Enquanto a minha vida e a minha ação foram conduzidas pela exigência de ordem e busca da perfeição, deixei de falar o idioma do universo e a minha existência tornou-se num poema eternamente adiado. Foi quando fiz do caos o meu lema que passei a falar a linguagem do Cosmos. Entre nós estabeleceu-se um diálogo feito de milagres e de mistérios. Apenas os meus movimentos em busca de uma chave me impediam o acesso àquela porta que sempre se encontra aberta.
A ordem é apenas uma das infinitas possibilidades do caos. Por isso o caos é sempre maior e mais livre do que a ordem. A ordem é estabelecida pela alma de acordo a uma configuração singular que lhe é própria, partindo da disposição caótica dos seus elementos. E isto é feito de forma anárquica e espontânea, como são todas as ações da alma.
Caos e ordem são apenas relativos ao espírito que os contempla. Podes idealizar a mais maravilhosa das utopias, conceber a mais perfeita ordem social, um paraíso de ordem e harmonia; mas se for habitado por seres perturbados e ansiosos, acabarão por o subverter e reduzir à sua própria condição.
Com a minha exigência de ordem por fora, apenas conheci o caos e a inquietude por dentro. Só pude sentir a paz e serenidade quando aceitei e abracei o caos. Por mais violento que seja o rodopio do furacão, no próprio centro está sempre imóvel. Por mais agitadas que sejam as ondas, o fundo do oceano é sempre sereno.