A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






quinta-feira, 10 de maio de 2012

Corpo, espírito e identidade



"Oh my friend, all that you see of me is just a shell,
 and the rest belongs to love!"
                                                                                                            - Rumi



Coloca o teu centro de gravitação num ponto exterior ao teu corpo. Cessa a identificação com o corpo. O teu corpo é tanto o teu corpo como outro corpo qualquer. À semelhança de marionetes movidas por cordões num teatro de fantoches. Tu apenas podes movimentar um boneco, mas não te identificas com esse boneco mais do que te identificas com outro boneco qualquer interveniente na ação. Os outros bonecos têm acima de si igualmente uma mão que os move. Os espectadores veem os bonecos e a ação que eles desenvolvem no palco. Mas os verdadeiros responsáveis que comandam os bonecos, encontram-se ocultos ao olhar dos espectadores. Portanto tu não és o corpo. O corpo é apenas um elemento participante da ação. Interage com os outros elementos que se encontram presentes (outros corpos e objetos) numa relação global que constitui a totalidade do aqui e agora. Tu não te podes identificar com nenhum dos elementos particulares participantes do todo. Porque essa totalidade é o que tu és. E é só graças ao facto de tu seres a totalidade, que a totalidade pode ser.
Sempre que te identificas com o corpo estás a limitar-te de forma ilusória. Aquilo que és é demasiado grande para ser reduzido à tua pequenez. Não é a mente discursiva ou o intelecto que se apercebe disto. Mas isto está presente ao espírito. O espírito é consciência tranquila. Tal como um lago de águas claras  onde se refletem as estrelas.
Quando os outros olham para mim, isto é, para o meu corpo, não me veem. Porque eu não sou o corpo que eles veem. Sou Aquilo que está oculto por detrás do corpo e que os vê a eles. Os outros pretendem que me veem, mas estão errados. Equivocam-se sempre na direção em que olham. Fixam o seu olhar neste rosto que é precisamente o que para mim não existe, nunca existiu e não pode ser o que eu sou. Quem me vê não é aquele que está à minha frente e cuja presença me é indicada por esse rosto que eu vejo. Quem me vê não é quem está de frente para mim. É antes aquele que se coloca ao meu lado e olha na direção em que eu olho. São os outros que veem os meus olhos. Mas eu não sou os olhos que os outros veem. Sou o espírito por detrás dos olhos que os observa a eles.

sábado, 5 de maio de 2012

Inefável



Como poderão as palavras expressar ou transmitir um estado
que se torna presente quando todas as palavras
e todo o verbalizar se ausentaram?

Falar sobre Isto! Discorrer sobre Isto!
Sempre o mesmo dilema, a mesma frustração!
Sempre a sensação de que algo absolutamente essencial
foi deixado de fora!

 Falar e escrever!
Apenas para constatar que a verdade
Jamais se deixa capturar.

Tudo o que desta atividade pode resultar,
será sempre um pálido reflexo daquilo que lhe deu origem.

Compreender isto! Aceitar isto!
Não significa limitação ou impotência.
 Significa a infinita independência.
 A infinita liberdade!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ação e Agente

                                             
 Tu és o lápis!
Deus é o escritor!
A tinta é o amor...
E o mundo uma folha de papel!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Impermanência


                                                                                             Sei que há pouco eu já era...

                                                               Era "Ser", eu existia!

                                                               No entanto não sentia

                                                               esta sensação que sinto.

                                                               É estranho!... sei que não posso ser

                                                               esta sensação que sinto!

                                                                E sinto não poder ser

                                                                mais do que esta sensação!!...
 

Sou tudo sendo nada



                                                  Sou a luz que ilumina a realidade.
                                                  Sou a origem de todo o fenómeno.
                                                  Sou o próprio ser de tudo aquilo que é.
                                                  Sou o criador do mundo.
                                                  O princípio, o meio e o fim de todas as histórias.
                                                  Sou o alfa e o ómega.
                                                  Fora de mim nada existe.
                                                  Nada há que eu não seja.
                                                  Sou o uno do universo.
                                                  Sou o dedo que aponta, sou a lua e sou aquele que olha.
                                                  Sou a pergunta e sou a resposta.
                                                  Sou o autor de todos os livros
                                                  e sou o analfabeto que os lê.
                                                  Sou o palco e a plateia.
                                                  Sou o que permanece depois de se apagarem as luzes da sala.
                                                  E sou quem as acendeu quando ainda vazia.
                                                  Sou o Cristo, sou o Buda e sou quem se senta aos seus pés.
                                                  Sou todos os deuses e todos os seus profetas...
                                                  E sou também quem jamais os escutará. 
                                                
                                               

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

As Palavras e as Coisas

Somos senhores do silêncio que conservamos e escravos do ruído que produzimos



U
ma experiência ou sensação, enquanto tal, é uma realidade incontestável. Dispensa confirmação ou demonstração e é imune a qualquer tentativa de refutação. Não pode ser impugnado aquilo que irremediável e irrefutavelmente é. Tal como o cogito cartesiano, está para além de toda a objeção. Se sofremos uma dor de dentes, é inútil toda a dissecação intelectual que procure pô-la em causa.

Enquanto no campo do silêncio, do fenómeno subjectivo, esta realidade permanece pura e soberana. Está para além de toda a controvérsia. Mas quando a denominamos, quando lhe damos um nome, transferimo-la para o espaço público. Corrompemo-la inevitavelmente. Tornámo-la vulnerável à contenda e à disputa. Aquela realidade sem nome, na sua pureza e originalidade, não existia antes da sua manifestação. Mas quando lhe damos nome transferimo-la para um invólucro que lhe é preexistente, com uma forma própria com a qual ela agora é coberta, adulterada, desvirtuada, conspurcada. Tal como o liquido adquire a forma do recipiente onde é introduzido, assim também as palavras dão determinada forma às emoções e sentimentos que procuram representar.

Cumpre fazer aqui uma distinção entre aquelas duas dimensões, isto é, a realidade em si mesma e a realidade enquanto simbolizada. O aviltamento de que falamos apenas atinge esta segunda dimensão. A realidade enquanto tal e em si mesma, permanece intacta e na sua pureza original.

A linguagem é um produto social, um instrumento colectivo. Está construída para satisfazer as necessidades da sociedade onde ela emerge. Daí não poder dar conta de uma necessidade ainda não manifesta. Creio que é por este motivo que nos causa tanta estranheza a literatura mística e espiritual oriunda dos homens sábios da Índia e da China. O progresso do conhecimento e a expansão da consciência deveriam ser acompanhados por um correspondente dinamismo da linguagem. Este dinamismo tanto se poderá manifestar num alargamento do significado de determinadas palavras, como no surgimento de novos termos que possam dar conta da nova realidade emergente (ou da expansão da consciência da realidade).

As palavras são algo de muito limitado e insuficiente relativamente à função que deveriam desempenhar ou que delas esperamos. Principalmente quando procuramos representar uma realidade que não pertence ao domínio do tangível e material, mas sim ao domínio psicológico, subjectivo e imaterial. É neste último campo onde se regista a grande ineficiência das palavras por não haver possibilidade de confirmar empiricamente e de forma inequívoca que os diversos conceitos são interpretados de maneira uniforme pelas diversas pessoas e atribuímos os mesmos nomes às mesmas realidades.

Ao escolher do mundo das palavras aquelas com as quais pretende simbolizar a sua experiência, uma pessoa comete equívocos que poderão anular completamente qualquer fundamento da existência do mundo verbal, uma vez que este deixa de cumprir a sua função. E o cumprimento dessa função é a condição cuja verificação é indispensável, ou na qual reside qualquer valor ontológico ou pragmático que se lhe possa atribuir. Uma pessoa não apenas comete equívocos ao escolher do mundo verbal as palavras com que pretende simbolizar a sua experiência, como poderá mesmo acontecer que daquele mundo ainda não façam parte as palavras que a poderão simbolizar. Neste último caso a pessoa irá colocar um nome a algo que ainda não o tem. O dar nome implica sempre identificação e a identificação é sempre produto do passado. Quer isto dizer que a pessoa está a ver numa coisa nova, desconhecida e sem nome, uma coisa velha, conhecida, com nome. Se a pessoa não tiver consciência deste facto, então poderá ficar enredada num processo de pensamento cujo resultado poderá ser uma total dissociação da realidade. Isto é uma coisa gravíssima quando se trata de fenómenos do campo psicológico porque as palavras deixam de ser utilizadas como uma representação da realidade para a passarem a determinar. Acontece assim porque certos conceitos acarretam já consigo uma determinada carga emocional, provocam já determinados sentimentos e reacções automáticas. Há uma inversão absurda da ordem ontológica: deixa de se partir da realidade para as palavras (silêncio) para se partir das palavras para a realidade (preconceito).

A forma mais complexa, paradoxal e absurda que uma frase possa ter, poderá ser na realidade a utilização mais inteligente  que se faz das palavras numa expressão. Se uma pessoa não quer atraiçoar verbalmente uma experiência de elevado grau de incomunicabilidade, a forma como mistura palavras na tentativa de fazer a sua tradução verbal servindo-se dos nexos de que dispõe na sua língua, poderá parecer extremamente paradoxal e confusa. Se as palavras não podem expressar a sua experiência, então que se abstenha de o procurar fazer. E se o tentar comunicar, então que não entendam o que ela diga. Se a entenderem, a sua experiência terá sido atraiçoada na sua tradução; se a não entenderem, então terá sido inteligente a sua comunicação. Perante uma realidade nova e desconhecida, a atitude mais adequada é a humildade, a forma negativa no sentido socrático, e não a afirmação positiva.

Se uma coisa é nova e desconhecida, nada temos a objetar que seja criada também uma palavra nova para a simbolizar. É preferível a meter vinho novo em odres velhos. Se uma coisa não tem nome, então que seja descoberta em silêncio. Às palavras o que é das palavras; ao silêncio o que é do silêncio. O contacto com a realidade só acontece depois de transcendermos as palavras. Mais importante do que explicar as coisas é sentir as coisas. Para quê conhecer o que não se sente? É muito mais importante sentir o que não se conhece.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Paradoxos


Leio que me dizes que a verdade jamais me será trazida por um livro ou um guru Que tenho que a descobrir por mim mesmo. Isso foi o que fiz. Não acreditei em ti. Porque se acreditasse teria rejeitado o teu livro. E assim não me poderias ter feito compreender que a verdade não está no livro!
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Dizes-me para fazer silêncio e rejeitar a mente e o pensamento. Eu ainda te não compreendo. Mas vou ficar com este não-compreender. Porque se o quiser converter em compreensão terei que usar o pensamento. E tu dizes-me para ficar quieto e não pensar!


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Há já muitos mestres a escrever e a falar sobre aquilo que não tem nome, não pode ser posto em palavras e não se pode comunicar!


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D. Miguel Ruiz aconselhou-me a não acreditar em ninguém. Poderei acreditar no seu conselho?


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Falar daquilo de que se não pode falar é ainda procurar falar daquilo. Deixa-me então tentar não falar daquilo de que se não pode falar!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Perguntas e Respostas - Quem Compreende o Quê?

    "O dilema não é que o individuo compreenda ou não compreenda. O dilema é o individuo."    -Tony Parsons 

Isto é para ser compreendido por quem compreende. E isto é para não ser compreendido por quem não compreende. Tudo está bem como está. Só o esforço para converter o que é noutra coisa está a mais. Se não compreendes, mas não te esforças para compreender, então compreendes! Eu não falo de nada que requeira compreensão e esforço. Não há aqui nada a alcançar. Eu estou apenas a endereçar um convite que pode ou não ser aceite. Um convite à imobilização da mente, do tempo, do pensamento. E isto é apenas um modo de estar, de ser. Não é nenhuma meta ou compreensão que se alcança.

A verdade não depende dos esforços que fazes para a descobrir. Tu nada podes fazer para que a compreensão aconteça. E nada podes fazer para a impedir de acontecer. Simplesmente pára! Abandona os teus esforços para compreender. Permanece nessa confusão e não-saber. Então alguma coisa poderá suceder. Mas saberás que tu de nada foste o autor.

Tu deleitas-te a observar aquele globo prateado que aparece no firmamento numa noite de luar. Mas eis que uma nuvem passageira vem ocultar a lua. Tu queres ter de volta o luar e podes esforçar-te para arredar a nuvem que agora o cobre. Eu apenas te convido a permanecer imóvel e a contemplar aquela nuvem. Ela também tem a sua peculiar beleza. Tu não a convidaste nem a podes expulsar. As mesmas forças que a trouxeram se encarregarão de a levar.

O esforço para atingir a experiência de um outro a partir das suas palavras e símbolos é inglório e inútil. É uma necessidade ilusória. Cada um tem o seu próprio caminho a percorrer. Somos todos únicos. A totalidade de que somos constituídos é formada por um conjunto de acontecimentos e experiências que representam uma configuração única e irrepetível. Aquilo que um indivíduo recorda e lhe é significativo, outro indivíduo esquece como destituído de significado. Cada um de nós faz os seus próprios sublinhados nos livros que lê. Um indivíduo fica indiferente a uma frase que para um outro se reveste de profundo significado e o abala de uma forma vital.

Eu vejo algo! E porque o vejo e a partir desse algo brotam as minhas palavras. Tu ouves as minhas palavras. E com elas e a partir delas constróis algo. O que te garante que esse algo que construíste com as minhas palavras é o mesmo algo a partir do qual as minhas palavras foram construídas?

Podes continuar a fazer perguntas e ficar ou não satisfeito com as minhas respostas. Mas na verdade não há qualquer entidade que possa beneficiar dessas perguntas e dessas respostas. Tu julgas que precisas das respostas às tuas perguntas para poderes atuar adequadamente, para reagires corretamente à vida e aos seus desafios. Mas na realidade, quando estás plenamente presente e a resposta é adequada e completa, não existe a entidade que perguntava e se satisfazia ou não com as respostas. Aquele que busca respostas desaparece quando cessam as perguntas. É uma entidade que apenas existe no processo de perguntas e respostas. A entidade que obtém respostas só existe no processo de fazer perguntas. A libertação e a plenitude do teu ser não depende das respostas às tuas perguntas. Tu já és livre, pleno, completo antes de obteres respostas às tuas perguntas, e és livre, pleno, completo, depois de as obteres. És plenamente livre e completo mesmo antes que qualquer pergunta, dúvida ou questão seja formulada.

Nenhuma pergunta requer resposta, porque a única resposta sempre consistirá no desaparecimento daquele que faz a pergunta. A tua existência plenamente desperta, plenamente iluminada, plenamente consciente, não tem qualquer necessidade de fazer perguntas e de obter respostas. Por mais respostas e conceitos que procures acumular, o teu ser real constituí-se de amor. E quando amas, o amor preenche-te completamente. Não sobra qualquer espaço para ti, para o ego, para a aplicação de regras ou respostas. Ages de forma espontânea e natural. A mente é que se alimenta de problemas, por isso necessita converter em problema tudo aquilo em que toca.

Queres ser iluminado? Nenhum peixe sabe o que é a água. Nenhuma criança sabe o que é a naturalidade e espontaneidade; nenhuma águia, cujas asas se abrem naquela infinidade azul com desprezo pela terra inteira, sabe o que é a liberdade.  Aquele que é generoso desconhece a generosidade. A autêntica beleza nunca resulta da vaidade.   

domingo, 17 de julho de 2011

Forma e Vazio - Mundo e Consciência



O ser ou existir implica a consciência. Para um objeto inerte não faz qualquer diferença existir ou não existir. A sua existência ou inexistência faz diferença apenas para a consciência que o percebe. Eu (Consciência), sou auto-consciente, o objeto não o é. Daí que para o objeto não há qualquer diferença entre ser ou não ser, entre existir ou não existir. O objeto que eu presencio, tal como ele me aparece, não tem uma existência separada das próprias qualidades com que a mente pode ver e conceber. É apenas um conjunto de sensações que experimento e com as quais o identifico. Estas sensações provam a minha existência, não a do objeto. O objeto existe apenas para a consciência que o percebe, não existe para si próprio. Tal como é assinalado pela filosofia Vedanta e pelo budismo, o mundo manifesto não tem qualquer realidade intrínseca, não existe de forma autónoma e independente. Só a consciência existe de forma absoluta. Só a consciência é auto-consciente. O mundo tem existência meramente relativa e conceptual. Não se trata de estabelecer aqui alguma conclusão, solipsista ou de outro género qualquer. Toda a conclusão equivale a entrar num barco destinado a naufragar. Nenhuma conclusão se requer. Apenas constatamos que a separação entre interior e exterior, espírito e matéria, sujeito e objeto ,não passa de uma suposição arbitrária. Tudo surge num mesmo e único espaço consciente, em si mesmo vazio, informe, ilimitado, omnipresente e atemporal. Cai a ilusão da dualidade, a ilusão da separação entre nós e o mundo. O mundo que percebemos não pode existir sem a consciência que o percebe.

Procurar o que somos realmente para além da experiência transitória, é como ir removendo sucessivamente as cascas de uma cebola. Quando atingimos o centro, aquilo a que chegamos é coisa nenhuma, um perfeito vazio. Mas este vazio não é um vazio feito de nada, mas sim de consciência. É um espaço infinito de silêncio e disponibilidade onde todo o universo se manifesta. Este espaço consciente é o que nós somos. Nada mais, nada menos do que este espaço, esta consciência. A afirmação contida nos antigos Upanishades, "Tat Tvam Asi" (Tu és Isso), é a verdade para a qual apontam todas as tradições espirituais e religiosas que afirmam a não-dualidade da realidade. Por isso diz  Meister Eckhart num dos seus sermões: "O olho com que vejo Deus, é o mesmo olho com que Deus me vê; o meu olho e o olho de Deus são um único olho, um único conhecer, uma única visão, um único amor." A existência indubitável da consciência constitui o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a auto-inquirição e de toda a jornada em busca de Deus, do auto-conhecimento e da natureza da realidade.

Querer experimentar a consciência, o vazio, o espaço, de forma abstrata e independente dos objetos ou das formas que nele aparecem, é como procurar ter a percepção da luz separadamente dos objetos que ilumina. Esta é uma tarefa inglória, uma impossibilidade. Tal desejo surge em virtude da constatação da permanente mutabilidade dos objetos. Mas a consciência, aquele espaço infinito, aquele vazio original, surge sempre ligado aos objetos ou formas da experiência transitória. O permanente surge sempre ligado ao impermanente. A consciência e o seu conteúdo existem de forma unitária, como uma unidade inseparável, uma totalidade que só de forma verbal e artificial pode ser dissociada ou dividida. Sem a luz os objectos não poderiam ser presenciados. Mas são os objectos que, de alguma forma, nos conscientizam da luz que os ilumina e transcende. Nós não vemos a luz, vemos apenas os objetos por ela iluminados. Mas o facto de serem vistos torna óbvia e irrefutável a implícita presença dessa luz ou consciência que os percebe.

Esta presença consciente, não sendo um objeto de experiência, é no entanto uma realidade mais sólida e evidente do que qualquer objeto experimentado. Apenas a consciência é real. Só ela existe de forma indubitável e permanente. A realidade que qualquer manifestação fenoménica torna inegável não é a do  objeto percebido, mas sim a da consciência em que ele aparece. Esta implícita certeza é igual à primeira descoberta de Descartes. Todo o objeto aponta para a indubitável existência do sujeito. E nenhum objeto pode ser concebido como tendo uma existência real, autónoma e independente da sua manifestação na consciência que o percebe. Quando se diz que o mundo fenoménico é irreal, ilusório ou aparente, não devemos ver aí nenhum mistério transcendente que temos de desvendar. Significa, na perspetiva budista da realidade, a impermanência e interdependência de todos os fenómenos. Por isso só o repouso na vacuidade torna possível a infinita flexibilidade que nos permite estar em sintonia com a célere e permanente mudança do real.

Filosofia, intelecto e espírito

Nenhuma filosofia, por mais rigorosa, perfeita e elaborada, pode abarcar a totalidade. Porque toda a filosofia é construída e armazenada no intelecto. E o intelecto não passa de um fragmento da totalidade. O intelecto não pode abarcar a totalidade. É a totalidade que integra o intelecto. Qualquer filosofia, por mais amplo e extenso que seja o campo abordado, será sempre algo semelhante a uma corrida num tapete rolante: por mais kms que façamos, a distância percorrida estará sempre confinada a um espaço limitado. Quando percebemos isto, então a mente, o intelecto, passa a funcionar não já como um armazém, mas apenas como um instrumento. Um instrumento ao serviço do espírito em vez de ser um empecilho. Quando a nossa ação se origina desde a perspetiva desta totalidade, então a utopia, o paraíso deixa de ser elaborado e formulado, passa a ser vivido! Talvez haja uma considerável redução do número de volumes pretendendo descrever a sociedade perfeita e de métodos e sistemas pretendendo criar o paraíso, mas teremos uma vida infinitamente mais rica, plena e satisfatória. Deixaremos de nos preocupar com a construção da sociedade perfeita. O mundo seguirá o seu caminho entregue a si próprio. "Quem procura modificar o mundo, vejo, não o conseguirá. O mundo, vaso espiritual, não pode ser modificado”, diz-se no Tao Te King.

Alguém objectará: e o que fazeis vós ao escrever isto? Porventura não estais a filosofar? Respondo que isto não constitui qualquer excepção ao que foi dito acima. Isto não passa de palavras. Esta mensagem será abandonada por quem perceber plenamente o seu significado. Tal como se abandona um barco depois de alcançarmos a outra margem do rio ou se deita fora um mapa uma vez chegados ao local que ele indicava. Isto não passa de palavras. Mas a fonte donde elas surgem poderá ser conhecida por quem estiver disposto a abandoná-las para abraçar aquilo para o qual elas apontam. Cada palavra, cada frase aqui derramada não passa de sucessivas e renovadas tentativas para que o leitor possa ser levado a vislumbrar algo que se encontra além das palavras, da mente e do pensamento. Mas isso nenhuma quantidade e nenhuma forma de misturar palavras poderá adequadamente fazer.

Os diversos textos aqui oferecidos não representam diversos estágios ou etapas para alcançar um objectivo no final. Não representam as diversas partes de um todo à semelhança das peças de um puzzle. Em qualquer ponto deles se pode encontrar na sua plenitude a totalidade da mensagem que procuram transmitir. Tal como a água que uma criança apanha na concha das mãos contem já todo o segredo do oceano, a essência da mensagem aqui contida pode ser plenamente captada logo desde o seu início. Porque na realidade ela já está presente mesmo antes da primeira palavra aqui escrita. E é a mesma mensagem perene e essencial, comum aos grandes místicos, sábios e profetas de todos os tempos e que se encontra no coração de todas as grandes religiões.

Não é minha intenção ser exaustivo. Não é necessário ser exaustivo para dizer o que é necessário sobre um assunto. Não é necessário percorrermos um roteiro de todos os livros e mestres que trataram o tema. Ser exaustivo aqui seria apenas percorrer as diversas formas em que foi expressado o essencial. Mas esse é um esforço desnecessário. Não nos interessa mostrar erudição mas apenas apontar uma realidade fundamental: a verdade que tem sido descoberta e expressada de diversas formas. Não há nada mais fácil (e também mais inútil) do que gastar mil páginas com uma informação que está contida apenas em dez ou vinte. O que está a mais torna-se distração e a distração é ruído que impede a eficácia da transmissão. Esta não é uma mensagem para ser guardada. Se for corretamente recebida e compreendida, então ela não será conservada, mas assimilada. E tudo aquilo que é assimilado desaparece no processo de assimilação.

Devo dizer que é um exercício inútil e um desperdício procurar aqui inconsistências e contradições. Esta mensagem passa completamente ao lado daquele que dela se aproxima munido de espírito académico. Aqueles que veem aqui mais uma oportunidade para o fútil jogo de descobrir e vaidosamente denunciar paradoxos e inconsistências, sofrem precisamente da ilusão e do sono de que esta mensagem os procura despertar. Consistências e contradições, confirmações e refutações, fazem parte da dimensão que aqui somos convidados a abandonar. As palavras utilizadas e a forma em que elas são aqui colocadas não tem em vista a construção de um sistema consistente e irrefutável. Não se procura aqui dar satisfação ao intelecto mas antes ver para além do intelecto. Não se procura aqui construir mais um sistema para ser endeusado e sacralizado ou mais uma ideologia pela qual matar e morrer. Se o intelecto fosse o instrumento da felicidade que procuramos, já há muito teríamos estabelecido na terra o paraíso.

Se nalgum momento da leitura destas palavras dás contigo a lutar para compreender, a comparar ou a procurar conciliar com o que julgas saber, a esforçar-te no sentido de atingires algo que julgas elas possam ocultar (o que não passará de uma projeção da tua própria mente), então deixaste de estar em sintonia com a mensagem que elas procuram transmitir. Porque esta mensagem é precisamente um convite a renunciar a seja o que for que estás a procurar alcançar. Essa tua atividade, esse teu buscar, esse esforço para compreender e alcançar, o único instrumento que possui é a mente, o pensamento. Mas esta mensagem é um convite ao abandono da mente e do esforço volitivo do pensamento. És livre para aceitar ou não este convite, mas se o quiseres aceitar, terás que renunciar a qualquer especulação que procure antecipar aquilo que está para vir. Tens que estar disposto a mergulhar na incerteza e no desconhecido. Experimenta! O que tens a perder? Só tens esta vida para viver. E podes estar a ficar à margem do que de mais importante ela tem para te oferecer.

Claro que procurar garantias, procurar saber o que será a vida sem a persistente atividade do intelecto, sem o constante esforço da mente e do pensamento, é como um peixe procurar conhecer a experiência de uma cabra de montanha, ou esperar que um cadáver se possa pronunciar sobre o conforto do seu caixão. Afinal toda a especulação, toda a imaginação e antecipação se encontram na esfera da mente. Mas aqui a mente não tem qualquer participação. Não podes usar a mente para conhecer o que se encontra além da mente. Temos medo de abandonar um lixo que agora nos parece precioso, apenas porque não vemos a imensidão do que nos espera após esse abandono. Mas a verdadeira insanidade, como Einstein advertiu, é agir sempre da mesma forma e esperar resultados diferentes.