A realidade e as palavras
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Paradoxos
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Perguntas e Respostas - Quem Compreende o Quê?
"O dilema não é que o individuo compreenda ou não compreenda. O dilema é o individuo." -Tony Parsons
Isto é para ser compreendido por quem compreende. E isto é para não ser compreendido por quem não compreende. Tudo está bem como está. Só o esforço para converter o que é noutra coisa está a mais. Se não compreendes, mas não te esforças para compreender, então compreendes! Eu não falo de nada que requeira compreensão e esforço. Não há aqui nada a alcançar. Eu estou apenas a endereçar um convite que pode ou não ser aceite. Um convite à imobilização da mente, do tempo, do pensamento. E isto é apenas um modo de estar, de ser. Não é nenhuma meta ou compreensão que se alcança.
domingo, 17 de julho de 2011
Forma e Vazio - Mundo e Consciência
O ser ou existir implica a consciência. Para um objeto inerte não faz qualquer diferença existir ou não existir. A sua existência ou inexistência faz diferença apenas para a consciência que o percebe. Eu (Consciência), sou auto-consciente, o objeto não o é. Daí que para o objeto não há qualquer diferença entre ser ou não ser, entre existir ou não existir. O objeto que eu presencio, tal como ele me aparece, não tem uma existência separada das próprias qualidades com que a mente pode ver e conceber. É apenas um conjunto de sensações que experimento e com as quais o identifico. Estas sensações provam a minha existência, não a do objeto. O objeto existe apenas para a consciência que o percebe, não existe para si próprio. Tal como é assinalado pela filosofia Vedanta e pelo budismo, o mundo manifesto não tem qualquer realidade intrínseca, não existe de forma autónoma e independente. Só a consciência existe de forma absoluta. Só a consciência é auto-consciente. O mundo tem existência meramente relativa e conceptual. Não se trata de estabelecer aqui alguma conclusão, solipsista ou de outro género qualquer. Toda a conclusão equivale a entrar num barco destinado a naufragar. Nenhuma conclusão se requer. Apenas constatamos que a separação entre interior e exterior, espírito e matéria, sujeito e objeto ,não passa de uma suposição arbitrária. Tudo surge num mesmo e único espaço consciente, em si mesmo vazio, informe, ilimitado, omnipresente e atemporal. Cai a ilusão da dualidade, a ilusão da separação entre nós e o mundo. O mundo que percebemos não pode existir sem a consciência que o percebe.
Procurar o que somos realmente para além da experiência transitória, é como ir removendo sucessivamente as cascas de uma cebola. Quando atingimos o centro, aquilo a que chegamos é coisa nenhuma, um perfeito vazio. Mas este vazio não é um vazio feito de nada, mas sim de consciência. É um espaço infinito de silêncio e disponibilidade onde todo o universo se manifesta. Este espaço consciente é o que nós somos. Nada mais, nada menos do que este espaço, esta consciência. A afirmação contida nos antigos Upanishades, "Tat Tvam Asi" (Tu és Isso), é a verdade para a qual apontam todas as tradições espirituais e religiosas que afirmam a não-dualidade da realidade. Por isso diz Meister Eckhart num dos seus sermões: "O olho com que vejo Deus, é o mesmo olho com que Deus me vê; o meu olho e o olho de Deus são um único olho, um único conhecer, uma única visão, um único amor." A existência indubitável da consciência constitui o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a auto-inquirição e de toda a jornada em busca de Deus, do auto-conhecimento e da natureza da realidade.
Esta presença consciente, não sendo um objeto de experiência, é no entanto uma realidade mais sólida e evidente do que qualquer objeto experimentado. Apenas a consciência é real. Só ela existe de forma indubitável e permanente. A realidade que qualquer manifestação fenoménica torna inegável não é a do objeto percebido, mas sim a da consciência em que ele aparece. Esta implícita certeza é igual à primeira descoberta de Descartes. Todo o objeto aponta para a indubitável existência do sujeito. E nenhum objeto pode ser concebido como tendo uma existência real, autónoma e independente da sua manifestação na consciência que o percebe. Quando se diz que o mundo fenoménico é irreal, ilusório ou aparente, não devemos ver aí nenhum mistério transcendente que temos de desvendar. Significa, na perspetiva budista da realidade, a impermanência e interdependência de todos os fenómenos. Por isso só o repouso na vacuidade torna possível a infinita flexibilidade que nos permite estar em sintonia com a célere e permanente mudança do real.
Filosofia, intelecto e espírito
Os diversos textos aqui oferecidos não representam diversos estágios ou etapas para alcançar um objectivo no final. Não representam as diversas partes de um todo à semelhança das peças de um puzzle. Em qualquer ponto deles se pode encontrar na sua plenitude a totalidade da mensagem que procuram transmitir. Tal como a água que uma criança apanha na concha das mãos contem já todo o segredo do oceano, a essência da mensagem aqui contida pode ser plenamente captada logo desde o seu início. Porque na realidade ela já está presente mesmo antes da primeira palavra aqui escrita. E é a mesma mensagem perene e essencial, comum aos grandes místicos, sábios e profetas de todos os tempos e que se encontra no coração de todas as grandes religiões.
Claro que procurar garantias, procurar saber o que será a vida sem a persistente atividade do intelecto, sem o constante esforço da mente e do pensamento, é como um peixe procurar conhecer a experiência de uma cabra de montanha, ou esperar que um cadáver se possa pronunciar sobre o conforto do seu caixão. Afinal toda a especulação, toda a imaginação e antecipação se encontram na esfera da mente. Mas aqui a mente não tem qualquer participação. Não podes usar a mente para conhecer o que se encontra além da mente. Temos medo de abandonar um lixo que agora nos parece precioso, apenas porque não vemos a imensidão do que nos espera após esse abandono. Mas a verdadeira insanidade, como Einstein advertiu, é agir sempre da mesma forma e esperar resultados diferentes.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Sou Livre!
segunda-feira, 30 de maio de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Silêncio e as Palavras - Crença e Realidade
A realidade do Ser e existir está antes e além de qualquer formulação conceptual. A falsidade e a ilusão é que dependem de conceitos e de crenças. A realidade do que é e do que existe não depende de crença ou formulação verbal. Qual a necessidade de crença? Só o que é falso necessita de ser suportado por crença. O que é real mantém-se por si mesmo. Na ausência de crença, a realidade não deixa de ser o que é. Apenas o que é ilusório desaparece. Podes não acreditar na gravidade, mas não deixarás de te despenhar se saltares de um avião sem para-quedas. A terra sempre girou em torno do sol, não passou a fazê-lo somente depois de Copérnico ou Galileu. Não precisas de saber o nome do rio para nele te poderes banhar. A autêntica realidade encontra-se além do verdadeiro e do falso. Estes conceitos apenas dizem respeito a frases e proposições. Mas a realidade é anterior, transcendente e independente da sua formulação verbal. A mentira não tem qualquer forma de subsistência para além da dimensão verbal. Não há qualquer necessidade de combater a mentira. Temos apenas de iluminar a verdade. Na ausência de palavras não subsiste a mentira. No silêncio apenas a realidade está presente. Na ausência de nomes e palavras a mentira encontra-se desprovida do único alimento que a sustenta. O silêncio apaga a mentira. Faz com que a verdade brilhe no seu máximo esplendor. Purifica a visão da realidade.“O silêncio é a única linguagem capaz de expressar a totalidade da verdade!" -Ramana Maharshi
O ego não é nada mais que desejo e aversão, escolha e rejeição, memória e interpretação. Não existe um ego que atua. Estas atividades são elas mesmas o próprio ego. Na ausência de pensamento, quando a mente está em silêncio, não existe tempo, não existe condicionamento, não existe ego. Aquele que se procura libertar só existe na cela de uma prisão. O escravo não se torna livre. A liberdade é o findar tanto do escravo como da prisão. A liberdade não tem qualquer relação com a escravidão. O escravo que se procura libertar nunca deixará de ser escravo. Tanto o escravo como a liberdade que ele projeta e idealiza fazem parte das grades da prisão.
Enquanto julgarmos que precisamos da experiência e do conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios e circunstâncias, teremos medo de dispensar todo o nosso aparato conceptual. Mas enquanto não o fizermos, jamais poderemos saber se ele é ou não necessário. Jamais saberemos o que é a liberdade e o amor. Através dos mecanismos do medo e das atividades por ele engendradas, jamais poderemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.
domingo, 8 de maio de 2011
Ser e Vir-a-Ser
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Esforço e Renúncia
"Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu!" - F. Pessoa
"Quando atingires o topo da montanha, continua a subir!" -Provérbio Zen
"Cogitaciones volant, conscientia manent!" (os pensamentos voam, a consciência permanece!).
Que procuras tu alcançar ou reter, ou recuperar ou compreender?... Renuncia ao desejo de conhecer, ao teu anseio por certeza e segurança. Simplesmente repousa e confia. Não temas o silêncio. Não receies morrer. Só o que é ilusório desaparece. Aquilo que é real nunca deixa de existir. A esponja apaga todos os riscos, mas o quadro não é apagado. As nuvens passam, o céu permanece. Quando no fim do filme se apaga a luz do projector, a tela permanece intacta, pronta a receber o próximo filme. O homem sábio constantemente morre para todas as experiências. A liberdade do sábio consiste numa permanente atitude de renúncia e desprendimento. Um constante abrir mão e deixar ir. Sabe que o silêncio jamais será vazio!
Para quê guardar a verdade na memória ou num livro sagrado? Ela está eternamente escrita no Universo! A verdade é uma presença silenciosa! O teu acesso a ela é incondicional! Estamos sempre imersos na verdade. A mente sob a forma de esforço e pensamento é que é isolante e separativa. Aquilo que precisa de ser retido, capturado ou recuperado não pode ser a verdade. A realidade autêntica e essencial não pertence ao campo do impermanente e transitório. Se algo se foi, deixa que se vá. Não te esforces por reter ou recuperar. Aquilo que requer esforço e apego não tem qualquer importância ou valor. Qualquer coisa que adquiras acabarás por perder. Se algo precisa de ser retido por ação da vontade e do desejo, então terá que ser repetidamente capturado, uma e outra vez, numa atividade extenuante e num inútil desperdício de energia. Encontrar o que desejas, nunca passará de uma satisfação temporária destinada a desvanecer-se novamente.
Para quê desperdiçar esforço e energia tentando compreender, possuir ou conhecer? Tudo o que o pensamento constrói está destinado a desaparecer. É como um desenho na areia à beira-mar que as ondas acabarão por lavar. As palavras são sempre esquecidas. Aquele que utiliza a palavra a fim de se apropriar é ele próprio de natureza impermanente e transitória. É apenas um atributo do pensamento e não uma entidade que lhe sobreviva. Não tem qualquer realidade para além daquela que o pensamento lhe confere. Não passa de uma entidade fictícia resultante do desejo de segurança e da busca por repetição e permanência. A sua realidade é apenas aparente e ilusória. Surge e desaparece com o próprio pensamento que a criou..
Se um pensamento se foi, porque te esforças por o recuperar? Sendo a sua natureza impermanente, que diferença faz para ti depositá-lo numa folha de papel? A folha jamais terá sensações! É preferível renunciar à luta e ao esforço, à vontade de possuir e controlar. Relaxa e descansa! Se algo for realmente importante não deixará de te visitar quando for oportuno. O que a circunstância requer, ela própria te irá prover. O importante não é possuir a verdade cristalizada num livro ou na memória, mas antes manter uma mente tranquila e desperta capaz de a refletir em todos os momentos. Afinal que importam as palavras se o espírito por trás delas se encontrar ausente?... Mas, se o espírito está presente, para quê as palavras?
Por mais extático, sublime ou inspirado que seja um estado subjetivo, as palavras jamais o poderão capturar ou transmitir. Todas as palavras sofrem das mesmas limitações. Por mais intensa que seja uma vivência subjetiva, a sua objetivação ou expressão em qualquer forma deixa sempre de fora aquela vivência. Vemos o riso da criança, não a sua alegria. Ouvimos a música que sai do piano, não a que se encontra no coração do pianista. Nenhum quadro de Van Gogh substitui o seu olhar. Nenhum Sermão do Monte nos transmite a visão de Cristo do reino dos céus. A palavra e o pensamento brotam dum silêncio e dum vazio que a palavra e o pensamento jamais poderão captar ou substituir. Não são as palavras que dão vida ao espírito, é o espírito que dá vida às palavras. A subjetividade objetivada é sempre ilusória, pretende atribuir a um objeto aquilo que é inerente ao sujeito.
A busca conduz inevitavelmente à frustração, uma vez que todas as experiências e estados de consciência serão sempre transitórios e passageiros. Qualquer coisa que obtenhas acabarás por perder. Se compreendes que tudo é impermanente, nenhum estado já tentarás produzir, nenhum prazer desejarás reter, nenhuma experiência conservar. Paradoxalmente o nosso acesso àquilo que é realmente importante e significativo não requer qualquer esforço. É uma dádiva gratuita, sempre disponível e presente. Pede apenas que a aceitemos. Requer apenas a nossa presença. Apenas que estejamos vivos! O nosso cepticismo, a nossa busca e avidez é que nos cega para aquilo que nos é mais intimo que o próprio respirar. Para aquilo que apenas requer aceitação e silêncio. O ruído do pensamento jamais o poderá compreender. A mente jamais o poderá contactar. Aquilo que sempre buscámos é na verdade a única coisa que sempre tivemos.




