscar e questionar, esta interminável atividade de arranjar pulgas para se coçar,... de onde provém? Não será do impulso tirânico da procura de segurança, garantias e permanência? Mas que entidade poderá beneficiar de toda esta atividade? Quem é este "eu" que deseja o nirvana ou a iluminação? Quem é o individuo que constantemente busca e se interroga e deambula entre diferentes mestres, caminhos e tradições? Terá existência real ou é apenas um produto da imaginação? Para quê insistir em fixar a forma das nuvens, escrever na água ou construir castelos de areia à beira mar?

Hoje muito daquilo que se escreve sobre "espiritualidade" e "não-dualidade" apenas procura esclarecer e solucionar problemas que foram criados precisamente pelas tentativas de expor estas matérias em palavras e conceitos. Uma mente confusa e iludida projeta a sua confusão em tudo aquilo para onde olha. Não é raro que as palavras apenas consigam multiplicar os problemas que procuram resolver. Afinal não serão as palavras que alimentam o pensamento onde se aloja o ego?  Há um conto Zen que ilustra este dilema através da história de um pequeno peixe que era feliz, nadava e brincava no oceano, até ao dia em que ouviu um discurso sobre a água e a sua importância. A partir de então ficou obcecado pelo desejo de descobrir e obter tão precioso elemento!?!  Foi assim que perdeu a sua paz e alegria.

Sempre será um dilema e um paradoxo procurar através das palavras, comunicar e partilhar com os outros uma realidade que as palavras nunca conseguem capturar. Como podemos nós através das palavras transmitir aquilo que só pudemos constatar quando nos livrámos de todas as palavras?! Só quando nos dispomos a aprender por nós próprios, quando não fugimos á nossa própria solidão, é que podemos estabelecer a relação correta com os livros e a leitura. Ramana Maharshi dizia que os livros apenas vieram corroborar aquilo que ele havia experimentado diretamente antes de os ter lido. Krishnamurti afirmava que lhe era insuportável ler "filosofia" e "espiritualidade", apenas valorizava a experiência direta e livre de quaisquer conhecimentos prévios.

Não se trata de criar uma atitude de evitamento e recusa perante os livros e os mestres. O que se trata é de compreender a relação que com eles estabelecemos, a atitude com que deles nos aproximamos, pois esta atitude é que em grande parte irá determinar o que deles iremos receber. É a nossa atitude e os nossos motivos que podem fazer que eles sejam para nós uma fonte de esclarecimento e partilha ou antes de perturbação.

É o espírito  que dá vida às palavras, não são as palavras que dão vida ao espírito. Tu não podes ser informado primeiro para experimentar depois. Pelo contrário, só depois que experimentaste é que poderás compreender as palavras que o informam. "Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido" observou Herman Hesse.

Quando sabes escutar, de tudo podes aprender. Por isso se diz que "quando o discípulo está pronto, o mestre aparece". De outra forma como o poderia reconhecer?... Não é o mestre que produz em ti o despertar. É a tua intenção sincera de abrir a mente e o coração. Em nós mesmos é que descobrimos o essencial, através da investigação direta do nosso próprio viver e experimentar. Só depois é que os livros começam a fazer sentido. Na geografia terrena um mapa pode conduzir-nos a um tesouro, mas na busca de Deus, primeiro teremos que o encontrar, só depois é que podemos compreender os mapas que o indicavam.

A verdade é uma presença e não uma posse. A verdade não me pode ser dada por outrem. O contacto com a realidade é sempre direto e solitário. Dos outros tenho apenas o corpo e as palavras. Servimo-nos das palavras para comunicar. Mas em ultima análise, as palavras serão sempre uma barreira e não um veiculo. As palavras não transportam a realidade. As palavras não são o ser da realidade que é. Nada nos garante que estamos realmente em comunicação e comunhão com o outro. O outro procura comunicar utilizando palavras. Mas as palavras estão sujeitas a interpretação. A interpretação não é a ponte que nos leva à experiência do outro. É uma barreira que nos separa dessa experiência. Nenhum discurso sobre a água pode saciar a tua sede. Tens que levar os teus próprios lábios à fonte. E a experiência do contacto com a água é algo intimo e solitário. Por isso a comunhão só existe quando assumimos de uma forma plena e completa a solidão. Paradoxalmente, só na solidão pode ser encontrada a experiência plena e autêntica do amor unificador. Só na solidão deixamos de ser muitos para passarmos a ser um só. Apenas quem está só é que pode amar!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo


"Podemos sempre lidar com o Agora, mas nunca com o futuro... Nem precisamos de o fazer. A resposta, a força, a ação ou o recurso estarão presentes quando você precisar, não antes nem depois."  -Eckhart Tolle



Despendemos energia procurando reparar o passado. Despendemos energia procurando prevenir o futuro. Como podemos ter energia para corresponder adequadamente ao desafio presente?... O passado que procuramos consertar, jamais se teria tornado um problema se estivéssemos devidamente atentos quando ele era presente. Procurar agora ressuscitá-lo e corrigi-lo é inútil e um desperdício. O que temos de fazer é morrer para o passado morto.Toda a energia que gastamos a procurar reparar o passado ou a prevenir o futuro, constitui uma distração e um roubo ao momento presente.

Quando dedicamos plena atenção à nossa circunstância actual, estamos a dar a este momento tudo o que ele requer para que a resposta seja adequada. Cada momento é completo e eterno. Contem em si tudo o necessário para ser correspondido. Não temos que nos socorrer de fórmulas da experiência passada.  Apenas requer atenção e presença. Do mesmo modo não faz sentido utilizar este momento para garantir respostas adequadas ao futuro. Na verdade nunca roubamos ao presente para dar ao futuro. A única coisa que fazemos é roubar ao presente algo que apenas ao presente poderia pertencer. Mesmo que vivamos 100 anos, jamais conseguiremos viver um segundo que seja no futuro. Não podemos aprender primeiro e viver depois. Esta vida é tudo o que temos. Enquanto buscamos certezas e garantias, a vida se esvai. A vida não permite ensaios. O aprender e o viver acontecem simultaneamente, neste momento preciso em que te permites fluir com a própria vida!

A morte constitui a verdadeira medida de todas as coisas. É ela que te situa na perspetiva correta. Quando sabes que cada momento se gera a partir de si próprio. Cada momento tem a sua própria eternidade.  Nada nele foi determinado por outro momento qualquer. Nada dele será transportado para qualquer outro momento. Viver sem ontem nem amanhã!... Não é um esforço de imaginação que tens de fazer. É uma realidade inexorável. Mesmo que não a reconheças como tal. Cada momento é sempre o último e o primeiro. O Génesis e o Apocalipse estão sempre a acontecer. Perante a morte nada há a perder ou a ganhar. Perante a morte já nada estás a adiar. Nenhuma esperança alimentas. Nenhum temor te pode ameaçar. É só perante a morte que a entrega à vida é generosa e total.

A culpa desvanece-se quando morres para todo o passado. O medo desaparece quando desistes de controlar o futuro. Resta então a paz!...A paz e o jubilo que sempre permeiam o alinhamento perfeito com a atemporalidade deste momento eternamente presente!

Esta é a mensagem central que se encontra no coração de todas as grandes tradições espirituais e religiosas. Não nos deixemos impressionar e hipnotizar com frases românticas e discursos grandiosos e eloquentes. Tudo aponta a algo muito simples e nada misterioso: a realidade viva, presente e ordinária deste momento. Que não requer quaisquer palavras para se sentir e experimentar. Quaisquer palavras a podem expressar, porque nenhuma palavra a expressa. Todas as palavras estão igualmente próximas, porque todas as palavras estão igualmente distantes. Nenhuma palavra sequer a chega a tocar. Perante esta realidade todas as palavras são inúteis. Todas as palavras desaparecem. Apenas respirar! Apenas olhar e sentir! Apenas escutar!...