A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






quinta-feira, 7 de março de 2013

Ação e Ideia




Uma das atividades mais tirânicas da manutenção do ego consiste em converter a experiência em ideias que proporcionem segurança na ação. Qualquer experiência, por mais nobre e autêntica que tenha sido, é atraiçoada quando a procuras cristalizar numa ideia. É egoísmo procurar agir em conformidade com o amor e altruísmo. Se procuras ser consistente com uma ideia de liberdade, então não és livre, és escravo. Não podes ser livre se a tua ação se processa em obediência a uma ideia. Na liberdade não está presente a obediência ou conformidade, não há deia a mediar a ação. A liberdade é ausência de ideia. A ação livre é sempre espontânea. A ideia gera dualidade ou separação entre aquilo que és e o que procuras aparentar, entre o que é e o que deveria ser. A ideia é qualquer coisa de alheio àquilo que de forma mais autêntica tu és. Apenas a arrogância cultiva a humildade. Só o egoísta procura ser generoso. O homem integro é uno  com a verdade. Um peixe não trata de atuar como um peixe para ser um peixe. Se há uma imagem em conformidade com a qual procuras atuar, então existe uma separação e negação daquilo que és. A ação não pode ser total e genuína enquanto houver um agente separado da ação.


O estado natural dispensa conhecimento e verbalização. É como a felicidade, só sabes da sua existência depois que a perdeste. Quando eras pequeno nada sabias da felicidade. Eras feliz sem o saber e sem o nomear. Em última instância, os ensinamentos dos homens sábios são como a porta deixada para trás uma vez atravessada. Para não serem convertidos num novo apego e uma nova carga. O Buda ensinava que não devemos carregar às costas a balsa que nos serviu para atravessar o rio. Sempre que existe o desejo de fixar um insight, uma experiência ou uma compreensão, este acaba por se converter numa nova forma de segurança e uma nova referência com a qual abalizar a ação. É apenas uma cela diferente dentro da mesma prisão.

O ego pode apropriar-se de qualquer exposição verbal ou simbólica, mesmo da mais rigorosa, perfeita e bem concebida exposição da não-dualidade. A sua infinita capacidade de metamorfose pode tomar a forma até do suposto ensinamento que o pretende eliminar. Porque essencialmente o ego alimenta-se de conceptualização e pensamento. Daí a necessidade de abandonar o barco que nos tenha conduzido à outra margem. Por mais sólido e útil que tenha sido durante a travessia, uma vez alcançada a outra margem não faz sentido carregar o barco às costas. Quando caminhamos em terra firme, o barco torna-se um estorvo e uma carga inútil.  Que utilidade pode ter um mapa uma vez que já vimos claramente o tesouro? Continuar indefinidamente a interpretar, aperfeiçoar, completar ou idolatrar o mapa, só pode resultar num esforço inútil e num inútil dispêndio de energia.

Sempre que uma compreensão se cristaliza num conceito mental ou numa fórmula com a qual procuro moldar a experiência, de acordo com a qual eu procuro agir ou conformar a ação, então o ego modificou-se para poder sobreviver. Se uma compreensão, experiência ou "insight", por mais elevado que seja, resulta numa aquisição (norma, crença, doutrina, conhecimento, etc.), então o ego ressurge sob nova roupagem. Abandonar uma crença para abraçar outra, ainda que oposta, significa permanecer amarrado na mesma ilusão sob uma nova forma. A libertação só é real quando aquilo que se perde não é substituído,  por mais elevada,  sublime ou lucrativa que pareça a substituição e por mais sagrado que seja o objeto substituto. A renúncia e o desapego tem que ser absoluto e incondicional. É por isso que a sabedoria Zen diz que "Mesmo a melhor coisa não é melhor do que nada". A ação criadora assemelha-se ao som de um tambor, origina-se desde o vazio interior.

Por mais forte que seja a atração pela certeza e segurança, este impulso ou desejo é a principal origem e sustento do ego. O ego procura sempre escudar-se atrás de ideias que o protejam do desconhecido e  imprevisível. Daí o esforço constante para conceptualizar e nomear a experiência. Sempre que uma crença é substituída por outra, não importa se falsa ou verdadeira, então o ego encontrou uma nova forma de apoio e sustento. Qualquer crença se converte num exercício auto-opressivo que envolve numa camisa-de-forças a experiência. O importante é o abandono de toda a crença, de todo o desejo de segurança. Trata-se de abraçar a insegurança e a incerteza, ou antes, de não lhes procurar fugir. Permanecer no silêncio e no vazio. Só então é possível contactar uma dimensão que nada tem a ver com as formulações do intelecto e maquinações ilusórias do ego. Só então a ação acontece desde uma percepção lúcida e direta da realidade.

O impulso à segurança é muito forte e subtil e por isso necessita vigilância constante. Porque o ego de tudo pode colher alimento, inclusive dos ensinamentos do mais santo, do mais sábio e bem intencionado guru ou profeta. Qualquer descrição, o ego irá converter numa prescrição, quer dizer, num instrumento de manipulação da experiência. Porque o ego constitui-se essencialmente de resistência e controle. Na presença do ego, qualquer céu se pode converter num inferno. Na sua ausência tudo é invadido pela paz, pelo paraíso e bem-aventurança.

Observa a forma que tem a tua resposta a este momento presente. Como lhe correspondes? Tomas como pressuposto que existe a forma correta, adequada, perfeita de responder ao desafio? Possuis armazenada ao nível conceptual uma fórmula ou receita que agora procuras aplicar? A tua ação é comandada, dirigida por uma ideia elaborada, uma crença, um conceito que armazenaste devido ao teu desejo de perfeição? A tua ação tem a proteção e mediação de uma ideia, não importando o rigor ou a santidade  da sua proveniência? Ou pelo contrário, te permites apresentar perante o desafio de uma forma completamente desarmada e vulnerável, quer dizer, de uma forma nua, direta, totalmente aberta e desprotegida?

Se a tua busca e aprendizagem resultou numa fórmula e se cristalizou num conceito na base do qual procuras atuar, então permaneces cego e invulnerável à realidade. Porque a realidade deste momento é sempre o desconhecido. "O desconhecido não é o futuro, porém o presente!", tal como observou Krishnamurti. E o desconhecido não pode ser captado por qualquer conceito. Só o podes contactar se a tua mente, os teus conceitos não se interpuserem, se não o procuras enformar dentro das tuas crenças e conhecimentos.

A mente procura uma fórmula infalível que satisfaça o seu anseio de segurança e permanência, um conceito definitivo e imperturbável no qual se possa instalar de forma definitiva. Mas esta esperança é completamente infundada e ilusória. Nada do que o pensamento concebe escapa à fluidez e impermanência do próprio pensamento. Tudo o que a mente constrói e formula, só subsiste enquanto suportado e alimentado pela própria mente. Mas a própria mente tem existência intermitente, surge e desaparece.

"Ama, et fac quod vis!" (Ama, e faz o que quiseres!), declarou Santo Agostinho. A única ação verdadeiramente inteligente só pode ser resultado do amor, que é a ação num total espaço de disponibilidade, abertura e não-saber. Apenas a consciência, quer dizer, o amor, pode receber a realidade. E o amor significa na verdade a tua ausência.  Só quando tu não estás é que a verdade pode brilhar.