A questão da identidade essencial, a indagação em torno da pergunta “O que sou?”, constitui o núcleo à volta do qual gravitam todas as grandes tradições espirituais e religiosas.
Nesta inquirição alguns termos e expressões poderão adquirir significados
ligeiramente diferentes em função do contexto e da tradição em que são utilizados. Por isso
devemos evitar uma atitude demasiado rígida, permitindo-nos alguma flexibilidade na interpretação de certas palavras e expressões.
Quem leu os grandes
mestres do Zen-Budismo terá reparado que nesses textos é muitas vezes utilizado
o conceito de “grande mente”, “mente essencial”, "mente única" ou “mente original” para se
referirem àquilo que constitui a nossa autêntica natureza, a nossa identidade essencial e que os autores
Advaita denominam “Consciência”. Ambas as tradições apontam para a mesma realidade.
Na maioria dos textos Advaita
faz-se uma distinção entre mente e consciência, que de forma breve podemos clarificar como segue:
Mente – É expressão da experiência individual sob
a forma de pensamentos, memórias, desejos e aversões, emoções e sentimentos. É apenas um objeto ou conteúdo da consciência. É resultado do tempo e está sujeita ao jogo da mudança e da impermanência. O "eu" pessoal e fenoménico e aquilo a que chamamos "personalidade" não passa de uma construção fictícia que resulta da nossa identificação com estas formações mentais.
Consciência – É aquilo que constitui a nossa natureza
essencial e imutável. É omnipresente, atemporal, impessoal e universal. Não tem quaisquer limites, qualidades ou dimensões. É informe e vazia, sem qualquer ubicação no tempo ou espaço. Sendo pura subjetividade não pode ser percebida objetivamente. É a realidade última e primeira a que em última instância é redutível todo o fenómeno e experiência. Esta Consciência é o que realmente somos. É aquilo que se encontra por trás da expressão "Eu Sou" ou "Existo".
Esta distinção é importante porque o nosso ser autêntico e
essencial, aquilo que realmente somos, não pode ser identificado com nada que seja objeto de percepção ou experiência. A
forma como em cada momento pensas, atuas e sentes, apenas reflete o teu estado,
não define aquilo que tu és. David Hume, uma importante figura da filosofia ocidental,
também se apercebeu disto, o que o levou a negar qualquer realidade substancial
ao “eu” individual, tal como já havia feito o Buda há 2500 anos.
É importante notar que não existe um "eu" e a "consciência" como coisas separadas. A consciência não é um atributo, não é uma coisa que tu tens, é aquilo que tu és. Só existe consciência e não um "eu" que é consciente. . Não são as pessoas que têm consciência, é a consciência que tem pessoas. A aparente existência de um "eu" como entidade separada, não passa de uma sensação ilusória e intermitente. É apenas mais uma manifestação que surge na consciência.“Quanto a mim, quando penetro mais intimamente naquilo a que chamo eu próprio, tropeço sempre numa ou outra percepção particular, de frio ou calor, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de dor ou prazer. Nunca consigo apanhar-me a mim próprio, em qualquer momento, sem uma percepção, e nada posso observar a não ser a percepção.” -David Hume, Tratado da Natureza Humana
Os mestres Advaita terão reparado que o nosso verdadeiro ser, a nossa natureza autêntica e original, não pode ser nada de fenoménico nem ter qualquer marco temporal. Terá que estar sempre presente, não é nada que se possa perder ou adquirir e deve estar antes e além da mente e do “eu individual". Aquilo que és não pode ser definido ou formulado positivamente. Não podes dizer o que és, mas apenas aquilo que não és. Daí a expressão “Neti, Neti” (nem isto, nem aquilo), oriunda do antigo sânscrito, que significa que a verdade do que és, não é nada susceptível de surgir no tempo ou no espaço, nem nada que possa ser pensado, sentido, conhecido, experimentado ou verbalizado.“Compreenda que não é o indivíduo que tem consciência, é a consciência que assume inumeráveis formas. Esse algo que nasce ou que morrerá é puramente imaginário.” -Nisargadatta Maharaj, I Am That
Tu és aquilo que resta depois de descartares tudo o que participa do jogo da impermanência. Isto torna inúteis todos os esforços para apreender objetivamente essa realidade última, o ser essencial ou absoluto, já que todas as aparências surgem no campo fenoménico, pertencem ao mundo do tempo e do transitório. Qualquer coisa que possas conhecer e conceptualizar manifesta-se no plano consciente. E tudo o que surge no plano da consciência é temporário e impermanente. Por isso os budistas o consideram apenas aparente ou ilusório já que tem realidade meramente relativa e dependente. O mundo surge e desaparece com a própria consciência que o percebe. Sem consciência não há mundo.
A própria consciência é a única realidade estável e permanente em meio a todo este fluxo efémero e passageiro que constitui o mundo fenoménico. Paradoxalmente, a tua realidade mais íntima e essencial é algo que jamais poderás conhecer de forma conceptual e jamais poderá ser objeto de percepção ou experiência, pois é aquilo que está na origem de todo o fenómeno e torna possível todo o experimentar. Não podes conhecer o que és, apenas podes sê-lo!