A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Silêncio e as Palavras - Crença e Realidade

A realidade do Ser e existir está antes e além de qualquer formulação conceptual. A falsidade e a ilusão é que dependem de conceitos e de crenças. A realidade do que é e do que existe não depende de crença ou formulação verbal. Qual a necessidade de crença? Só o que é falso necessita de ser suportado por crença. O que é real e verdadeiro mantém-se por si mesmo. Na ausência de crença, a realidade não deixa de ser o que é: apenas o ilusório desaparece. Podes não acreditar na gravidade, mas não é por isso que deixarás de te despenhar se saltares de um avião sem paraquedas. A terra sempre girou em torno do sol, não passou a fazê-lo somente depois de Copérnico ou Galileu. Não precisas de saber o nome do rio para nele poderes nadar. A autêntica realidade encontra-se além do verdadeiro e do falso. Estes conceitos apenas dizem respeito a frases e proposições. Mas a realidade é anterior, transcendente e independente da sua formulação verbal. A mentira não tem qualquer forma de subsistência para além da dimensão verbal. Não há qualquer necessidade de combater a mentira. Temos apenas que iluminar a verdade. Na ausência de palavras não subsiste a mentira. No silêncio apenas a realidade está presente. Na ausência de nomes e palavras a mentira encontra-se desprovida do único alimento que a sustenta. O silêncio apaga a mentira e faz com que a verdade brilhe no seu máximo esplendor. Purifica a visão da realidade.

É um esforço inútil e é completamente ilusório procurar sustentar uma batalha contra o ego. O ego não é uma entidade mas uma atividade. Tão efémera e intermitente como qualquer outra atividade. Ao procurar combater ou eliminar o ego estamos a atribuir-lhe realidade. À semelhança daquelas pessoas que se munem de amuletos e se dedicam a exorcismos e rituais, alimentando dessa maneira os próprios fantasmas que julgam combater. O ego consiste precisamente neste processo de criar ilusões. Travar uma guerra contra o ego é como utilizar gasolina para apagar um fogo. Não existe tal coisa como o ego separado das atividades que o sustentam. E a luta contra o ego é precisamente uma dessas atividades. O próprio pensamento é sustentado pelo esforço que o procura eliminar.

O ego não é nada mais que desejo e aversão, escolha e rejeição, memória e interpretação. Não existe um ego que atua. Estas atividades são elas mesmas o próprio ego. Na ausência de pensamento, quando a mente está em silêncio, não existe tempo, não existe condicionamento, não existe ego. Aquele que se procura libertar só existe na cela de uma prisão. O escravo não se torna livre. A liberdade é o findar tanto do escravo como da prisão. A liberdade não tem qualquer relação com a escravidão. O escravo que se procura libertar nunca deixará de ser escravo. Tanto o escravo como a liberdade que ele projeta e idealiza fazem parte das grades da prisão.

É por isso que a libertação é tantas vezes apresentada como um processo imediato. Os mestres Zen são os mais pragmáticos, os mais diretos e menos pacientes a este respeito. Não têm paciência para palavras, discursos, racionalização e argumentos. O que fazem é renunciar a todo o conhecimento discursivo, a toda a especulação e esforço, para se estabelecerem na gratuitidade e simplicidade deste momento eternamente presente, a realidade atemporal do aqui e agora.

Se nalgum momento a leitura destas linhas suscitar alguma dificuldade ou esforço de compreensão, isso mais uma vez é devido ao desejo de conhecimento, de certeza e segurança. É preferível renunciar a seja o que for que estamos a procurar obter do que converter isto num problema a resolver. Tudo o que esse esforço e essa atividade poderá conseguir será meramente uma satisfação momentânea. Enquanto procurarmos satisfazer esse desejo de segurança, ele terá que ser satisfeito uma e outra vez indefinidamente. O problema terá que ser resolvido repetidamente e jamais alcançaremos a satisfação permanente. Porque a satisfação do desejo de segurança é sempre momentânea, tem validade a prazo. Nada de duradouro e permanente pode surgir da atividade do pensamento. O que um pensamento constrói, outro pensamento pode destruir. A própria mente tem uma existência intermitente.

Havia alguém que a intervalos regulares polvilhava com um certo pó todas as divisões da sua casa. Quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu que era para afastar os fantasmas e espíritos malignos. «Mas aqui não há fantasmas ou espíritos!», disseram-lhe. «Claro!», respondeu, «porque o pó os mantém à distância!». Enquanto procurarmos satisfazer o anseio de certeza, jamais saberemos se essa necessidade é real ou ilusória.

Enquanto julgarmos que precisamos da experiência e do conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios e circunstâncias, teremos medo de dispensar todo o nosso aparato conceptual. Mas enquanto não o fizermos, jamais poderemos saber se ele é ou não necessário. Jamais saberemos o que é a liberdade e o amor. Através dos mecanismos do medo e das atividades por ele engendradas, jamais poderemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Sim amigo! Mas permite que te diga que a verdade é uma presença e não uma posse! Todos a podem usufruir mas ninguém arrecadar! Se as palavras fazem sentido para ti, é porque de algum modo já estás em contato com a verdade que elas apontam. Obrigado pela tua visita que espero receber mais vezes!

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  2. Apetece dizer... Sem tempo, sem espaço, em Presença, as palavras servem-se em silêncio...!

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