A realidade e as palavras

"Quando te questionarem acerca dAquilo, nada deves negar ou afirmar, pois o que quer que seja negado ou afirmado não é verdadeiro. Como poderá alguém perceber o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver visto e compreendido? E que palavras poderão então emanar de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece apenas o silêncio. Silêncio... e um dedo apontando o caminho." -Siddhartha Gautama, o Buda






quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

As Palavras e as Coisas

Somos senhores do silêncio que conservamos e escravos do ruído que produzimos



U
ma experiência ou sensação do nosso campo factual, enquanto tal, é uma realidade incontestável. Dispensa confirmação ou demonstração e é imune a qualquer tentativa de refutação. Não pode ser impugnado aquilo que irremediável e irrefutavelmente é. Tal como o cogito cartesiano, está para além de toda a objeção. Se sofremos uma dor de dentes, é inútil toda a dissecação intelectual que procure pô-la em causa.

Enquanto no campo do silêncio, do fenómeno subjectivo, esta realidade permanece pura e soberana. Está para além de toda a controvérsia. Mas quando a denominamos, quando lhe damos um nome, transferimo-la para o espaço público. Corrompemo-la inevitavelmente. Tornámo-la vulnerável à contenda e à disputa. Aquela realidade sem nome, na sua pureza e originalidade, não existia antes da sua manifestação. Mas quando lhe damos nome transferimo-la para um invólucro que lhe é preexistente e que tem uma realidade própria com a qual ela agora é coberta, adulterada, desvirtuada, conspurcada. Tal como o liquido adquire a forma do recipiente onde é introduzido, assim também as palavras dão determinada forma às emoções e sentimentos que procuram representar.

Cumpre fazer aqui uma distinção entre aquelas duas dimensões, isto é, a realidade em si mesma e a realidade enquanto simbolizada. O aviltamento de que falamos apenas atinge esta segunda dimensão. A realidade enquanto tal e em si mesma, permanece intacta e na sua pureza original.

A linguagem é um produto social. É uma realidade colectiva. Está construída para satisfazer as necessidades da sociedade onde ela emerge. Daí não poder dar conta de uma necessidade ainda não manifesta. Creio que é por este motivo que nos causa tanta estranheza a literatura mística e espiritual oriunda dos homens sábios da Índia e da China. O progresso do conhecimento e a expansão da consciência deverão ser acompanhados por um correspondente dinamismo da linguagem. Este dinamismo tanto se poderá manifestar num alargamento do significado de determinadas palavras, como no surgimento de novos termos que possam dar conta da nova realidade emergente (ou da expansão da consciência da realidade).

As palavras são algo de muito limitado e insuficiente relativamente à função que deveriam desempenhar ou que delas esperamos. Principalmente quando procuramos representar uma realidade que não pertence ao domínio do concreto objectivo e material, mas sim ao domínio psicológico, subjectivo e imaterial. É neste último campo onde se regista a grande ineficiência das palavras por não haver possibilidade de confirmar empiricamente e de forma inequívoca que os diversos conceitos são interpretados de maneira uniforme pelas diversas pessoas.

Ao escolher do mundo das palavras aquelas com as quais pretende simbolizar a sua experiência, uma pessoa comete equívocos que poderão anular completamente qualquer sentido que fundamente a existência do mundo verbal, uma vez que este deixa de cumprir a sua função. E o cumprimento dessa função é a condição cuja verificação é indispensável, ou na qual reside qualquer valor ontológico ou pragmático que se lhe possa atribuir. Uma pessoa não apenas comete equívocos ao escolher do mundo verbal as palavras com que pretende simbolizar a sua experiência, como poderá mesmo acontecer que daquele mundo ainda não façam parte as palavras que a poderão simbolizar. Neste último caso a pessoa irá colocar um nome a algo que ainda não o tem. O dar nome implica sempre identificação e a identificação é sempre produto do passado. Quer isto dizer que a pessoa está a ver numa coisa nova, desconhecida e sem nome, uma coisa velha, conhecida, com nome. Se a pessoa não tiver consciência deste facto, então poderá ficar enredada num processo de pensamento cujo resultado poderá ser uma total dissociação da realidade. Isto é uma coisa gravíssima quando se trata de fenómenos do campo psicológico porque as palavras deixam de ser utilizadas como uma representação da realidade para a passarem a determinar. Acontece assim porque certos conceitos acarretam já consigo uma determinada carga emocional, provocam já determinados sentimentos e reacções automáticas. Há uma inversão absurda da ordem ontológica: deixa de se partir da realidade para as palavras (silêncio) para se partir das palavras para a realidade (preconceito).

A forma mais complexa, paradoxal e absurda que uma frase possa ter, poderá ser na realidade a utilização mais inteligente e adequada que se faz das palavras numa expressão. Se uma pessoa não quer atraiçoar verbalmente uma experiência de elevado grau de incomunicabilidade, a forma como mistura palavras numa tentativa de fazer a sua tradução verbal servindo-se dos nexos e símbolos de que pode dispor na sua língua, poderá parecer extremamente paradoxal e confusa. Se as palavras não podem expressar a sua experiência, então que se abstenha de o procurar fazer. E se o tentar comunicar, então que não entendam o que ela diga. Se a entenderem, a sua experiência terá sido atraiçoada na sua tradução; se a não entenderem, então terá sido eficaz e inteligente a sua comunicação. Perante uma realidade nova, desconhecida, o estado de espírito ou a atitude mais adequada é a humildade, a forma negativa no sentido socrático, e não a afirmação positiva.

Se uma coisa é nova, desconhecida, nada temos a objetar que seja criada também uma palavra nova para a simbolizar. É preferível a meter vinho novo em potes velhos. Se uma coisa não tem nome, então que seja descoberta em silêncio. Às palavras o que é das palavras; ao silêncio o que é do silêncio. O contacto com a realidade só acontece depois de transcendermos as palavras. Mais importante do que explicar as coisas é sentir as coisas. Para quê conhecer o que não se sente? É muito mais importante sentir o que não se conhece.