"Em verdade vos digo que qualquer objeto que tenhais no pensamento, por mais sagrado que seja, será uma barreira entre vós e a intima verdade." Meister Eckhart
Uma das atividades mais tirânicas da manutenção do ego consiste em converter a experiência em ideias que proporcionem segurança na ação. Qualquer experiência, por mais nobre e autêntica que tenha sido, é atraiçoada quando a cristalizas numa ideia. É egoísmo procurar agir em conformidade com o amor e altruísmo. Se procuras ser consistente com uma ideia de liberdade, não és livre, és escravo. Não podes ser livre se a tua ação decorre da obediência a uma ideia. Na liberdade não há lugar para a obediência ou conformidade; não há ideia a mediar a ação. A liberdade é ausência de ideia. A ação livre é sempre espontânea. A ideia gera dualidade ou separação entre aquilo que és e o que procuras aparentar; entre o que é e o que deveria ser. A ideia é qualquer coisa de alheio àquilo que autenticamente tu és. Apenas a arrogância cultiva a humildade. Só o egoísta procura ser generoso. O homem integro é uno com a verdade. Ninguém precisa praticar ser o que já é. Um peixe não trata de atuar como um peixe para ser um peixe. Só a prática do que não somos requer esforço consciente. Por isso alguém afirmou: "As pessoas demasiado ocupadas em fazer o bem não têm tempo para SER boas". Se procuras atuar em conformidade com uma imagem, há uma dissociação e negação daquilo que és. A ação não pode ser total e genuína enquanto houver um agente separado da ação.
O ego pode apropriar-se de qualquer exposição verbal ou simbólica, por mais rigorosa, perfeita ou bem concebida. A sua infinita capacidade de metamorfose pode tomar a forma até do suposto ensinamento que o pretende eliminar. Porque essencialmente o ego alimenta-se de conceptualização e pensamento. Daí a necessidade de abandonar o barco que nos conduziu à outra margem. Por mais sólido e útil que tenha sido durante a travessia, uma vez alcançada a outra margem não faz sentido carregar o barco às costas. Quando caminhamos em terra firme, o barco torna-se um estorvo e uma carga inútil. Que utilidade pode ter um mapa uma vez que já vimos claramente o tesouro? Continuar indefinidamente a interpretar, aperfeiçoar, completar ou idolatrar o mapa, só pode resultar num esforço inútil e num inútil dispêndio de energia. Daí que o Buda tenha declarado: "Nada obtive do despertar pleno e completo, e por isso ele é o despertar pleno e completo".
Sempre que uma compreensão se cristaliza num conceito, numa fórmula com que moldar a experiência, de acordo com a qual conformar a ação, então o ego modificou-se para poder subsistir. Se uma revelação, experiência ou "insight", por mais elevado que seja, resulta numa aquisição (norma, regra, crença, doutrina, prática), então o ego ressurge sob uma nova forma. Abandonar uma crença para abraçar outra, ainda que oposta, significa permanecer amarrado na mesma ilusão. A libertação só é real quando aquilo que se perde não é substituído, por mais elevada, sublime ou lucrativa que pareça a substituição e por mais sagrado que seja o objeto substituto. "Mesmo a melhor coisa não é melhor do que nada", diz a sabedoria Zen. A renúncia e desapego tem que ser absoluta e incondicional. A ação criadora assemelha-se ao som de um tambor, origina-se do vazio interior.
Por mais forte que seja a atração pela certeza e segurança, este impulso ou desejo é a principal origem e sustento do ego. O ego procura sempre escudar-se atrás de ideias que o protejam do desconhecido e imprevisível. Daí o esforço constante para conceptualizar e nomear a experiência. Sempre que uma crença é substituída por outra, não importa se falsa ou verdadeira, então o ego encontrou uma nova forma de apoio e sustento. Qualquer crença se converte num exercício auto-opressivo que envolve numa camisa-de-forças a experiência. O importante é o abandono de toda a crença, de todo o desejo de segurança. Trata-se de abraçar a insegurança e a incerteza, ou antes, de não lhes procurar fugir. Permanecer no silêncio e no vazio. Só então é possível contactar uma dimensão que nada tem a ver com as formulações do intelecto e maquinações ilusórias do ego. Só então a ação acontece desde uma percepção lúcida e direta da realidade.
O impulso à segurança é muito forte e subtil e por isso necessita vigilância constante. Porque o ego de tudo pode colher alimento, inclusive dos ensinamentos do mais santo, do mais sábio e bem intencionado guru ou profeta. Qualquer descrição, o ego irá procurar converter numa prescrição, e, portanto, num instrumento de manipulação da experiência. Porque o ego constitui-se essencialmente de resistência e controle. Na presença do ego, qualquer céu se pode converter num inferno. Na sua ausência tudo é invadido pela paz e bem-aventurança.
Observa a forma da tua resposta ao momento presente. Como lhe correspondes? Tomas como pressuposto que existe a forma correta, adequada, perfeita de responder ao desafio? Possuis armazenada ao nível conceptual uma fórmula ou receita que procuras aplicar? A tua ação é dirigida por uma ideia elaborada, uma crença, um conceito que armazenaste devido ao teu desejo de perfeição e segurança? A tua ação tem a proteção e mediação de uma ideia, não importando o rigor ou a santidade da sua proveniência? Ou antes, pelo contrário, te permites apresentar perante o desafio de uma forma completamente desarmada e vulnerável, quer dizer, de uma forma nua, direta, totalmente aberta e desprotegida?
Se a tua busca e aprendizagem resultou numa fórmula e se cristalizou num conceito na base do qual procuras atuar, então permaneces cego à realidade. Porque a realidade deste momento é sempre o desconhecido. "O desconhecido não é o futuro, porém o presente!" observou Krishnamurti. E o desconhecido não pode ser captado por qualquer conceito. Não pode ser abordado através de uma ideia. Só o podes contactar se a tua mente, os teus conceitos não se interpuserem, se não o procuras enformar dentro das tuas crenças e conhecimentos. O contacto com a realidade estabelece-se através da atenção, não do pensamento.
Se a tua busca e aprendizagem resultou numa fórmula e se cristalizou num conceito na base do qual procuras atuar, então permaneces cego à realidade. Porque a realidade deste momento é sempre o desconhecido. "O desconhecido não é o futuro, porém o presente!" observou Krishnamurti. E o desconhecido não pode ser captado por qualquer conceito. Não pode ser abordado através de uma ideia. Só o podes contactar se a tua mente, os teus conceitos não se interpuserem, se não o procuras enformar dentro das tuas crenças e conhecimentos. O contacto com a realidade estabelece-se através da atenção, não do pensamento.
O estado natural dispensa conhecimento e verbalização. É como a felicidade, só te apercebes da sua existência depois que a perdeste. Quando eras uma criança pequena nada sabias da felicidade. Eras feliz sem o saber e sem o nomear. É por isso que, em última instância, os ensinamentos dos homens sábios são como a porta deixada para trás uma vez atravessada. Para não serem convertidos num novo apego e numa nova carga. O Buda ensinava que não devemos carregar às costas a balsa que nos serviu para atravessar o rio. Sempre que existe o desejo de fixar um insight, uma experiência ou uma compreensão, este acaba por se converter numa nova forma de segurança e numa nova referência com a qual abalizar a ação. É apenas uma cela diferente dentro da mesma prisão.
A mente procura uma fórmula infalível que satisfaça o seu anseio de segurança e permanência, um conceito definitivo e imperturbável no qual se possa estabelecer de forma conclusiva. Mas esta esperança é completamente infundada e ilusória. Nada do que o pensamento concebe escapa à fluidez e impermanência do próprio pensamento. Tudo o que a mente constrói e formula, só subsiste enquanto suportado e alimentado pela própria mente. Mas a própria mente tem existência intermitente, surge e desaparece.
"Ama, et fac quod vis!" (Ama, e faz o que quiseres!), declarou Santo Agostinho. A única ação verdadeiramente inteligente só pode ser resultado do amor, que é a ação num total espaço de disponibilidade, abertura e não-saber. Apenas a consciência, quer dizer, o amor, pode receber a realidade. E o amor significa na verdade a tua ausência. Só quando tu não estás é que a verdade pode brilhar.
A mente procura uma fórmula infalível que satisfaça o seu anseio de segurança e permanência, um conceito definitivo e imperturbável no qual se possa estabelecer de forma conclusiva. Mas esta esperança é completamente infundada e ilusória. Nada do que o pensamento concebe escapa à fluidez e impermanência do próprio pensamento. Tudo o que a mente constrói e formula, só subsiste enquanto suportado e alimentado pela própria mente. Mas a própria mente tem existência intermitente, surge e desaparece.
"Ama, et fac quod vis!" (Ama, e faz o que quiseres!), declarou Santo Agostinho. A única ação verdadeiramente inteligente só pode ser resultado do amor, que é a ação num total espaço de disponibilidade, abertura e não-saber. Apenas a consciência, quer dizer, o amor, pode receber a realidade. E o amor significa na verdade a tua ausência. Só quando tu não estás é que a verdade pode brilhar.